Balanço, 11 de Janeiro de 2021

Balanço

Os (meus) discos da década

texto Paulo Chagas fotografia José Félix da Costa

O multi-instrumentista que conhecemos de projectos como Peixe Frito, Wind Trio e Palimpsest e da organização do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia apresenta-nos neste começo de uma nova década os 10 discos que, de uma maneira ou de outra, mais o marcaram na que passou.

Terminado o ano maldito que atravessámos e entrada uma nova década, eis que me surgiu a vontade de elaborar uma lista - eu que nem sou grande apreciador de listas. Neste caso não se trata de uma lista de melhores nem de piores, mas simplesmente uma lista de álbuns que ouvi com prazer (não necessariamente os melhores) ao longo dos últimos anos. Ou melhor, um disco por cada ano da década cessante. 

Não querendo chamar para aqui a discussão de quando começa ou acaba uma década, pois, no fundo, todos temos de nos submeter à contagem decorrente do calendário gregoriano, pareceu-me óbvio começar a minha lista em 2011 e acabar em 2020. Ainda assim, para os mais cépticos, resolvi também incluir não apenas um, mas sim dois discos representando o já longínquo ano de 2010 - até porque esse foi um ano particularmente marcante para mim.  

2010 - Ingar Zach: “M.O.S.” (Sofa Music) + John Zorn / Fred Frith: “Late Works” (Tzadik) 

 

“M.O.S.”, do percussionista norueguês Ingar Zach, é seguramente um dos discos que mais vezes ouvi ao longo dos últimos dez anos. Música envolvente e hipnótica que leva a uma audição completamente viciante. Metais, madeiras, peles e pedras juntando-se às electrónicas e shruti-boxes num continuum sonoro com uma dinâmica notável. Uma obra monumental. Igualmente monumental e viciante (se bem que nem sempre muito amigável) é o trabalho da dupla de velhos cúmplices formada pelo americano John Zorn e o britânico Fred Frith. Apesar de serem ambos multi-instrumentistas, dedicam-se aqui exclusivamente ao saxofone alto e à guitarra eléctrica, numa retoma do projecto de palco iniciado nos anos 1980 e que viu a sua primeira edição fonográfica em 1994 com o registo ao vivo “The Art of Memory”. Em “Late Works” os músicos mostram toda a sua maturidade, criatividade, energia e competência num conjunto de 10 improvisações gravadas pela primeira vez em estúdio. 

2011 - The Claudia Quintet: “What is the Beautiful?” (Cuneiform Records)

 

Este quinteto não tem Cláudia nenhuma. O nome surgiu simplesmente de uma espécie de piada que o seu baterista e principal compositor, John Hollenbeck, costumava trocar com os colegas do trio Refuseniks que esteve na origem do quinteto. Piadas à parte, trata-se de um supergrupo em que alinha gente famosa como Chris Speed (clarinete, sax), Drew Gress (contrabaixo), Matt Moran (vibrafone) e Ted Reichman (acordeão), além do já referido baterista. Tudo craques, pois claro, que nos foram brindando, desde o início deste século, com um jazz camerístico de grande elegância e tecnicamente imaculado. “What is the Beautiful?” é o sexto álbum do ensemble que, para o efeito, convocou mais três artistas - o pianista Matt Mitchell e os cantores Kurt Elling e Theo Bleckmann. Todos eles acabam por trazer uma abordagem ainda mais requintada às composições de Hollenbeck, que aqui deixavam de ser exclusivamente instrumentais, para interpretar brilhantemente um conjunto de poemas do escritor americano Kenneth Patchen, considerado um dos pais da “beat generation''. 

2012 - Henry Threadgill Zooid: “Tomorrow Sunny/The Revelry, Spp” (Pi Recordings)

 

Para além de toda a monumentalidade que decorre da criatividade e da técnica do soprador e compositor americano que lidera este grupo, aquilo que igualmente encanta nas peças de Threadgill é a invulgar instrumentação que lhes está associada. Liberty Ellman (guitarra), Jose Davila (trombone e tuba), Christopher Hoffman (violoncelo), Stomu Takeishi (baixo eléctrico) e Elliot Humberto Kavee (bateria) em ligação às flautas e saxofones do líder, apresentam uma música de estrutura rendilhada em progressão ondulante, capaz de nos prender desde os primeiros momentos de audição. 

2013 - Iva Bittová: “Iva Bittová” (ECM)

 

Violino, voz e kalimba são os únicos trunfos que a multifacetada artista checa apresentou neste seu disco a solo para a prestigiada editora alemã. Na ocasião, Iva Bittová diria que ainda estava longe de decidir que nome dar ao seu estilo de música, sabendo apenas que o violino funciona como um espelho que reflecte os seus sonhos e a sua imaginação. Pela nossa parte, enquanto admiradores da artista, pouco nos importam os nomes e as teorizações, enquanto a beleza da sua obra nos continuar a proporcionar o prazer e a emoção a que nos habituou. Este disco é um bom exemplo disso - um verdadeiro banho de tranquilidade e conforto.  

