Jazz Vária, 11 de Maio de 2020

Jazz Vária

Caminhos paralelos (19/ Henry Grimes, Giuseppi Logan)

texto António Branco

A grande ceifeira tem andado ultimamente muito atarefada no mundo do jazz. Entre os que partiram vitimados por complicações derivadas da infeção pelo novo coronavírus estão dois nomes fundamentais do free jazz, cujos caminhos andaram surpreendentemente a par sem se cruzarem: Henry Grimes e Giuseppi Logan. António Branco recorda-os no décimo nono episódio de Jazz Vária.

O contrabaixista e violinista Henry Grimes e o saxofonista, clarinetista e flautista Giuseppi Logan são dois músicos a quem o destino tratou de traçar um percurso de vida muito similar, até no seu trágico desfecho: morreram com dois dias de diferença e geograficamente muito próximos um do outro. Ambos tinham 84 anos.

Grimes e Logan – que jamais foram amigos próximos ou sequer colaboradores – saltaram para a linha da frente do jazz de vanguarda na borbulhante Nova Iorque no início dos anos 1960. Adquiriram relevância artística para depois desaparecerem durante décadas, envoltos numa nuvem de mistério e lenda. Ambos se confrontaram com problemas mentais e lutaram para que a sua música fosse compreendida e respeitada, num momento em que o free jazz era a imparável locomotiva de um comboio com sessenta anos de história. Reapareceram, sem que nada o fizesse esperar, já nos anos 2000, granjeando um reconhecimento que certamente não estaria nos seus próprios planos.

Os dois foram improvisadores que gostavam de desafiar os limites (os seus e os dos outros) e que deram o seu contributo para a revolução que estava em marcha e cujos ecos ainda hoje se escutam, muito para além do perímetro do jazz. A vida nos dois casos começou em 1935 e em Filadélfia, cidade com uma fortíssima cena musical negra, em particular no jazz. Na juventude, ambos integraram grupos de nomes firmados e com os quais aprenderam os fundamentos. Logan tocou com Earl Bostic e frequentou o New England Conservatory (em Boston), e Grimes a Juilliard School of Music (em Nova Iorque).

Henry Grimes estabeleceu-se como contrabaixista versátil em meados dos anos 1950. Fez parte do quarteto de Gerry Mulligan (com Chet Baker) e do trio de Sonny Rollins (“St. Thomas: In Stockholm 1959”, com o baterista Pete La Roca, é de audição obrigatória). Tocou igualmente com o pianista Thelonious Monk, a cantora Anita O'Day e o clarinetista Benny Goodman, entre muitos outros. Quando Charles Mingus experimentou a inclusão de um segundo contrabaixista na sua orquestra, ou quando se sentava ao piano, Grimes foi o escolhido para a função.

O seu interesse no movimento free jazz foi crescendo, o que resultou na possibilidade de tocar com alguns dos seus nomes mais proeminentes como Cecil Taylor, Don Cherry (“Symphony for Improvisers”, gravado em 1966, permanece essencial), Steve Lacy, Pharoah Sanders, Archie Shepp e Albert Ayler, com quem gravou os seminais “Spirits” (1964), “Swing Low Sweet Spiritual” (1965) e “Spirits Rejoice” (1965). Também neste ano lançou aquele que será o seu mais relevante álbum em nome próprio, “The Call”, na ESP-Disk, com o clarinetista Perry Robinson e o baterista Tom Price.

Logan aprendeu a tocar piano e bateria de forma autodidata, antes de se mudar para as palhetas. Em 1964, fixou-se em Nova Iorque e logo integrou a cena “free”, tocando sobretudo saxofones alto e tenor. Nessa fase colaborou com Archie Shepp, Pharoah Sanders e Bill Dixon, antes de formar o seu próprio quarteto, com o pianista Don Pullen (substituído mais tarde por Dave Burrell), o contrabaixista Eddie Gómez e o baterista Milford Graves. Liderou os seus próprios grupos e ficou conhecido pela forma como exortava os músicos que com ele tocavam a alterarem os seus papéis, dinamitando convenções e estereótipos.

Ainda em 1964 editou “The Giuseppi Logan Quartet” e, no ano seguinte, “More”, ambos na ESP-Disk, porventura os seus discos cuja marca é mais indelével. Uma nota de imprensa da editora posta a circular em 1965 dava conta de que um terceiro disco estaria em preparação (o seu título seria “The Giuseppi Logan Chamber Ensemble in Concert”), o que não se veio a concretizar, muito provavelmente devido ao comportamento cada vez mais errático do músico. Tocou flauta no álbum “College Tour” (1966) da cantora Patty Waters.

