Miles Davis e Prince, 27 de Outubro de 2020

Miles Davis e Prince

Posso tocar contigo?

texto António Branco

Nem Miles Davis foi alguma vez uma estrela pop, nem Prince um músico de jazz. Mas aventuraram-se ambos pelos territórios musicais do outro, nutrindo uma admiração mútua, cuja concretização real conhecemos pouco. A ponta do véu foi agora levantada, pelo menos oficialmente, com a edição de dois temas.

Assim que Miles Davis (1926-1991) retomou a gravação de música nova, no início da década de 1980, após um hiato de quase meia década longe dos estúdios, logo reparou num jovem franzino de Minneapolis que cantava, tocava diversos instrumentos, dançava e produzia sozinho os seus discos. «Aqui estava alguém que fazia algo diferente, então decidi ficar de olho nele», escreveu na sua autobiografia de 1990, onde se encontram várias referências a Prince (1958-2016). Numa delas, Miles comparou o estilo vocal deste (que ia do falsete ao barítono) com a abordagem que Sonny Rollins desenvolvera no saxofone.

Miles absorveu influências de James Brown, Jimi Hendrix, Parliament / Funkadelic ou Sly Stone e eletrificou o seu som em discos como “In a Silent Way” (1969) e “Bitches Brew” (1970). Mais tarde, já na década de 1980, atento ao que passava na MTV, aproximou-se de territórios pop, tendo gravado versões de Michael Jackson e Cindy Lauper, o que deixou os puristas do jazz mais empedernidos à beira de um ataque de nervos.

Quando, em meados da década de 1980, alguém da Warner Bros. (então a nova editora de Miles, depois de três décadas na Columbia, de onde saíra insatisfeito) contou a este que Prince o considerava um dos seus heróis musicais, o trompetista sorriu: «Fiquei feliz e honrado por ele me ver dessa maneira.» «Ele toca guitarra e piano muito bem. Mas é aquela coisa da “igreja” que eu ouço na música dele que o torna especial, e aquela coisa de órgão. É uma coisa de negros e não de brancos. Ele é a música das pessoas que saem depois das dez ou onze da noite. Acho que quando Prince faz amor, ele ouve bateria em vez de Ravel», escreveu Miles. Haverá maior elogio do que chamar-lhe «o Duke Ellington do nosso tempo»?

Por seu lado, Prince explorou territórios derivados do jazz não apenas no projeto lateral Madhouse – que lançou dois álbuns, “8” e “16”, ambos em 1987 pela sua Paisley Park Records –, mas também em discos em seu nome como “The Rainbow Children” (2001), “Xpectation” (2003) e “N.E.W.S.” (2003).

Prince era ele próprio filho de um pianista de jazz, John L. Nelson, que o batizou com o nome do grupo que liderava, o Prince Rogers Trio. John dizia-se influenciado por Ellington e Thelonious Monk e Prince tinha em Miles Davis um dos seus ídolos, pela capacidade camaleónica de processar estilos e desafiar convenções. O inverso também era verdadeiro, pois Miles revia-se em Prince e na forma como este detestava limitações ao seu controlo artístico. Uma versão mais jovem de si próprio. O que não impediu alguns choques entre os seus (enormes) egos.

O encontro inicial entre ambos terá sido fortuito. De acordo com o então empresário de Prince, Alan Leeds, ocorreu no LAX, aeroporto internacional de Los Angeles, em dezembro de 1985, quando Leeds e Prince se preparavam para recolher as bagagens. Leeds contou ao sítio TheLastMiles.com: «Vi o Miles Davis, toquei nas costas de Prince e apontei. Apresentei-me e tudo acabou com Prince a entrar no carro de Miles, estacionado no parque. Conversaram durante cerca de vinte minutos e trocaram números de telefone.» Leeds, uma das pouquíssimas pessoas a quem Prince confiou a gestão dos seus telefonemas, recebeu várias chamadas de Miles, a quem ouvia, na sua lendária voz rouca, dizer: «Tell that little purple motherfucker to contact me!»

Darryl Jones, antigo baixista de Miles, recorda que por alturas das gravações de “Decoy” (1984) e de “You’re Under Arrest” (1985), Miles ouvia muito Prince, muito funk e pop, e nada do jazz que então se fazia. O que lhe interessava era música nova, música que ele não conhecia (o jazz conhecia-o todo) e Prince estava no píncaro das suas preferências. «Penso que a ligação do Miles ao Prince foi através da ligação de Prince com James Brown.»

O álbum não-oficial “Yall Want Some More: The Flesh Sessions Extra & Hollywood Session 85-86”, lançado pela Purple Gold Archives (especializada em Prince), contém também registos de gravações realizadas durante esse período como base para uma eventual colaboração. O álbum “Tutu”, de Miles, fora originalmente pensado como uma parceria entre ambos, que não se veio a concretizar. Os dois acabariam por tocar juntos na passagem de ano de 1987 para 1988, em Paisely Park, complexo de estúdios e residência de Prince, em Chanhassen, subúrbios de Minneapolis, na única colaboração que ambos mantiveram em palco.

