As mulheres e o jazz, 27 de Abril de 2020

As mulheres e o jazz

Visibilidade e reconhecimento

texto António Branco

Porque o jazz e as músicas improvisadas também se continuam a fazer no feminino, importa aprofundar as razões pelas quais não se sabe e valoriza mais o papel que as mulheres desempenham no processo evolutivo destes domínios musicais. A este propósito, a jazz.pt recolheu opiniões e contribui para a discussão aberta e participada que se impõe.

As mulheres estiveram presentes no turbilhão cultural que deu à luz o jazz, nos primórdios do século XX. Nos espirituais entoados nas igrejas negras, no ritmo frenético do ragtime, na melancolia dos blues. Mais tarde, na loucura do swing, nas revoluções do bebop e do free, no jazz e nas músicas improvisadas contemporâneas. A contribuição das mulheres para estes domínios, sendo conhecida, continua, porém, a ser insuficientemente aprofundada e valorizada. Apesar de em número esmagadoramente inferior ao dos homens, o facto é que muitas foram as mulheres que intervieram de modo significativo para que o jazz e outras músicas improvisadas sejam o que são nos nossos dias.

O papel que as mulheres desempenham na evolução das músicas criativas reflete as dinâmicas gerais de funcionamento da sociedade. A sua presença tem sido muitas vezes ignorada e subestimada, amiúde relegada para lugares secundários ou meramente decorativos. No jazz, como na vida, o caminho tem sido tortuoso. Num mundo eminentemente masculino e dominado por valores patriarcais, muitas mulheres sofreram as ignomínias do machismo, do racismo, do sectarismo e de outros deploráveis “ismos”. Da desigualdade, da discriminação e da falta de respeito em todas as facetas da vida.

O lugar das mulheres no jazz sempre foi motivo para discussão. Alguns céticos perguntaram: «Podem as mulheres tocar jazz?». A prestigiada revista norte-americana Downbeat publicou em 1938 um editorial sintomaticamente intitulado “Why Women Musicians Are Inferior”. A emergência de importantes movimentos sociais e de emancipação das mulheres, durante as décadas de 1960 e de 1970, contribuiu de forma decisiva para chamar a atenção para o jazz feito no feminino. Para alguns, contudo, a noção de “verdadeiro jazz” continua a assentar num estereótipo de raça e género.

E, contra a construção ainda recorrente, não falamos apenas de cantoras (algumas pianistas), apesar de estas serem historicamente uma clara maioria. Muitas são hoje, à escala global e também entre nós, as mulheres cuja relevância é fundamental no jazz e nas músicas improvisadas, cantoras e instrumentistas, reclamando justa e natural atenção. Não obstante, é indesmentível que, à parte algumas cantoras, continuam a ser poucas as instrumentistas de jazz reconhecidas pelo grande público.

Nos anos mais recentes, tem vindo a ganhar relevância o coletivo We Have Voice – impulsionado por um conjunto de mulheres de diferentes origens, gerações, etnias, culturas, orientações políticas e crenças religiosas – que assume o objetivo de chamar a atenção para questões de desigualdade, incluindo o assédio sexual e o “bullying”. Entre nós assume particular importância o grupo As Mulheres do Jazz, que surgiu para dar voz a estas questões e que se encontra a preparar um contributo para esta discussão.

Iniciada a terceira década do século XXI, em que medida continua a haver discriminação e desigualdade no tratamento e nas oportunidades entre homens e mulheres no jazz e nas músicas improvisadas? Quais os motivos pelos quais não se valoriza mais a contribuição das mulheres para as músicas criativas? Que preconceitos baseados no género continuam a grassar? Porque não há mais mulheres a tocar jazz e músicas improvisadas? Qual a razão para que no início dos cursos haja mulheres instrumentistas com talento e vontade, mas que entretanto desaparecem sem chegar ao mercado de trabalho?

Para ajudar a perceber melhor a situação que se vive atualmente em Portugal e no mundo, a jazz.pt recolheu o contributo de várias mulheres com atividade nestas áreas. As questões lançadas foram as seguintes:

1: Está bem documentada a presença ativa das mulheres desde os alvores da história do jazz e também noutras músicas improvisadas. Em que medida é que o papel que as mulheres desempenham em todo este processo impacta a sua atividade enquanto criadora?

2: As mulheres são alvo de algum tipo de discriminação ou de desigualdade de tratamento no mundo do jazz e das músicas improvisadas, particularmente em Portugal? A valorização, as oportunidades de trabalho, os rendimentos e a exposição mediática são diferentes relativamente aos homens?

3: O que acha que poderia ser feito, e por quem, para melhorar esta situação?

Estas são matérias em torno das quais continua a ser necessária e urgente uma reflexão profunda. Muito trabalho está ainda por fazer nas áreas da Musicologia, da História, da Sociologia e de outras ciências sociais para se aquilatar devidamente a contribuição das mulheres para a história do jazz e de outras músicas improvisadas. Ressalta a premência de uma mudança de mentalidades e de políticas efetivas que promovam a igualdade entre géneros (e de quem não assume um), impeçam qualquer tipo de discriminação e acabem de vez com a dominação masculina e a subalternização da mulher.

