Jazz Vária, 10 de Dezembro de 2020

Jazz Vária

Cadinhos de liberdade (23/ A era dos “lofts”)

texto António Branco

A ideia de controlo político e económico da sua arte, num quadro de exploração e segregação racial, era particularmente perseguida pelos músicos negros de jazz. No final dos anos sessenta do século XX emergiu uma cena artisticamente vibrante em espaços antes abandonados da baixa de Manhattan. António Branco lembra a era dos “lofts” no vigésimo terceiro episódio de Jazz Vária.

As principais capitais da história do jazz são Nova Orleães, Chicago e Nova Iorque. Na primeira germinou, na segunda desenvolveu-se, na terceira explodiu. Depois dos abalos tectónicos do be bop, em meados dos anos 1940, e do free, na viragem de cinquentas para sessentas, a Big Apple foi centro, na década de 1970, de um dos períodos mais singulares e criativamente fecundos da centenária longevidade do jazz.

Em dezenas de “lofts”, estúdios e clubes – por vezes tudo isto ao mesmo tempo – localizados em plena “downtown” nova-iorquina (Lower East Side, SoHo, Bowery) e geridos pelos próprios músicos, brotou um movimento ligado ao jazz de vanguarda e à música improvisada (mas não só) que deixou marcas que perduraram, mas cujos contornos ainda estão, em boa medida, por mapear e estudar devidamente.

A chamada “era do lofts” pode ser temporalmente balizada entre 1970 e inícios da década de 1980, embora tal sirva apenas de referência. Em rigor, desde finais de sessentas que espaços como o Artist House, de Ornette Coleman, o Studio Rivbea, de Sam Rivers (na foto) ou o Studio We, gerido em parceria pelo trompetista James DuBois e o percussionista Juma Sultan, apresentavam concertos ao vivo. Outros espaços mantiveram-se em funcionamento até muito mais tarde, como o Studio W.I.S. de Warren Smith, que só fechou portas em 2001.

O próprio conceito de “loft” é impreciso. Alguns dos espaços utilizados pelos músicos como base operacional eram efetivamente “lofts” – andares abertos de antigas instalações industriais ou armazéns desativados, modificados pelos músicos para ir ao encontro das suas necessidades enquanto criadores. Outros ficavam em águas-furtadas e outros ainda abaixo do nível do solo, em caves húmidas e escuras, como o Ladies’ Fort e o Studio Henry. O Ali’s Alley, do baterista Rashied Ali, e o Ladies’ Fort foram clubes que operavam como espaços comerciais. Já o Studio Rivbea, organização sem fins lucrativos, era um complexo constituído por uma sala de concertos, ao nível da rua, um estúdio na cave e um espaço para os músicos noutro piso. Muitos destes locais acumulavam também a função de residência dos músicos e suas famílias. O Studio Infinity foi gerido por David Murray quando este ainda era estudante.

Com o dealbar dos anos 1980 veio o aumento do interesse imobiliário naquela zona, o que aqueceu o valor das rendas de aluguer, tornando-se para muitos artistas impossível pagá-las. Vários espaços viram-se obrigados a encerrar num ápice, apesar de terem sido geridos com visão quase empresarial durante anos. O sucesso económico e o rumo artístico de cada “venue” eram fruto da personalidade e da perspetiva de quem o geria. Os “lofts” foram espaços de criação que expressavam toda uma filosofia de vida, uma declaração de independência ou de rejeição dos valores convencionais, que muitas vezes chocava com as necessidades materiais para os manter abertos. Locais de trabalho individual ou de apoio à comunidade musical, os “lofts” foram, como nota Ed Hazell no ensaio “A Place to Play What We Want: A Short History of the New York Lofts”, «locais largamente utilizados por toda a comunidade do jazz, pela comunidade artística afroamericana e, em certa medida, pela população afroamericana em geral.»

Depois de ter sido convidado a integrar o quinteto de Miles Davis, o multi-instrumentista e compositor Sam Rivers mudou-se de Boston para Nova Iorque em 1963. Apesar da escassa duração dessa formação, Rivers decidiu permanecer na cidade e logo procurou um local estável para viver e trabalhar. Encontrou um espaço no Harlem, mas faltaram-lhe os fundos. Em 1969, fixou-se no número 24 da Bond Street, a que chamou Studio Rivbea (uma justaposição das primeiras sílabas do seu apelido e do nome da sua mulher, Beatrice). Nos panfletos dos concertos explicava o conceito: «Studio Rivbea Inc. é uma atividade cultural, um centro de energia, uma organização sem fins lucrativos dedicada à promoção e exposição de artistas talentosos que mereçam maior reconhecimento.»

Rashied Ali, antigo baterista de John Coltrane, abriu em 1973 o seu Studio 77 nesse mesmo número da Greene Street (mais tarde renomeado Ali’s Alley). Filho e neto de pintores de construção civil, Ali encarregou-se, ele próprio, do trabalho de renovação do espaço, contando com o apoio de outros músicos. Disse em entrevista ao trombonista Bill Lowe incluída em “The Anthology of Black Classical Music”: «As pessoas separam os músicos dos negócios, mas se os músicos pusessem uma pequena percentagem dos seus esforços no nosso negócio, poderíamos ter as nossas próprias editoras, os nossos próprios espaços para tocar. Parece que não temos locais para tocar o que queremos.» Apesar do otimismo militante de Ali, o espaço fechou em 1979.

Quando chegou a Nova Iorque em 1963, James DuBois já tinha em mente uma organização de músicos para gerir os seus próprios destinos. Em 1959, o trompetista havia fundado em Pittsburgh a Society of Universal Culture and Arts, cujo propósito central era criar empregos para músicos de jazz e dinamizar a comunidade envolvente. De partida para uma digressão europeia, em 1968, o pianista Burton Greene deixou o seu apartamento (onde se faziam intermináveis “jam sessions”) entregue a DuBois até ao seu regresso. Era suposto Greene estar ausente durante um mês, mas esteve-o ano e meio. E muita coisa aconteceu no ínterim. O espaço acolheu inúmeras apresentações a partir de 1970, quando o trompetista apresentou um concerto chamado “We”. O apartamento foi a semente que originou um conjunto de atividades que se estenderam ao resto do edifício e até 1983.

Também o cantor Joe Lee Wilson teve o seu “loft”, o Ladies’ Fort, que funcionou mais como clube, também na Bond Street. O espaço abriu em 1974, quando Wilson o arrendou a um professor apaixonado por jazz por um período de cinco anos (em troca pagou-lhe à cabeça um ano inteiro de renda). Ele e um sócio, um veterano da guerra do Vietname, vasculharam as ruas de Nova Iorque à procura de mobiliário descartado, mas em bom estado, para o decorar. O Ladies’ Fort foi um dos “lofts” com programação mais diversificada, até que o seu tempo terminou, em 1979.

No verão de 1977 irrompera aquilo que o jornalista do New York Times, Robert Palmer, apelidou de “quase guerra” entre o Studio Rivbea e o Ladies’ Fort durante o Festival de Jazz de Newport – os seus festivais rivais dividiram o público, o que levou a recriminações por parte do “loft” melhor estabelecido, o Rivbea, que cancelou o seu festival como forma de protesto.

A música acabou nos “lofts”, mas para os músicos mais inconformados a luta continuou. O contrabaixista William Parker, por exemplo, figura incontornável da cena “downtown” que emergiu deste movimento nos anos 1970, fundou a associação Arts for Art e organiza anualmente o Vision Festival, ainda hoje uma estrutura dirigida por artistas e devedora desse período. A chama continua acesa.