Afrofuturismo, 19 de Novembro de 2020

Afrofuturismo

Os glutões lavam mais branco

texto Gonçalo Falcão

Do jazz até à pop, os glutões lavam mais branco. Assistimos a uma autêntica chuva de meteoritos afrofuturistas, mas é cada vez maior a necessidade de voltar ao primeiro piloto do futuro: Sun Ra. Ora vamos lá.

Quando Sun Ra criou a sua visão espacial da emancipação negra em 1960, ou quando George Clinton criou o universo cósmico do P-Funk em 1975, não existia o termo “afrofuturismo”, que só foi criado no ano da morte de Sun Ra, em 1993, por Mark Dery. A ficção científica deu ao genial teclista uma solução imaginada para o problema da discriminação e minoração dos afro-americanos. Se tivermos em consideração que a literatura do género lidou frequentemente com os problemas sociais criados pelo desenraizamento das grandes viagens, a relação com o outro (o extraterrestre), e propôs futuros melhores no espaço para fugir aos distópicos na Terra, percebemos as razões que o levaram para o espaço. O afronauta usa a história da diáspora africana e propõe um segundo salto, desta vez para um universo de libertação e eternidade cósmica, «capable of funkitizing galaxies», como Clinton disse.

A ideia original é de Sun Ra, que disse que vinha do planeta Saturno (a ideia é parecida com a do Super-Homem, o único super-herói que nasce com superpoderes por vir de outro planeta e que tem de os esconder para ser humano (enquanto humano é tímido, desajeitado, maçador). Sun Ra pegou numa imagem idealizada dos Núbios – negros do vale do Nilo (actualmente Egipto e Sudão), que criaram a mais antiga civilização africana, o antigo Egipto – e vestiu a sua Arkestra com brilhantes e douradas vestes egípcio-futuristas.

A mitologia de Sun Ra está relacionada com a ideia de transcendência, em vez da de confrontação ou conflito, e com a fusão mágico-tribalista com a tecnologia. O jazz é o veículo da libertação e a sua música, feita com uma “big band” que recupera a dimensão colectiva do início do jazz e o sentimento comunitário tribal, é uma mistura de “grooves” meditativos, ciclos repetitivos que antecipam o hip-hop (incluindo os temas que são cantados), melodias incríveis e o buraco negro do free jazz. Em Sun Ra, mas também no John Coltrane de “Interstellar Space”, em  Herbie Hancock, (quando sai do território confortável do jazz e dos instrumentos tradicionais para a fusão impulsionada pela tecnologia) ou em George Clinton, o espaço e a tecnologia são o combustível para a viagem e para a glorificação da libertação espiritual e social. Ao longo da sua vida, Sun Ra preferiu os teclados electrónicos e usou vários tipos de sintetizadores, desde o Farfisa, o Clavioline, o MiniMoog e o ARP até aos Yamaha. Foi o músico de jazz mais ecléctico do século XX e conseguiu comprimir quase toda a história do jazz na música que escreveu e tocou com a Arkestra.

O afrofuturismo teve o seu momento mais popular no seu “Space is the Place”, disco e filme. Também “Thrust” de Herbie Hancock ou “Mothership Connection” dos Parliament apresentam-se futuristas, desde a imagem das capas às músicas, prontos para a viagem. Estávamos em 1973 (o filme é de 1974). Hancock edita em 1974 e os Parliament em 1975. 

Passado a ferro

Sun Ra Arkestra 

George Clinton

Earth, Wind & Fire

Sun Ra morre em 1993 e depois disso o afrofuturismo parece ter sobrevivido apenas nas memórias e reedições da sua música. Foi o trabalho de uma vida e por isso ficou seu, fixado em discos espantosos como “Jazz in Silhouette”, “Astro Black”, “Monorails and Satellites”, “The Nubians of Plutonia”, “Atlantis”, “Super-Sonic Sounds”, “Lanquidity”, “Nuclear War”, “Concert for The Comet Kohoutek”, “Outer Spaceways Incorporated” e tantos outros. Na música pop as suas ideias contagiaram não só o grupo de George Clinton, mas também outros, como por exemplo os Earth, Wind & Fire.

E como tantas das invenções feitas nos anos 1960 e 70, eis que, por volta de 2010, o tema é redescoberto e identificado o seu potencial comercial. É lavado, passado a ferro, branqueado e pronto para sair novamente à rua. É um afrofuturismo 2.0, que tem como objectivo usar o “conceito” e a imagem como elementos distintivos (excepcionamos o grupo Spaceways Inc.,  de Ken Vandermark, que tinha feito em 2000 dois discos excepcionais, um dos quais “Thirteen Cosmic Standards from Sun Ra & Funkadelic”, mas em que objectivo não era a recuperação do afrofuturismo e sim a releitura das canções pelo som duro do grupo). O “novo” afrofuturismo é transitório, superficial. Não vai fundo na questão, não quer assumir compromissos nem contratos de fidelização. Prescinde da tecnotopia (com algumas excepções), pois a questão ecológica é mais vendável.