Sem pretensões académicas ou de exaustividade, próprias de outras instâncias, a jazz.pt quer contribuir abertamente para a discussão. Esta é apenas a ponta do icebergue. 

Marta Hugon (cantora e compositora)

 

1: Bom, se me permite, a pergunta contém desde já uma falácia – a presença feminina na história do jazz não está assim tão bem documentada. A verdade é que muitas das instrumentistas que estiveram presentes desde o início como criadoras desta linguagem foram praticamente engolidas pela história e pelo tempo, como aconteceu, aliás, em muitas áreas de criação, desde as artes à ciência. E mesmo aquelas de cujo nome reza a história – como Mary Lou Williams, Lil Hardin Armstrong, Vi Redd e até Alice Coltrane (cujo sobrenome tem a sua carga), são nomes praticamente desconhecidos do grande público. Se nos reportarmos àquilo que me foi ensinado na escola e que ouvia, as minhas referências de instrumentistas foram maioritariamente masculinas. Coltrane, Miles, Charlie Parker, Monk, Ellington, Jobim, os compositores do American Songbook (também há mulheres) e os contemporâneos, Herbie Hancock, Keith Jarrett, Brad Melhdau. Claro que fui também grandemente influenciada por mulheres como Betty Carter, Anita O’Day, Shirley Horn, Nancy Wilson, Carmen McRae, Nina Simone e tantas outras. A excepção foram, assim, as vozes femininas, responsáveis até aos dias de hoje por uma parte importante da popularidade do jazz, o que se deve à sua competência e ao seu talento, mas também ao poder que o instrumento vocal tem de chegar a uma audiência generalizada.

Nas cantoras, a criatividade surgia geralmente associada à própria capacidade de improvisação e menos à composição, da qual me foram dados poucos exemplos de mulheres. Carla Bley, Maria Schneider e poucas mais. Houve homens e mulheres que me “empurraram” para o estudo do jazz. Maria João, Norma Winstone, Paula Oliveira, que me convenceu a ir para a escola do Hot Clube. Mas a minha aprendizagem fez-se num universo muito masculino – e não me estou a queixar –, com músicos que respeito e admiro e com quem cresci musicalmente. Senti-me genericamente acarinhada e escolhi trabalhar com pessoas que não eram preconceituosas. Mas se pensar que quando andei no Hot Clube a estudar ainda não havia licenciatura em jazz e hoje há dezenas de mulheres licenciadas – e que há mestrados, doutoramentos aos quais todos podemos aceder, isso terá que ter as suas repercussões. Para além disso, tenho hoje um projeto, Elas e o Jazz, em que trabalho com outras duas cantoras – Joana Machado e Mariana Norton –, em que partilhamos conhecimento e em que ficam muito patentes que as questões da criatividade não têm de ter género, pois os objetivos são comuns: fazer mais e melhor.

2: Penso que a maioria das diferenças se encontra a nível do tratamento e da valorização, mas é preciso analisar dados concretos para responder cabalmente a essa pergunta. A jazz.pt fez recentemente uma entrevista sobre o impacto da Covid-19 na vida dos músicos de jazz. Não entrevistaram nenhuma mulher. Tiveram antes a gentileza de me interrogar sobre questões de género, o que é já em si uma resposta. Não me leve a mal, mas é um facto incontornável que nos pode pôr a todos a pensar. Há uma citação muito antiga da Downbeat que é famosa: «The woman musician never was born capable of sending anyone further than the nearest exit.» É cómico e triste ao mesmo tempo. Hoje ninguém diria isto, claro (talvez o Trump, se percebesse de música), mas continua a haver um desequilíbrio grande no número de instrumentistas femininos e masculinos que leva a uma noção implícita de inferioridade, porque há menos mulheres a tocar a um determinado nível de excelência. Porquê? Esta é uma pergunta que pede mais do que uma resposta como esta. Lá está – é preciso recolher dados, analisá-los, entender os padrões que se repetem, contextualizar. Há, de certeza, mais do que uma razão, que passa sempre pelo preconceito cultural e social.

Contribuir para um maior equilíbrio só pode ajudar a que a linguagem musical saia mais rica. Historicamente, enquanto mulheres, só controlamos o fator reprodução desde os anos 1960, o que nos permite também ter controlo sobre um grande número de decisões que afectam o nosso investimento na carreira.  Houve coisas que mudaram nos últimos anos, felizmente. Só que as mentalidades levam mais tempo a acompanhar essa mudança, muitas vezes resistindo-lhe. Quando Robert Glasper dá aquela célebre entrevista no blogue de Ethan Iverson e fala sobre o efeito hipnótico que o “groove” tem na audiência feminina (fala no clitóris e diz que as mulheres não gostam muito de solos!), ele não está diretamente a opinar sobre a competência musical no feminino, mas fala de poder e dá-nos a sua forma particular de ver o mundo do jazz e as mulheres. Ele começa a entrevista por dizer que a sua maior influência musical foi a mãe, que era cantora, o que não o impede de ser, usando um eufemismo, paternalista. Outro exemplo: há cerca de dois anos houve uma conferência na Festa do Jazz sob o título “A Vaginização do Jazz”. Não tendo nunca ouvido falar na “Penização do Jazz”, algumas mulheres fizeram questão de estar presentes e questionar o porquê do tema, falando sobre discriminação, do ponto de vista delas.

