Jazz Vária, 2 de Junho de 2020

Jazz Vária

Rainha do trompete (20/ Valaida Snow)

texto António Branco

Se o destino e o machismo não tivessem conspirado contra ela, seria considerada uma das maiores figuras do entretenimento das décadas de 1920 e 1930. Ao invés, poucos são hoje os que reconhecem o seu nome e enaltecem o papel que desempenhou num mundo masculino, como trompetista, cantora e arranjadora de exceção. António Branco recorda Valaida Snow no vigésimo episódio de Jazz Vária.

A história do jazz é feita de muitas mulheres – grande parte delas cantoras, algumas pianistas, muitas menos executantes de outros instrumentos. Há ainda todo um caminho a percorrer para fazer a devida justiça ao trabalho de inúmeras mulheres cuja contribuição para a história do jazz tem sido desvalorizada ou mesmo ostensivamente ignorada ao longo dos anos, num universo dominado por valores masculinos.

Multi-instrumentista (notavelmente trompetista), cantora, dançarina e arranjadora de grande talento, teve de lutar duramente para obter um reconhecimento que nunca terá sido o devido. Foi uma estrela do entretenimento, mas enquanto mulher negra esteve sujeita a execráveis atos sexistas e racistas, mesmo (porventura sobretudo...) dentro da comunidade do jazz. Valaida Snow foi muito mais do que uma curiosidade ou um ornamento exótico, tendo contribuído de modo não despiciendo para o afastamento do jazz da matriz dixieland original e na disseminação do género na Europa a partir do final da Primeira Guerra Mundial.

Nascida a 2 de junho de 1904, em Chattanooga, Tennessee (embora haja fontes discordantes), no seio de uma família do meio artístico – uma trupe de “vaudeville” chamada Pickaninny Troubadours –, Valada cedo demostrou inegáveis talentos. A mãe, Etta, ensinou-a e às suas irmãs Lavada e Alvada, ao irmão Arvada e ao meio-irmão Arthur a tocar vários instrumentos e a dançar. Todos demonstraram potencial, mas Valada destacou-se: ainda não tinha completado meia dúzia de anos de idade e já cantava, dançava e tocava violino. (Mais tarde alteraria a forma de grafar o seu nome para Valaida. A irmã Lavada testemunhou que o pai, John, era russófilo e por isso havia dado aquele nome à primogénita em referência à cidade de Vladivostoque.)

Aos 15 anos (idade em que casou pela primeira vez) tocava violoncelo, contrabaixo, banjo, bandolim, harpa, acordeão, clarinete, saxofone e trompete, que se tornou o seu instrumento preferido. Apesar da estranheza que causou uma mulher a tocar trompete, e dada a forma profunda como tocava blues, cedo ganhou a alcunha de “Little Louis” (no seu proverbial egocentrismo, o próprio Louis Armstrong viria mais tarde a dizer que Valaida era o segundo melhor trompetista vivo). W.C. Handy coroou-a como “rainha do trompete”, menção que nos discos surgiria muitas vezes junto ao seu nome).

A carreira a solo de Valaida começou em 1921 numa revista popular chamada Holiday in Dixieland. Em 1923, foi convidada para se juntar ao cantor, compositor e chefe de orquestra Noble Sissle e ao pianista Eubie Blake no musical “In Bamville” (também conhecido como “The Chocolate Dandies”), que viria a estrear em Nova Iorque no ano seguinte, também com Josephine Baker no elenco.

Foi cabeça de cartaz do espetáculo de cabaré de Barron Wilkins, no Harlem, e andou na estrada com o Will Mastin Trio. Em 1928, quando foi figura de proa do Sunset Cafe, em Chicago, atraiu a admiração de Earl Hines, que se tornou seu amante. Após digressões por cidades americanas, o talento de Valaida começou a ser reconhecido fora de portas, tendo sido convidada para tocar na Europa e no extremo oriente. Durante as décadas de 1920 e 1930, enquanto muitos músicos se fixaram em cidades que fervilhavam de jazz, como Nova Iorque e Chicago, Snow estava sempre em digressão, provavelmente porque os donos dos clubes, os promotores e os editores discográficos não acreditavam no seu sucesso, enquanto mulher instrumentista, arranjadora e chefe de orquestra.

Integrou o elenco do espetáculo de Ethel Waters, “Rhapsody in Black”, em 1934, e encimou cartazes no Apollo. Atingiu o pináculo da sua carreira na segunda metade dessa década, quando era muito popular fora do seu país e tocava regularmente em Londres (de modo notável em “Blackbirds”, produção de 1935) e Paris. Durante esse período, gravou cerca de quatro dezenas de temas em vários estúdios europeus, entre os quais o seu emblema “High Hat, Trumpet, and Rhythm”, lançado em 1936, que voltou a chamar a atenção da América para os seus predicados. Nunca efetuou uma gravação comercial nos Estados Unidos enquanto trompetista, o que não deixa de ser sintomático...

Entre as décadas de 1930 e de 1950, Valaida apresentou-se com inúmeras formações, de dimensão variável. Tocou no octeto do baterista Jack Carter, com o pianista de “stride” Teddy Weatherford, com as orquestras de Count Basie (foto acima), Willie Lewis e Fletcher Henderson, em vários locais e momentos. Adorava a fama. Tinha um carro descapotável com motorista, um mordomo e um macaco de estimação que a acompanhavam para todo o lado. Numa viagem de regresso aos Estados Unidos conheceu Ananias Berry (da trupe de dançarinos Berry Brothers), então com 19 anos (ela já estava na casa dos trinta), com quem viria a casar, o que à época foi considerado escandaloso.

Antes do eclodir da Segunda Guerra Mundial voltou a cruzar-se com Josephine Baker em Paris. Com o rufar dos tambores, Baker disse a Snow que deveria regressar o quanto antes aos Estados Unidos, mas Valaida tinha compromissos na Dinamarca e decidiu mantê-los. Tendo sido este um dos primeiros países europeus a cair às mãos dos nazis, Valaida esteve presa em 1941 numa cadeia em Copenhaga (alegadamente por roubo e uso indevido de drogas). Mais tarde dirá que estivera detida no campo de concentração de Wester-Faengle. O jornal The Amsterdam News noticiou que Snow fora a única artista negra detida num campo de concentração nazi. O certo é que se havia tornado viciada em oxicodona (analgésico) – diz-se que depois de em 1936 ter caído de um cavalo e deslocado o ombro – e presa pelas autoridades dinamarquesas antes da invasão do país pelas tropas de Hitler.

Foi libertada com a saúde muito debilitada e regressou a Nova Iorque, tendo então revelado que havia tocado numa orquestra nazi. Esta fase levou à sua exaustão física e mental, que determinou um inexorável declínio. Por esta altura, casou com Earle Edwards, que se tornaria seu agente. Logo que a saúde registou aparentes melhorias, recomeçou a atividade artística, mas jamais voltou a alcançar a notoriedade anterior. Rezam as crónicas de então que nem Hines a reconheceu em palco. Viria a morrer aos 52 anos, de hemorragia cerebral, enquanto esperava para subir ao palco do Palace Theatre, em Nova Iorque. Valaida Snow é um singular exemplo da perseverança de uma mulher talentosa, ousada e carismática num mundo de homens. A sua obra clama por reavaliação.