The Last Electro-Acoustic Space Jazz & Percussion Ensemble, com um disco com o mesmo nome logo em 2010, é um dos exemplos iniciais, que não terá mais desenvolvimentos. Ainda no início do processo de reabilitação chegamos à capa de “The Archandroid” de Janelle Monáe, também de 2010, no qual a cantora aparece com uma coroa que a aproxima do robô da longa-metragem “Metropolis”, de Fritz Lang. A cantora fala de um futuro (2719) pós-apocalíptico cheio de andróides. No hip-hop, Jay Electronica, com “A Writen Testimony”, ou Meshell Ndegeocell com “Comet, Come to Me”, são outros casos que mostram que as ideias podiam ser atraentes em galáxias diferentes.

A meio caminho entre o jazz e o hip-hop encontramos Taylor McFerrin (filho de Bobby) a trabalhar na fusão de eletrónica, jazz, soul e hip-hop. Flying Lotus (um dos poucos que não recusam o elogio à tecnologia) integra o corpo artístico de uma editora de Los Angeles, a Brainfeeder, que está muito em cima deste filão. Ras-G e o seu “Ras_G Afrikan Space Program”, ou The Gaslamp Killer, são mais dois exemplos de música de dança com “space-zzest” nascidos na Brainfeeder. Também deste lado do oceano encontramos uma editora a trabalhar este mercado: a inglesa Strut edita a Sun Ra Arkestra (reavivada e dirigida por Marshall Allen) e aposta forte neste ramo da diz-que-é-space-afro-pop com os Nubiyan Twist (cujo disco de 2016 se chama “HeadHunter” e o mais recente “Freedom Fables”) e os Onipa que, tal como Flying Lotus, glorificam a tecnologia. No “press release” para o seu mais recente disco somos esclarecidos de que não dão “sensações” afrofuturistas.

À boleia do cometa

 Meshell Ndegeocell por Jason Roberts

Sons of Kemet

Flying Lotus

Kamasi Washington

Matana Roberts

No jazz, como seria de esperar, a recuperação destas ideias é mais notória. Os Sons of Kemet de Shabaka Hutchings ou mesmo os mais pop-dub The Comet is Coming, em que o saxofonista também toca, chegaram cedo a esta estação orbital, logo em 2013. Em 2015 dá-se a apropriação definitiva do género com a chegada de Kamasy Washinton. Aproveitou a boleia do cometa que, como vimos, já estava em andamento, e lançou o seu disco de estreia, “The Epic”, em que toca o modal pós-coltraniano (ex.: Alice Coltrane, McCoy Tyner, Pharoah Sanders) coberto por um manto espácio-freak. O trompetista Josef Leimberg lança “Astral Progressions” em 2016. Flying Lotus também se afirma em 2015 com “You’re Dead!” (único a manter o namoro com a tecnologia, com Thundercat no baixo, que também toca com Kamasi), estabelecendo-se por completo neste território que sondava desde 2008. Dá uma outra visão, mais digital e psicadélica, com um pop com cheirinho, muito próximo do hip-hop de Kendrik Lamar. Ainda este ano tivemos o lançamento de “Shaman!”, de Idris Ackamoor & The Pyramids (na Strut), que logo no nome assume o programa espacial criado por Sun Ra. A flauta e o saxofone do líder, Ackamoor, são dominantes e as percussões imprimem um afro-beat felakutiano, o que resulta num jazz alegre e dançável. O saxofonista e compositor Idris Ackamoor toca um jazz espiritual afro-referenciado que mistura Sun Ra com Art Ensemble de Chicago. A fonte musical onde Idris Ackamoor bebe está mais próxima dos grupos da década de 1970 como Mombassa ou Catalyst do que de Ra. Visualmente e musicalmente os Pirâmides são muito mais malianos do que egípcio-cósmicos.

O espaço é um pretexto, um repositório e uma iconografia; não é a vontade de construção de uma audiotopia através do trabalho de uma vida. E o afrofuturismo é só uma das possibilidades. Encontramos ainda outras ideias afrocêntricas (“conceitos”), como o do reencontro com o jazz sul-africano dos Ancestors de Shabaka Hutchings (joga em vários tabuleiros), uma ideia romantizada das Caraíbas em Nubya Garcia, o êxodo esclavagista de Makaya MacCraven ou Matana Roberts, o colectivismo de Damon Locks ou o pan-africanismo de Philip Cohran.

Os Sixties e os Seventies foram um período de enorme inovação e criatividade. As experiências sucediam-se a um ritmo impressionante e por isso temos a sensação de que muita coisa ficou por desenvolver, na voragem de tanto inventar. Não é por isso disparatada toda esta movimentação “vintage” no rock, no jazz e em tantas outras áreas, onde se andou para a frente na vertigem de tudo ensaiar e tudo mudar. Contudo, nem sempre a revisão assume um compromisso com a coisa revista, e por vezes parece usá-la apenas como uma roupa bonita para um “date” no Tinder. Entre 2015 e 2016 saíram vários discos afrofuturistas que no álbum seguinte já são outra coisa. Assim sendo, o melhor é voltar às raízes e reouvir a obra absolutamente extraordinária de Sun Ra, o grande musonauta, com a qual podemos viajar até planetas distantes, sempre em espanto.