Na verdade, não podemos dissociar o preconceito no meio do jazz do preconceito social mais generalizado. Quando me pede para reflectir sobre esta questão – que está em cima da mesa mais notoriamente desde o movimento #metoo –, sou obrigada a ver o problema para além do meu umbigo e até das minhas limitações enquanto músico. Eu sempre percebi que aquilo que me colocava num plano de inferioridade em relação aos meus colegas homens era o diferencial de conhecimento. Quando esse fator é ultrapassado, não há razão para haver distinção em termos de capacidade e qualidade. Repare, eu não acho que tenha mais ou menos trabalho por ser mulher e diria que a vasta maioria dos músicos com quem trabalho se regem sinceramente pelo critério de excelência musical. Haverá sempre gente menor – uma vez, há muitos anos, cantei fora de Lisboa com um grupo que não conhecia (um ensaio e já está) e ao jantar, um dos elementos disse alto e bom som: «De Lisboa, a única coisa que se aproveita são umas gajas boas que vêm cá cantar.» Para além da insinuação sexual, há o à-vontade para dizer à frente de toda a gente que aquele músico é uma merda e que só vale pelo seu aspeto físico. E ninguém se chegou à frente para o calar.

Lembro-me ainda de outra piada – ter comentado com um amigo músico que num “workshop” fora de Portugal, um dos professores me tinha cumprimentado pela “performance”. Ele riu-se e comentou «a gente tenta sempre até à última», o que implicava que, num contexto de aprendizagem, o objetivo de muitos dos docentes seria seduzir as alunas, usando o argumento que fosse preciso. Mesmo com Elas e o Jazz, que é uma banda de homens e mulheres, onde há muito companheirismo, há uma provocação humorística entre nós, iniciada por eles, que dizem que nós somos Elas e eles são o jazz. Isto não quer dizer que tenhamos de parar de brincar, mas repare que o humor está sempre presente e o humor permite dizer coisas muito sérias a brincar. A verdade é que, ao longo do seu percurso profissional e pessoal, as mulheres habituaram-se a gerir circunstâncias desagradáveis de menosprezo, condescendência e até assédio, aprendendo a defender-se e até a passar por cima delas, para não serem penalizadas. E quando se é mais jovem nem sempre se consegue fazer frente a estas situações. Só mais recentemente é que as mulheres começaram a partilhar essas experiências, dentro e fora de Portugal. Mas é uma conversa que gera desconforto, mesmo junto das próprias mulheres.

Sara Serpa, que vive e trabalha em NY, faz parte do coletivo We Have Voice e poderá falar melhor sobre a realidade dos EUA, por exemplo. Em Portugal, criámos recentemente um grupo, As Mulheres do Jazz, que inclui mulheres e homens, juntos precisamente para analisar e falar sobre este assunto. Está até planeada uma conferência neste âmbito, sujeita à evolução da pandemia. Não conheço toda a gente do grupo e são pessoas com “backgrounds” e cabeças muito diferentes, mas com uma vontade comum de perceber o que é que se pode fazer para mudar perceções e comportamentos. É um trabalho interessante e que pode vir a ser útil para todos. A mim alegra-me, sobretudo, o facto de estarmos a falar, porque nunca se falou tão abertamente e sem medo e porque acredito que muitas das coisas que são penalizadoras para as mulheres neste meio nem sequer foram questionadas por elas próprias e pelos homens que com elas trabalham. O conhecimento intrínseco da música é fundamental para a criação e o desenvolvimento pessoal (e a inovação) de que o músico é capaz.

A quantidade de mulheres a tocar jazz – e a cantar – com acesso a formação académica superior aumentou imenso nos últimos 20 anos. Há mais mulheres instrumentistas, mas continuam a ser muito poucas. A informação de que disponho através de colegas que lecionam em múltiplas instituições é de que no início dos cursos há instrumentistas femininas capazes, com talento e vontade de trabalhar, mas que desaparecem ao longo do percurso. Ou que não chegam a ingressar no mercado de trabalho. Interessa saber porquê e o que podemos fazer para isso mudar.