Miles subiu ao palco e tocou um solo de cinco minutos num “medley” intitulado “It’s Gonna Be A Beautiful Night”, cujo registo em vídeo está na monumental reedição “super deluxe” de “Sign O’ The Times”, editada no mês passado (há muito é conhecida uma edição não oficial desse concerto, intitulada “Miles From The Park”, disponível na internet). Em declarações alusivas à presença de Miles em palco, alguns dos músicos da banda de Prince, como o guitarrista / baixista Levi Seacer Jr., o teclista Matt “Dr.” Fink e o saxofonista e flautista Eric Leeds (irmão de Alan) confessaram que esqueceram o líder por momentos para fixarem olhos e ouvidos em Miles. Esta caixa contém também o registo áudio (em estúdio) de “Can I Play With U?”, um funk ameno e superproduzido, mas sem grande história, com que Prince quis impressionar o mestre.

Marcus Miller, baixista e colaborador de Miles durante os anos 1980, disse que nessa época estavam todos sob a influência do músico de Minneapolis. Prince escreveu “Can I Play With U?”, cuja base gravou para Miles e o seu grupo terminarem (deveria integrar o álbum “Tutu”, mas foi retirada no último instante, alegadamente por destoar do restante material). Ter-se-á sentido Prince intimidado por considerar que não fazia sentido produzir ou dar indicações musicais a Miles? Mas a influência de Prince está em todos os recantos desse disco. Por alguma razão Miller escreveu “Full Nelson”, o tema que o encerra, com ele em mente (algumas fontes sugerem que o dedicatário é Nelson Mandela, mas Miller esclarece tudo).

Nesse ano de 1988, Miles gravou à distância um solo de trompete para ser incluído na canção “Sticky Wicked”, escrita a meias por Prince e Chaka Khan e incluída no álbum “CK” da cantora. Miles costumava tocar canções de Prince nos seus concertos, como “Movie Star” ou “Penetration”. É também conhecida uma versão desta última, que Miles tocou ao vivo em França em julho de 1991, apenas dois meses antes da sua morte, o que prova que o músico de Minneapolis influenciou o trompetista até ao final da sua vida.

Resta a esperança de o arquivo com material nunca lançado (o lendário “The Vault”) vir a revelar outras surpresas. Após a morte de Prince, o arquivo foi transferido para um espaço de alta segurança em Los Angeles. O arquivista Michael Howe foi evasivo na resposta que deu à revista “online” Blitz sobre a existência destas gravações: «Isso é algo a que, especificamente, eu não posso responder. Pode usar a sua imaginação e interpretar a minha resposta como entender... Mas há lá muita coisa...»

Erin Davis, filho de Miles, disse em 2016 à Pitchfork que, quando tinha 10 ou 11 anos de idade, por volta de 1986 (ano em que saiu “Tutu”), decidiu experimentar a bateria e o pai comprou-lhe um “kit”. Quando começou a querer tocar alguma coisa, Miles pediu-lhe para aguardar um momento. Passou-lhe um “walkman”, pôs a tocar o álbum “1999” e disse-lhe: «Aprende a tocar isto.» «Ele queria que pensássemos no que viria a seguir e não no que ficou para trás», disse Erin. Miles nunca se deixou enclausurar em feudos.

Também Easy Mo Bee, colaborador de Miles em “Doo-Bop” (lançado postumamente em 1992), desconhecia a colaboração entre ambos até que Gordon Meltzer, então o seu agente, lhe mostrou as gravações que ficaram conhecidas como “Rubberband”. Duas das canções de “Doo-Bop”, “High Speed Chase” e “Fantasy”, foram retiradas do arquivo de Prince. «Tínhamos terminado seis músicas, eu e Miles, mas entretanto ele faleceu. E foi então que Gordon me disse que tinha dois temas para completar o álbum e que os iria buscar ao arquivo de Prince.» Prince colocara três temas à consideração de Miles: “Penetration”, “Jail Bait” e “A Girl and Her Puppy”. A Warner pediu a Prince que completasse as canções para “Doo-Bop”, mas Prince recusou por achar que os temas não mostravam Miles no seu melhor.

Após a morte de Miles, a 28 de setembro de 1991, Prince anunciou que o seu próximo álbum incluiria um tema de 20 minutos que lhe seria dedicado, sem que jamais se tenha voltado a falar deste projeto. “Segue #1”, faixa silenciosa de quatro segundos de duração incluída no álbum “Rave Un2 The Joy Fantastic”, de 1999, é creditada a Miles (com a enigmática menção: “199?”). A melhor homenagem para o autor de “In A Silent Way”.