Jazz Vária, 21 de Julho de 2020

Jazz Vária

Hemisférios e mãos (21/ Thelonious Monk e Bud Powell)

texto António Branco

Os pianistas Thelonious Monk e Bud Powell foram duas pedras angulares do bebop, movimento de rutura que germinou a partir do final da década de 1930. Se o primeiro foi o desbravador por excelência, o segundo foi quem porventura melhor sintetizou o espírito do novo idioma. Ambos foram atormentados por sérios distúrbios mentais, que se refletiram na sua música. António Branco recorda-os no vigésimo primeiro episódio de Jazz Vária.

Thelonious Monk (1917-1982) era o pianista residente no clube Minton’s Playhouse, no Harlem, Nova Iorque, quando Bud Powell (1924-1966), que era mais novo do que ele (algumas fontes dizem quatro, outras sete anos), por lá apareceu depois de deixar a escola, dizendo querer tornar-se músico profissional (Monk nunca demonstrou particular interesse em provar a sua data de nascimento). Quando os mais velhos o tentaram afastar, Monk segurou-o. Powell retribuiria a ajuda mais tarde, quando conseguiu convencer o trompetista Cootie Williams – para cuja banda havia entrado – a gravar uma composição de Monk, “´Round Midnight”, naquele que viria a ser o primeiro registo deste sacrossanto “standard” do jazz, em agosto de 1944. Apesar de partilharem origens e interesses, as suas abordagens pianísticas eram consideravelmente diferentes.

Certa noite, quando os músicos arrumavam os instrumentos após uma apresentação no Minton’s e se preparavam para sair, a polícia irrompeu no clube à procura de Monk, que se recusou a apresentar a identificação e foi preso. Powell barrou a porta e desafiou os agentes, que tentaram afastá-lo. Nada o demoveu: «Vocês não sabem o que estão a fazer. Estão a maltratar o maior pianista do mundo!». Ato contínuo, um dos polícias atingiu-o violentamente na cabeça com um cassetete. Ambos foram levados para a esquadra e presos, não sem antes Bud ter sido superficialmente tratado num hospital próximo. Depois de libertado, Powell começou a queixar-se de fortes dores de cabeça. A tal ponto a situação evoluiu desfavoravelmente que foi parar ao Hospital Bellevue. Mais tarde passou três meses no Hospital Creedmore, onde foi tratado com vários fármacos psicoativos e terapias de choque. A sua carreira mal tinha começado e já os problemas psiquiátricos o atormentavam.

Monk sempre soube que o facto de Powell se ter interposto o salvou de um destino idêntico. Essa gratidão levou-o a escrever perenidades como “52nd Street Theme” e, especialmente, “In Walked Bud”. Para além do instrumento que tocavam, outro aspeto os unia de forma marcante: os distúrbios mentais. Powell exibia uma personalidade passiva perante as situações quotidianas. Já Monk era absolutamente indiferente ao que se passava à sua volta. Mesmo quando se tornou um músico famoso não mudou muito a sua forma de estar. Manteve as suas rotinas simples, centradas no apartamento que tinha em San Juan Hill, Nova Iorque, mudando-se apenas na parte final da sua vida para a casa da baronesa Pannonica de Koenigswarter, em Weehawken, Nova Jérsia. A produção musical de Powell terá sido mais afetada por essas desordens do que a de Monk. Ambos passaram períodos hospitalizados, embora Monk apenas para observação. Tinha sido visto a deambular à noite no aeroporto de Boston, desorientado. Quando abordado pela polícia, recusou-se a falar. Os médicos que o examinaram concluíram que estivera num estado paranóico e deixaram-no sair.

Os diferentes estilos pianísticos desenvolvidos por estes dois músicos podem ser melhor compreendidos se atentarmos no modo de funcionamento do cérebro. A mão direita está ligada às funções do hemisfério esquerdo do cérebro. Era normal Powell começar um tema com acordes tocados pela mão esquerda, enquanto a mão direita era utilizada sobretudo para improvisar, o oposto do que acontecia com Monk. No ensaio “Bud Powell, Thelonious Monk and the Split Brain”, Brunella Marinelli salienta que, apesar de a música estar normalmente associada ao hemisfério direito, alguns cientistas apontam para um envolvimento dos dois hemisférios, com o direito ligado às propriedades espaciais (abordagem mais global da composição) e o esquerdo aos aspetos temporais e de sequenciação de notas individuais. Powell seria então alguém “hemisfericamente” esquerdo, o que é confirmado pelo facto de usar a mão direita para improvisar. Todos os que preferem Powell a Monk também o serão. Já os que elegem Monk, que brilhava sobretudo com a mão esquerda (hemisfério direito do cérebro), terão tendência para uma personalidade mais global e intuitiva.

No cômputo geral, a influência de Powell é mais profunda do que a de Monk, facto que não será alheio às idiossincrasias pessoais e musicais deste. Nos seus padrões repetitivos, a sua música exala uma natureza primordial e livre. As súbitas mudanças de direção da música de Monk sempre fascinaram John Coltrane: «Uma coisa aprendi com Monk: não ter medo do que realmente sentimos». Francis Paudras, o artista francês que acolheu Powell em Paris, afirmava que o pianista sofria de esquizofrenia. Uma parte da sua personalidade levava-o a solucionar os seus problemas, em especial quando se encontrava no seu círculo mais íntimo. É sabido que durante as fases depressivas, as suas prestações ressentiam-se disso.

Monk parecia ser mais ingénuo e menos provocante do que Powell. Mas era mais excêntrico. Durante alguns concertos na capital francesa, Monk parava e levantava-se do piano para uma dança desengonçada. Depois voltava ao piano quando os solos dos outros músicos terminavam, retomando no momento certo. Tinha também momentos de inatividade em que permanecia durante longos períodos quase imóvel na cama, sem falar com alguém. O seu aforismo favorito era: «É sempre noite. Se não fosse assim, não precisaríamos tanto de luz». Monk e Powell eram homens de poucas palavras e, mesmo essas, em boa parte indecifráveis. Monk disse numa entrevista: «Não falo muito porque é impossível dizer a todos o que estamos a pensar. Às vezes, nem sabemos em que estamos a pensar.»

Na biografia de Bud Powell, “Dance of the Infidels”, Paudras recordou uma visita que ambos fizeram ao apartamento de Monk: «Toquei à campainha, esperámos um pouco e estávamos prestes a ir embora quando a porta se abriu e lá estava o próprio Thelonious, uma figura imponente e silenciosa. Eu estava atrás de Bud e eles ficaram cara-a-cara, com os seus rostos quase a tocarem-se. Ficaram assim, hipnotizados, durante o que me pareceu ser uma eternidade, sem uma palavra ou movimento. Quando estava a começar a pensar que ninguém se iria mover, Thelonious agarrou Bud pelos ombros e empurrou-o para dentro do apartamento, proferindo palavras enigmáticas: «Entrem, eu vou fazer de avião!». Já nos concertos em Paris, Monk dissera o mesmo em frente aos espetadores, mesmo à beira do palco: «Eu faço de avião!». Já sentado ao piano (a metade de trás na cozinha, a da frente na sala de estar) Monk pressionou as teclas com força e assim ficou, dobrado, até que o silêncio finalmente sobreveio. O som que tinham acabado de escutar lembrava o dos bombardeiros alemães voando alto para fugir à defesa antiaérea. Bud esboçou um sorriso, mas depois riu-se de tal modo que as lágrimas lhe escorreram pela face.