2: Vou começar por lhe dar um exemplo prático. Em muitas orquestras europeias o número de mulheres aumentou consideravelmente quando se implementaram provas cegas nos concursos para cada instrumento, não sendo possível ao júri perceber o género do concorrente. A motivação era eliminar as tradicionais “cunhas”, mas o facto é que ajudou. Só há bem pouco tempo é que a Filarmónica de Viena admitiu a primeira mulher, por exemplo. Ora, eu não acredito que haja sempre uma vontade explícita de excluir as mulheres. Há antes uma convicção, mais ou menos consciente, que no momento da escolha faz com que um júri ache que entre duas pessoas com a mesma competência, o homem seja um pouco melhor. Outro dos preconceitos vigentes em relação às mulheres é de que não têm interesse em ajudar-se mutuamente. Isso não é verdade. A prova é que, por todo o mundo, há mulheres e homens que estão a questionar o “status quo” porque perceberam que este é um processo em que todos têm a ganhar. Parece-me que o rácio se equilibrará à medida que houver cada vez mais mulheres a tocar e a ensinar jazz e vários instrumentos, para que possam inspirar outras. Talvez nessa altura, as perguntas dirigidas às mulheres sejam sobre música e não sobre as condicionantes do seu género. Nessa altura terá, de facto, havido uma mudança significativa. 

Joana Guerra (violoncelista, cantora e compositora)

Foto: Nuno Martins 

1: Impacta, em muito, pela força e pela beleza da sua expressão musical, pelas suas histórias de vida e, nalgumas delas, pelo seu activismo, particularmente a luta feminista. A história da mulher foi muitas vezes silenciada e sub-representada devido ao poder masculino, sobre o qual assentavam as bases por entre os vários tipos de instituições. Isso tem mudado, e ainda bem! No meu ofício de música e criadora, tenho muito presente este legado: a possibilidade de uma nova realidade humanista feita a partir da música destas artistas, contribuindo para emancipar o papel da mulher na sociedade.

2: Os meios da música improvisada e do jazz em Portugal são maioritariamente masculinos e isso é claramente notório na programação de qualquer festival focado nestas sonoridades. Numa rubrica nesta mesma publicação, há poucas semanas, perguntava-se a vários músicos (foram 18!) como lidavam com a situação do isolamento social, «para saber como estão a viver este período e a perspetivar o futuro». Nessa lista não havia nenhuma mulher. Isto é sintomático da sub-representatividade das mulheres nestes géneros musicais e que se vai reproduzindo noutro tipo de publicações ou iniciativas. Enfim, como se nós, mulheres, fossemos uma espécie de seres alados, pertencentes a uma outra realidade ficcional. É claro que este tipo de acontecimentos desequilibra a balança da representatividade, reflexo do patriarcado que ainda não apreendeu, nas vísceras, a “intrusão” da presença feminina. Na cena da música improvisada em Portugal tem havido uma crescente presença de talentos femininos, exemplos de liderança, perseverança, de grande sensibilidade estética e humana. Há que estar atento, nomeadamente abrindo os horizontes, porque não é somente uma questão binária!

3: Por todxs nós, com sentido crítico, lúcido e sem permanecer indiferente. Entregar a batalha somente às mulheres parece-me uma atitude hipócrita e, uma vez mais, sinal da confortabilidade de poderes instituídos que nem sempre tomam estas problemáticas sociais em consideração nas suas programações, iniciativas, etc. O feminismo tem de se embrenhar em cada um de nós, na educação, nos planos de ensino da música, na cultura, na política, no pensamento colectivo enquanto sociedade.

Beatriz Nunes (cantora e compositora)

 

1: Vou remeter a minha resposta para a investigação exploratória que elaborei no âmbito do mestrado em Ensino da Música, “O Impacto das Construções de Género no Ensino e na Produção de Jazz”. Em “The Best Musician Gets the Gig”, Trine Annfelt observou que o número de mulheres profissionais da música aumentou na Noruega. Porém, esse aumento verificou- se apenas na música clássica, tendo a autora observado que no jazz eram utilizados critérios diferentes na escolha dos músicos para além das suas competências. A autora observa a seguinte tendência na formação de músicos jazz: 1) existem poucas mulheres e a maioria são cantoras; 2) poucos homens se definem como cantores; 3) existem poucos, ou nenhum, músicos assumidamente homossexuais; 4) surpreendentemente, tendo em conta os fatores anteriores, o jazz é conotado como uma forma de expressão livre, democrática e progressiva. A mesma conclusão foi obtida pela American Association of University Women, que defende que a participação das mulheres tem aumentado em áreas socialmente conotadas com o masculino, como nas áreas científicas e matemáticas, mas que o mesmo não se verifica no jazz.

