Jazz Vária, 29 de Setembro de 2020

Jazz Vária

Bird lives! (22/ Charlie Parker)

texto António Branco

Charlie Parker – ou “Bird”, como ficou conhecido – é uma das figuras maiores da história do jazz e nome central de uma revolução. Trouxe para a linha da frente a improvisação veloz e inovações harmónicas, melódicas e rítmicas que dinamitaram ideias cristalizadas e abriram as portas do futuro. António Branco celebra o seu centenário no vigésimo segundo episódio de Jazz Vária.

Chicago, fevereiro de 1955. Charlie Parker é aconselhado a usar um sobretudo, mas declina: «Não quero ver outro inverno – a pneumonia está aí para mim.» Por essa altura, o saxofonista talvez não soubesse que tinha sido, por lapso, declarado morto. Por brincadeira de mau gosto, um colaborador do jornal Combat fora informado de que Parker tinha acabado de falecer. Talvez devido às guerras entre críticos de jazz, a notícia surgiu publicada em alguns jornais gauleses, antes de ser considerada falsa.

Quando fevereiro se fez março, o estado de espírito do saxofonista não conheceu grandes melhorias. Ao encontrar inesperadamente Sonny Stitt – que à época experimentava algum sucesso – ter-lhe-á confessado a sua tristeza pelo facto de o saxofone alto estar a perder terreno para os irmãos tenor e barítono. «Não estarei muito tempo por cá. Deixo-te as chaves do reino», terá dito ao amigo. Certamente lisonjeado, Stitt, pouco tempo depois, voltou ao alto, sabendo que Parker se preparava para deixar o trono vago.

Por esta altura, Parker tinha agendado duas noites no Birdland com um quinteto eterno, no qual oficiavam Kenny Dorham, Bud Powell, Charles Mingus e Art Blakey. Rezam as crónicas que na primeira noite a música terá sido incrível, com Parker ao comando das operações e a tentar focar um desorientado Powell, que teimava em repetir a secção A de certa peça sem que se lembrasse da secção B. Na segunda noite tudo mudou. O pianista, revelando crescente instabilidade, também agora se embebedava mais depressa. Os dois desentenderam-se e a qualidade da música ressentiu-se disso. No final, enquanto ajudavam Powell a sair do palco, o líder anunciou repetidamente o seu nome. Poucos segundos depois, Parker era aplaudido pela última vez.

Na noite seguinte, quando se preparava para um concerto em Boston, sentiu-se mal e ligou à baronesa Pannonica de Koenigswarter (nascida Rothschild), amiga e protetora de outros músicos de jazz, como Thelonious Monk, que o encaminhou para o seu médico. Perante a recusa de Parker em ser internado num hospital, aconselhou-o a ficar num local tranquilo, onde pudesse repousar. Durante três dias, Nica e a sua filha, que o persuadiram a não seguir para Boston, dada a sua precária condição, cuidaram dele no apartamento que ocupavam no Hotel Stanhope, em Nova Iorque. Apesar de ter falado em suicídio a vários amigos próximos, Parker disse à baronesa: «Estou morto há quatro anos. Sou apenas uma casca.»

No dia em que morreu, 12 de março de 1955, “Bird” deixou que Nica tocasse alguns dos seus discos para o médico, em especial “April in Paris” e “Just Friends”, nas suas versões com cordas de que tanto gostava e relativamente às quais havia recebidos críticas, alegadamente por estar a aligeirar a sua música e a torná-la mais comercial. O ataque cardíaco veio quando assistia na televisão ao programa The Dorsey Brothers' Stage Show – dos irmãos Tommy e Jimmy Dorsey –, testemunhando por uma derradeira vez a proficiência técnica e o deserto de ideias deste último.

Aparentemente, o destino fez-lhe a vontade e contraíra pneumonia, a causa de morte que consta na certidão de óbito. Para além das úlceras que o apoquentavam há anos, também tinha cirrose em avançado grau. O estado em que se encontrava o seu corpo – depois de anos de abusos de álcool e drogas – era tal que o médico legista que atestou a morte estimou que teria 53 anos de idade. Tinha apenas 34.

A morte trágica e prematura (alguma não o será?) de Charlie Parker – em que se recusava a acreditar – levou o poeta “beat” Ted Joans a grafitar pelos passeios, paredes, bancos de jardim e estações de metro de Nova Iorque a mensagem “Bird lives”. Outras centenas se juntaram ao seu esforço e a mensagem espalhou-se rapidamente pela cidade.

Joans, cujo trabalho assentava na exploração da rica tradição oral afroamericana, era um grande admirador de Parker pelo seu afastamento do “mainstream”. Costumava organizar festas e encontros, que o saxofonista frequentava regularmente. Certa vez, ele e um amigo, deparando com Parker estendido no passeio à porta de um clube de Greenwich Village, deram-lhe guarida durante alguns meses, antes de a baronesa lhe oferecer o seu último reduto em vida.

Charlie Parker nasceu há cem anos, a 29 de agosto. Apodado de “Yardbird” (ou apenas “Bird”), o saxofonista, apesar da vida breve, deixou um legado que perdura até ao nosso tempo. Deixou a escola aos 14 anos para se dedicar por inteiro ao saxofone, muito atento ao que faziam inovadores como Lester Young ou Count Basie. A rodagem fez-se em formações lideradas por Tommy Douglas, Buster Smith e George E. Lee. Bird efetuou as suas primeiras gravações com a orquestra de Jay MacShann em 1941. Já em Nova Iorque integrou as “big bands” de Earl Hines (1942-3) e de Billy Eckstine (1944), antes de com Dizzy Gillespie e um punhado de outros (Thelonious Monk, Bud Powell, Max Roach, Kenny Clarke, Charlie Christian) retirar o jazz de terrenos criativamente exauridos e operar uma revolução decisiva. Em clubes como o Minton´s Playhouse, fundado em 1938 pelo saxofonista e líder comunitário Henry Minton, nascia o bebop.

Depois de temporadas na costa oeste – onde, a dado momento, tentou recuperar de uma década de consumo abusivo de heroína – regressou à Big Apple em 1947 no zénite da sua arte. Miles Davis disse que a história do jazz poderia ser resumida em quatro palavras: Louis, Armstrong, Charlie, Parker.

Bird esteve sempre um passo à frente do seu tempo. Não obstante as lutas consigo próprio, o que ainda impressiona é o enorme génio musical, que se desenvolveu mesmo nas alturas de maior fragilidade física e emocional. As ideias fervilhavam quando o corpo sucumbia. Os seus discípulos mantêm a chama bem acesa. Até aos anos 1970 o grafiti “Bird lives” fazia parte da paisagem urbana da cidade, tornando-se um ícone da arte de rua e do desejo de liberdade e transgressão cultural, além de um símbolo de recusa da massificação estupidificante. Ainda hoje, ocasionalmente, a expressão, carregada de esperança, brota aqui e ali. Com as inquietantes novas que chegam do outro lado do Atlântico, não espanta se proliferar de novo.