2014 - Luther Gray / Jim Hobbs / Kaethe Hostetter / Winston Braman: “Lawnmower II” (Clean Feed)

 

Devo dizer que Jim Hobbs é um dos meus saxofonistas vivos favoritos. E é ele, sem dúvida, que dá a característica mais singular ao som do projecto Lawnmower, conduzido pelo baterista Luther Gray. Neste segundo álbum do grupo, o formato foi radicalmente modificado em relação ao anterior, em que, além de Gray e Hobbs, participavam dois guitarristas. Aqui, as guitarras foram substituídas pelo violino de Kaethe Hostetter (uma habitual aventureira nas andanças multiculturais) e pelo baixo de Winston Braman (oriundo das ondas do rock alternativo). O som da banda perdeu a aspereza do seu início, mas ganhou uma perspectiva muito mais abrangente e dinâmica. Um álbum excelente, divertido e recheado de passagens inesquecíveis. 

2015 - Desert Sweets: “A Place Meant for Birds” (Balance Point Acoustics) 

 

Pura improvisação de câmara é do que aqui se trata, com uma instrumentação bastante invulgar. Biggi Vinkeloe no sax e flauta, Damon Smith no contrabaixo e Mark Weaver na tuba e no didgeridoo apresentam-nos sete abordagens ao jazz contemporâneo, pelas quais alternam entre uma linguagem derivada do bebop e outra mais académica, estabelecendo uma paleta tímbrica vanguardista, articulada com técnicas extensivas dos vários instrumentos. Dizendo de outra forma, temos aqui perfeito contraponto entre exploração sonora e melodias puras. Chamaram-lhe um lugar destinado a pássaros. Resta saber se os pássaros são quem toca ou quem os ouve. 

2016 - John Zorn: “The Classic Guide to Strategy - Vol. 4” (Tzadik)

 

Evangelho segundo São Zorn, ou o manual do soprador pós-moderno. No quarto volume desta bíblia dos saxofonistas, o multifacetado músico americano apresenta uma autêntica “masterclass” da abordagem radical do instrumento. Uma obra que merece a nossa mais cuidada atenção, a começar logo pela capa assustadora em que se pode ver uma boquilha ensanguentada. Como diria Evan Parker, na altura da edição do primeiro volume desta saga, «John Zorn oferece-nos uma nova visão sobre a música das palhetas». Pessoalmente, acho que todos os aspirantes a saxofonista deviam ser obrigados a ouvir este disco, pelo menos uma vez por semana. Todos os que acham que a música do homem perdeu interesse deveriam ouvi-lo todos os dias. E mais não digo. 

2017 - Kyle Bruckmanns' Degradient: “Dear Everyone” (Not Two Records)

 

O compositor e virtuoso oboísta americano Kyle Bruckmann há muito que nos habituou a uma música plena de energia e extravagância. Neste duplo CD do seu projecto Degradient, a progressão das 18 peças que constituem “Dear Everyone” é altamente cinematográfica, oscilando entre o lirismo e a fantasia, sempre com um toque de quase desconforto que nos prova que a grande música tem de arranhar a consciência. Além de Bruckmann no oboé, no corne inglês e na electrónica, o grupo completa-se com Aram Shelton  em sax e clarinetes, Weston Olencki no trombone, Jason Hoopes  no baixo e Jordan Glenn na percussão. Um disco algures entre o rock, o free jazz e a música contemporânea.  

2018 - Dweezil Zappa: “Live in the Moment II” (Fantom Records)

 

Depois de uma carreira a solo com relativo sucesso comercial, o filho mais velho de Frank Zappa decidiu ganhar a vida a recriar a música do seu progenitor. Sendo o incrível guitarrista que é, Dweezil tem conseguido, desde há mais de uma dúzia de anos, levantar verdadeiros monumentos em homenagem ao genial músico precocemente desaparecido em 1993. O projecto “In the Moment”, que já vai no segundo volume, é constituído por uma série de improvisações compiladas de vários concertos do grupo Zappa Plays Zappa, numa demonstração de veneração e respeito por um dos trabalhos mais emblemáticos do pai - “Shut Up and Play Yer Guitar”. Frank chamava a isto «esculturas aéreas». Dweezil tratou de limpar o pó a algumas delas e criar outras tantas de forma magistral. 

2019 - Fire! Orchestra: “Arrival” (Rune Grammofon)

 

Formada em 2009 para desenvolver uma nova abordagem à música improvisada, com base nas influências do free jazz, do rock psicadélico e do noise, a nórdica Fire! Orchestra assenta essencialmente no trabalho do núcleo duro constituído por Mats Gustafsson (sax), Johan Berthling (baixo) e Andreas Werlin (bateria). Em “Arrival”, o quarto álbum do grupo, há todo um novo conceito em torno do ensemble acústico de 15 elementos. As cores e os perfumes do disco brotam especialmente das vozes das cantoras Mariam Wallentin e Sofia Jernberg, assim como de toda uma secção de cordas e de clarinetes, ocasionalmente pontuadas pela densidade enérgica da secção rítmica e dos metais. De realçar a última faixa, “At Last I Am Free”, uma nostálgica e comovente versão de um clássico do disco sound, escrito por Bernard Edwards e Nile Gregory Rodgers. 

2020 - Anja Lechner / François Couturier: “Lontano” (ECM)

 

O duo de Anja Lechner e François Couturier, respectivamente em violoncelo e piano, teve a sua estreia em 2014 com “Moderato Cantabile'', trabalho amplamente aclamado pela crítica internacional. Em 2020, alargando ainda mais o âmbito da música, a parceria assume voz própria e reforça a sua marca característica, seja com composições originais, seja com improvisações livres, ou ainda com inclusão de referências subtis de compositores tão distintos como Henri Dutilleux, Giya Kancheli, Anouar Brahem e até J. S. Bach, num verdadeiro exercício expressionista. Música intemporal e imaculadamente tocada.