Para pensarmos o género no jazz e este fenómeno da participação das mulheres devemos debruçar-nos sobre as narrativas que o discurso historiográfico desenvolveu. Vamos compreender que este discurso é dominantemente masculino, por um lado por omissão de relevância histórica das mulheres instrumentistas, por outro ao reforçar padrões sobre o papel das mulheres nas narrativas que elabora. Os anos 1930 foram uma década particularmente importante no desenvolvimento historiográfico do jazz. Para além da questão da raça no discurso historiográfico, a questão do género também começa a ser construída neste discurso. Dunkel sintetizou três formas de representar as mulheres na narrativa histórica de “jazzmen”: 1) as mulheres como cantoras de blues; 2) as mulheres enquanto agentes no sucesso das carreiras dos maridos, como organizadoras e “managers”; 3) por último, e em maior número, as mulheres de forma anónima que surgem representadas no imaginário masculino, enquanto fantasia de um contexto do jazz sexualmente desinibido. Características como masculinidade e heterossexualidade aparecem como uma componente de significativa importância na valorização dos grandes músicos, para lá das suas competências estritamente musicais. A autora Sherrie Tucker dá como exemplo o documentário de Ken Burns, “Jazz”, como um paradigma do discurso masculino e exclusivo da História do Jazz. No documentário, ao acompanhar o percurso de Louis Armstrong, Burns refere-se à pianista Lil Hardin de forma acessória ao marido Louis Armstrong. Segundo a autora, o discurso dominante do jazz, associado à ideia da tradição ou do verdadeiro jazz, assenta numa fantasia histórica de um estereótipo de raça e género, em que se assume que os homens negros são naturalmente dotados de competências rítmicas, emocionais, de virilidade e agressividade musical.

Esta associação de competência musical ao género masculino e de incompetência ao género feminino era promovida por publicações periódicas, como observamos na revista Downbeat. Podemos encontrar numa edição dos anos 1940 da revista uma perspetiva profundamente negativa sobre a participação das mulheres no jazz. Encontramos ainda na mesma revista outros exemplos, como o editorial de 1938 intitulado “Why Women Musicians Are Inferior”. Encontramos ainda nos anos 1950 o mesmo tipo de discurso na revista. Estes exemplos servem apenas para compreendermos que existem razões históricas e construções sociais que durante muito tempo associaram a produção de jazz ao género masculino e excluíram o género feminino da sua prática, com exceção do caso das cantoras, promovendo ativamente estas construções sociais. Porém, é necessário compreender e contextualizar estes exemplos à luz da sua época, em que os papéis dos géneros eram profundamente distintos e definidos, não apenas na música ou no jazz, mas em toda a sociedade.

Entretanto, hoje em dia verifica-se uma crescente diluição dos estereótipos de género em várias áreas profissionais e sociais. Compreendendo que existe uma construção histórica que associou a prática do jazz aos homens, é necessário perceber o porquê de nos dias de hoje não existir uma maior participação das mulheres no jazz. Esta ausência tem na sua base o facto de poucas raparigas escolherem esta área de estudo, limitando mais tarde as suas opções de carreira.

2: Para além da questão historiográfica, existe ainda uma forte componente social que define a identidade do jazz. Esse fator social, as relações que os músicos estabelecem entre si, é muito significativa e afeta a parte profissional e as oportunidades de trabalho. Sendo a parte social tão determinante, podemos tentar perceber através deste fator como as relações pessoais e os rituais sociais poderão ter influenciado a participação das mulheres no jazz. Embora compreendamos que as distinções de comportamento em relação ao género estão presentes em toda a sociedade e são transversais ao jazz, quando penso no contexto de trabalho da música erudita não consigo relacionar uma mudança comportamental tão distinta face à presença de uma mulher. Entendendo este lado masculino e viril da linguagem jazz, pareceu-me relevante perceber como se encaixa uma mulher neste paradigma. Como pode uma mulher obter reconhecimento num meio e num pensamento estético de inclinação masculina? A escola tem um papel importante na reprodução de estereótipos que reforçam as construções sobre o género, afetos à prática musical e à música em si mesma. Não ter um instrumento de jazz era uma das razões mais apontadas pelas alunas para não participar em ensembles. Outra das razões apontadas pelas alunas para não estudarem jazz era sentirem-se pouco confortáveis num ambiente maioritariamente masculino. Os professores relacionaram as atitudes das alunas a aspetos geralmente conotados com o feminino, tendo afirmado que as alunas tinham maior capacidade para mostrar emoção e uma tendência para serem mais delicadas.

Identificaram também as raparigas como menos confiantes na “performance” musical que os rapazes, porém mais maduras, mais trabalhadoras e responsáveis. Esta perceção foi repetida pelos alunos, associando ao gosto das alunas a música calma, a música clássica, a música cantada ou tocada ao piano. Questionados sobre criatividade e prática de composição, os professores, apesar de anteriormente terem identificado os rapazes como mais desinteressados e indisciplinados no contexto da sala de aula, referiram-nos como mais bem-sucedidos a compor. Segundo os professores, os rapazes são mais criativos, aventureiros e imaginativos. Por sua vez, conotaram as raparigas como monótonas e menos criativas. Na observação que faço enquanto professora, reparo que os rapazes de facto estão mais dispostos a correr o risco de errar. Estar confortável o suficiente para correr o risco de criar é fundamental no processo de improvisação ou de composição, em particular no jazz.