No final dos anos 1960, no pináculo das suas capacidades enquanto criadores de ponta, Logan e Grimes, atormentados por problemas mentais, saíram de cena. As décadas passaram inexoráveis, embora os seus predicados tenham de algum modo conseguido esquivar-se ao olvido nas mentes de muitos dos que os escutaram durante o intenso período em que permaneceram ativos.

Depois de se mudar para a Califórnia, Grimes viu o seu contrabaixo partir-se e acabou por vendê-lo por uma soma mísera. Num piscar de olhos ficou sem instrumento e sem dinheiro. A sua vida entrou na completa obscuridade, tendo sido inclusivamente dado como morto. O facto é que durante mais de 30 anos trabalhou intermitentemente como porteiro e fez outros biscates para se sustentar, enquanto lidou com a sua desordem bipolar, rabiscando poemas em pequenos cadernos. Em 2002, um assistente social apreciador de jazz reconheceu-o, quase septuagenário, em Los Angeles. William Parker ofereceu-lhe o célebre contrabaixo batizado “Olive Oil”, devido à sua cor esverdeada. Grimes regressou a Nova Iorque, sendo recebido em apoteose na edição desse ano do Vision Festival.

Quem com ele tocou após essa fase não pôde deixar de notar uma criteriosa escolha das notas (o baterista Chad Taylor, parceiro no trio do guitarrista Marc Ribot, dirá mais tarde que era “3-D”), aliada ao som poderoso que todos lhe conheciam. Escutar a sua contribuição em “Spiritual Unity” (2005) e “Live at the Village Vanguard”, gravado ao vivo em junho de 2012 no famoso clube nova-iorquino, é imprescindível.

Grimes continuava a saber estar num grupo e, ao mesmo tempo, manter a sua individualidade total enquanto improvisador. Uma nova carreira abriu-se então para o contrabaixista, ainda que debilitado pela idade. Continuou a ser um homem de poucas palavras (desde a juventude foi difícil arrancar-lhe mais do que meia dúzia de sílabas de cada vez, amiúde ininteligíveis) e olhar distante. Sempre preferiu ouvir em vez de falar. (Recordo-me de o ver sentado, em silêncio, a ser alimentado pela mulher, nos intervalos da edição de 2006 do Vision Festival, onde tocou ao lado do poeta Sekou Sundiata, na única ocasião em que o escutei ao vivo.)

Na década e meia que se seguiu era habitual encontrá-lo tanto a tocar como a assistir atentamente a concertos de músicos com idade para serem seus netos. Nessa derradeira fase tocou com Rashied Ali, com Paul Dunmall e Andrew Cyrille (no Profound Sound Trio), Marilyn Crispell, Bill Dixon, Dave Douglas, Joe Lovano, Roscoe Mitchell, John Zorn, Matana Roberts e Nels Cline, só para nomear alguns. Parou de tocar em 2018, quando começou a ser acometido pelos efeitos implacáveis da doença de Parkinson.

Giuseppi Logan era mais extrovertido e conversador. Depois de décadas entre a Virginia e Nova Iorque, entre a errância e a passagem por instituições para doentes psiquiátricos, seria muitas vezes impedido de tocar, o que só lhe aumentou o desespero. Em 2008, foi filmado pela artista Suzannah B. Troy a tocar no seu local preferido da Big Apple, o Tompkins Square Park. Por essa altura, de visita a uma loja de artigos musicais em Times Square, tentou comprar uma única palheta para o seu saxofone. Intrigado por aquele estranho comportamento, o empregado da loja meteu conversa. Perguntou-lhe se era Giuseppi Logan. «Sim, sou eu, e estou aqui porque quero acabar a minha vida tocando música.» O empregado era o multi-instrumentista (notavelmente trompetista) Matt Lavelle, que logo começou a pensar em formas de o trazer de volta ao mundo da música. O seu “concerto de regresso” aconteceu em fevereiro de 2009, no Bowery Poetry Club.

Logan e Lavelle gravaram um álbum juntos, “The Giuseppi Logan Quintet”, de 2010, com Dave Burrell, Warren Smith e Francois Grillot. No ano seguinte, Logan foi baleado e acabou num lar de Far Rockaway, Queens. Em abril de 2012, continuava a viver em Nova Iorque e a tocar como músico de rua para sobreviver. O seu derradeiro álbum foi “... And They Were Cool”, de 2013, com selo da Improvising Beings.

As vidas de Henry Grimes e Giuseppi Logan tiveram em comum muito mais do que aspetos circunstanciais. Os dois músicos partilharam uma forma especial de estar na vida e na música, mesmo quando dela se afastaram para encontrarem refúgio nos seus tumultuosos universos interiores.