Recentemente, tive a oportunidade de trabalhar com uma orquestra de jovens em estágio no Fundão, reparando que quando foi pedido que fizessem solos, num grupo de 22 jovens, apenas quatro se ofereceram para a tarefa e eram todos rapazes. A ansiedade associada à improvisação transcende o género, mas é de notar que as raparigas sofrem um medo maior de se expor do que os rapazes. A escolha dos instrumentos ou da música clássica vs. jazz denota uma aprendizagem social sobre os papéis que se espera serem desempenhados por rapazes e raparigas. No ensino da música, não só o contexto de professores e colegas tem uma expetativa sobre o desempenho, a escolha de instrumento, a musicalidade das alunas raparigas, como por sua vez também as alunas têm esta expetativa construída em si, acabando por moldar o seu comportamento a essa expetativa.

3: Na minha perspetiva existem duas linhas de ação para tornar o jazz num meio mais democrático e participado: no ensino e no contexto profissional. Para mim, a prioridade deveria ser refletir sobre como criar modelos mais justos no ensino do jazz e deixo as minhas sugestões: 1) inclusão de repertório composto por mulheres nos combos e na análise e teoria musical; 2) memorização de solos idiomáticos tocados por mulheres; 3) dar a conhecer mulheres instrumentistas e compositoras nas disciplinas de História do Jazz; 4) criação de cotas para mulheres instrumentistas nas escolas de ensino intermédio e superior, com atribuição de bolsas ou benefícios na propina. Tomei conhecimento que algumas escolas recorrem a benefícios de propina para cativar a inscrição de alunos em instrumentos menos escolhidos, como contrabaixo ou sopros. O mesmo poderia ser feito em relação a instrumentos menos escolhidos por raparigas, de forma a criar novos modelos e incentivar mais participação; 5) criação de bolsas para composição jazz feita por jovens mulheres (apoio à gravação do primeiro disco, etc.); 6) inclusão de raparigas em programas de Novos Talentos Jazz. Para o meio profissional: 1) pedir aos líderes dos projetos que reflitam sobre a formação dos seus grupos: haveria alguma mulher competente que pudesse integrar o seu projeto? Como podemos tornar as formações dos grupos jazz mais participadas? Como podemos tornar as programações dos festivais de jazz mais participadas? Para estas questões eu proponho reflexão e podem ser os próprios programadores a terem esta sensibilidade e a vontade de intervir na criação de modelos mais justos; 2) dar visibilidade aos projetos liderados por mulheres, em Portugal e fora. Parecem existir muito mais mulheres instrumentistas jazz fora de Portugal (não tenho dados que confirmem esta perceção), pelo que seria muito interessante dar mais visibilidade a estes projetos na imprensa e na programação em Portugal; 3) refletir sobre a ausência de mulheres a escrever sobre jazz na imprensa, a fazer crítica ou programação. Os decisores são, na sua grande maioria, masculinos. Refletir sobre a ausência repetida de mulheres nas seleções de melhores discos do ano, etc.; 4) respeitar o lugar de fala das mulheres no jazz, ouvir e ampliar as suas experiências. O assunto do género tem dois sentidos, afeta homens e mulheres. Por sua vez, o jazz herda uma certa masculinidade tóxica histórica que também afetará negativamente os homens: uma necessidade de afirmação, heteronormatividade, competitividade, etc. Mas, neste caso, estamos apenas e só a falar da visibilidade e da participação das mulheres. Neste assunto, cabe aos homens solidários com esta questão ouvir e questionar o seu privilégio; 5) criar redes e “networking” entre mulheres, como a recém-criada Mulheres do Jazz, uma plataforma que se organizou em torno da conferência "I Should Care: Onde Estão as Mulheres do Jazz em Portugal?", a convite da Festa do Jazz. Esta iniciativa está reagendada para setembro. 

Em suma, a criação de novos modelos – mais mulheres instrumentistas, compositoras e líderes em projetos jazz – acontece com o reforço da visibilidade e o reconhecimento da participação das mulheres no jazz.

Joana Sá (pianista e compositora)

 Foto: Daniel Neves

[Resposta geral] Recebo a sua proposta como bem intencionada e muito pertinente, mas fiquei extremamente desiludida tanto com o conteúdo das perguntas como com a forma de abordagem... Despersonalizada, não se dirige nem a mim nem a um grupo particular de mulheres que possa identificar, nem sob um critério qualquer que possa evocar, caindo precisamente num dos problemas de desigualdade de tratamento sobre o qual pergunta no seu pequeno questionário. Passa a dirigir-se a “mulheres” e isso é problemático: cada uma de nós deixa de ter identidade própria, numa perda que é múltipla... Eu perco a minha identidade e a identidade das que me rodeiam. Passamos a fazer parte dessa massa homogénea e “errática”: mulheres.

Quanto ao conteúdo das perguntas... Não são as respostas a estas perguntas que vão ajudar a reflectir efectivamente sobre a questão da desigualdade nestes meios musicais. As respostas possíveis para estas perguntas (isoladas e sem outra reflexão mais abrangente) podem ser até bem falaciosas, porque a quantificação de “a valorização, as oportunidades de trabalho, os rendimentos e a exposição mediática são diferentes relativamente aos homens?” é difícil de ser feita e é apenas a ponta do icebergue de uma construção muito maior, com enraizamentos muito profundos. O mundo ocidental em geral e o mundo da música jazz e improvisada são mundos construídos no masculino, com corpos masculinos e ideais masculinos sob todos os seus aspectos (de mercado inclusive). As mulheres foram sempre as excepções que confirmaram essa regra. E o fascínio sobre a singularidade feminina dessas excepções também só confirma essa regra (de excepção). Se quisermos reflectir sobre este assunto de forma profunda, estou disposta a colaborar... Se quisermos ficar pela ponta do icebergue, peço desculpa, mas não estou disponível... 

Isabel Rato (pianista e compositora)

 

1. Posso dizer-lhe que, para mim, a presença das mulheres no jazz não está assim tão bem documentada como refere. Ou serei eu que não tomei atenção? Cada vez mais, presentemente, este assunto ganha maior relevo e importância. Talvez as cantoras tenham tido um papel maior de destaque ao longo da história, como Ella Fitzgerald, uma ou outra instrumentista, como Mary Lou Williams ou Lil Hardin Armstrong; pois nunca tivemos muitas mulheres no jazz, e ainda menos enquanto instrumentistas ou mesmo líderes de grupo. Mais recentemente, penso que as mulheres que me influenciaram e ainda influenciam são: a compositora Maria Schneider; presentemente, a cantora e compositora Elina Duni; a pianista e compositora Nikki Iles; a cantora Norma Winstone, entre outras... De Portugal, Maria João (e Mário Laginha) – pois muito se ouviam os seus discos lá em casa – foi deveras uma referência, isto através do meu irmão, que a ouvia bastante. Penso que as minhas motivações principais para escrever música vieram, principalmente, do facto de ter um irmão músico. A música sempre fez parte da nossa casa desde que me lembro… Outro factor: ter um grupo de amigos desde sempre ligado à música (ou porque são músicos ou porque têm apreço por ela) e ter a casa sempre cheia de gente a tocar e a estudar… Saídas à noite sempre com pessoal a tocar… Tivemos muitos problemas com a polícia em Cascais por tocarmos na rua à noite!  Outro factor: começar a estudar piano com João Paulo Esteves da Silva e ter ido para a Escola Superior de Música de Lisboa; ter aulas com professores que estimularam decisivamente essa componente da composição. Bruno Santos, Gonçalo Marques, Nelson Cascais e Lars Arens, estes já no último ano de curso, foram de enorme importância, mas todos os professores foram determinantes em vários assuntos e matérias. Tudo isso junto, deu uma enorme motivação. Não tive professoras mulheres (só Maria João, de que eu era pianista acompanhadora…). Não há praticamente mulheres a leccionar nas nossas faculdades. Relembro ainda um momento decisivo numa viagem a Londres, em 2013, em que fomos ao Festival da Steinway e fizemos uma “masterclass” com o pianista John Taylor. Nesse Festival, no Pizza Express, existiam três duetos de pianistas. Dois duetos eram de mulheres pianistas de jazz, e uma delas era Nikki Iles. Fiquei muito motivada por vê-las a apresentar os seus trabalhos originais e verificar que era possível ser instrumentista e compositora de jazz. Por último, em casa tenho também um enorme incentivo e motivação, o meu companheiro Luís Barrigas, pianista e compositor.

2: Estas perguntas são difíceis, pois primeiro é preciso que todos constatemos que existe verdadeiramente um problema. Temos muito menos mulheres a estudar jazz em Portugal (agora existem mais, claro, do que há uns anos). Escolas como o Hot Clube e os cursos de jazz no Ensino Superior vieram potenciar a aprendizagem! Felizmente. Há muitas razões para que não existam mulheres no jazz… Seja por insegurança individual, social ou financeira, seja por afastamento do tipo de música (tão especifico), pela ausência evidente do jazz ao longo da educação nas escolas do Ensino Público… As mulheres são levadas a acreditar, nas entrelinhas da vida (inconscientemente? esperemos…), que a música não é para elas... Que o jazz e a improvisação não serão para elas, por serem músicas de criação e espontaneidade em tempo real, de entrega e inovação constante, que mexe com as nossas emoções e questões individuais, que potencia e desenvolve os nossos processos criativos, etc. Estou a generalizar um pouco, claro... Mas isto é uma realidade que existe e que já constatei enquanto professora de piano e enquanto pianista. Inclusivamente, já me disseram que a composição e a criação são de direito um exclusivo dos homens. Que a mulher não tem nada que ver com criar ou compor. Enfim… Pessoas que estão directamente ligadas à música e à educação. Penso que ainda há na comunidade dos músicos a recusa do problema da discriminação…

A nossa vida de músicos é muito precária; o problema começa logo por aí. Os concertos têm sempre uma enorme irregularidade, entre homens e mulheres. A falta de trabalho, de concertos para os músicos das várias áreas, e em específico para os músicos de jazz, é uma evidência brutal. A falta de protecção laboral dos músicos ficou completamente exposta agora com esta situação da pandemia. Repare: temos músicos supertalentosos, com anos e anos de estudo e trabalho no seu instrumento, também na composição, com poucas condições, a lutarem diariamente para poderem tocar… Isto custa muito, e se pudesse, agenciava os meus amigos e colegas à minha volta, se a minha vontade de tocar e escrever não fosse maior. As programações poderiam ter maior abrangência, claro, para homens e mulheres… Para as mulheres, neste caso, de modo a mostrar e despertar o nosso público! Que haja mais mulheres a tocar ou a cantar, e também mais líderes mulheres de grupos, é um enorme passo a tomar, para estimular e incentivar tantas outras que vêm ouvir, para as estudantes de jazz, para o público em geral (mostra um sinal de evolução dos tempos!). No meu caso, agradeço todas as oportunidades que tenho tido, mas na verdade é uma luta constante. Faço absolutamente tudo para o meu quinteto, agenciamento, publicidade, etc… É um enorme investimento pessoal. Penso que temos programadores que sentem curiosidade, outros que não estão interessados, outros que não dão valor à música ou que não consideram suficientemente o jazz, não sei… A verdade é que em Portugal temos muitos cartazes sem a presença de um nome feminino. Defendo, obviamente, o mérito, mas então não temos nenhuma mulher compositora, instrumentista ou cantora, com mérito, que possa integrar estes cartazes? Quanto a pagamentos, tenho lutado bastante por orçamentos justos para os músicos que trabalham comigo, com condições. Nem sempre é fácil, há muita gente que usa a falta de trabalho para pagar pouco ou quase nada aos músicos. Há situações em que sabemos que existe dinheiro e simplesmente fazem jogo connosco para reduzir os “cachets”. É muito complicado. Neste caso penso que não há diferenças entre homens e mulheres. As diferenças passam por se ser mais conhecido ou não, penso eu.

3: Entendo que muita coisa pode ser feita. Uma das coisas: temos de tratar do assunto na educação. A música tem de fazer parte do nosso dia-a-dia. Tem de fazer parte do nosso respirar! Nas escolas do ensino público é fundamental inserir também o jazz, devido à sua importância enquanto música improvisada (pois já temos outros estilos). Dedico uma parte da minha vida a esta luta, enquanto professora de piano e também no projecto que aqui explico de seguida: fui convidada no ano passado, 2019, para o projecto Seixal Jazz Vai à Escola; já existia para alunos do 7.º, 8.º e 9.º anos (aulas sobre História do Jazz leccionadas por Pedro Costa); mas este projecto pioneiro, dirigido pela Câmara Municipal do Seixal, foi ampliado para os alunos do 1.º ciclo. Então, eu e João Custódio (contrabaixista) preparámos um projecto, um concerto/aula sobre a História do Jazz para os mais pequenos, e tem sido muito gratificante, pois tenho tirado muitas conclusões em relação às crianças e à sua exposição ao jazz, a sua enorme aceitação e alegria ao ouvirem os temas, ao improvisarem também e a perceberem um pouco como funciona.

Não vejo qualquer diferença entre rapazes e raparigas na aceitação e na execução! Este é um caminho para depois virem a desenvolver as suas aptidões ligadas ao jazz se assim o pretenderem, sem qualquer discriminação entre rapazes e raparigas e colocando de parte inseguranças que muitas vezes vêm posteriormente. Outra sugestão: haver mais programação diversificada – quantos cartazes vimos em Portugal sem um único nome feminino? Haver mais oportunidades, incentivos, bolsas para as compositoras. Há vários anos que concorro a bolsas de apoio para gravar e nunca recebi nada, nomeadamente da GDA… Não tem problema, as coisas vão sendo feitas. E há tanta gente incrível e talentosa que percebo que é difícil receber o que quer que seja. A verdade é que a comunidade é grande, e o público é pequeno. Penso que a GDA e a SPA poderiam também despertar para este problema da discriminação. As autarquias e os programadores também podiam ser mais dinâmicos nas escolhas. Os meios de comunicação, como a televisão e a imprensa, poderiam dar maior destaque também. A jazz.pt poderia também dar atenção ao assunto, como sinto agora que o está a fazer. Existe também um grupo muito importante que surgiu para dar voz a estas questões: As Mulheres do Jazz, o qual abraço e de que faço parte. Estão a preparar um valioso contributo para todas estas matérias. Já tinha sido, aliás, planeada há bastante tempo uma conferência sobre este assunto para a Festa do Jazz.

 

Esclarecimento jazz.pt: Algumas das entrevistadas referiram-se ao artigo “Tempos incertos”, relativo ao impacto da Covid-19 nos músicos de jazz. Importa reiterar que, nesse âmbito, foram questionadas várias mulheres. Infelizmente, nenhuma delas respondeu à entrevista.