Os músicos e o Covid-19, 31 de Março de 2020

Os músicos e o Covid-19

Tempos incertos

texto António Branco ilustração Getty Images

Num momento em que os órgãos de soberania nacionais decidem acerca de uma mais do que previsível extensão do estado de emergência decretado em Portugal devido à pandemia de Covid-19, a jazz.pt foi ao encontro de vários músicos (incluindo alguns que residem fora do país) para saber como estão a viver este período e a perspetivar o futuro.

Estamos a viver uma verdadeira guerra biológica contra um inimigo que não se vê, mas cujo poder destrutivo já (quase) todos percebemos. Ao invés das bactérias, os vírus não são organismos vivos, pelo que necessitam de um hospedeiro para poderem funcionar e multiplicar-se. A fim de sobreviverem, têm de infetar células vivas, podendo o processo de contágio tornar-se imparável. À escala global, organizações, cientistas e políticos discutem a melhor forma de conter esta alarmante progressão e de acautelar os seus imprevisíveis efeitos sociais e económicos. Ao mesmo tempo, há quem insista em remar ao contrário, veiculando teorias da conspiração e discursos de ódio. Nas redes sociais medra a desinformação e a crendice, muitas vezes ao serviço de projetos políticos tenebrosos.

É na cultura e nas artes, em especial na música, que podemos encontrar o antídoto, o alento imprescindível para sobreviver a tempos de guerra e a crises profundas. Nietzsche disse acertadamente que «sem música a vida não faria sentido». O estado de emergência decretado em Portugal a 18 de março (e, certamente, prestes a ser renovado) devido à pandemia de Covid-19 (doença provocada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2) está a impactar de modo significativo a vida e as atividades de músicos, programadores e outros agentes envolvidos na vida cultural do país.

A jazz.pt falou com vários músicos para, em discurso direto, perceber melhor de que forma estão a lidar com esta situação, cujo impacte nas suas (nossas) vidas está ainda longe de ser percetível na sua plenitude. O certo é que será profundo e duradouro, não tenhamos ilusões. Alguns dos músicos contactados residem fora do país, o que nos ajuda também a perceber melhor o modo como esta situação está a ser vivida noutras partes do planeta.

Estas foram as questões colocadas:

1. Portugal está em estado de emergência devido à pandemia de Covid-19. Em consequência, foram encerrados teatros, salas de concerto, bares, escolas e outros espaços onde há música ao vivo. Foram canceladas todas as atividades que impliquem aglomerações. De que modo esta situação está a afetar a sua vida enquanto músico?

2. Que medidas poderiam ser tomadas por parte das autoridades competentes para aliviar esta situação?

3. Como está a ser o seu dia-a-dia neste período de distanciamento social?

Num quadro de distanciamento social estão proibidas aglomerações e os músicos vivem, sobretudo, das aglomerações que são os seus concertos. Por isso, configuram uma classe profissional particularmente vulnerável perante esta nova realidade (nos últimos dias alguém disse mesmo que esta profissão foi “descontinuada”). Fica o apelo, estimado/a leitor/a da jazz.pt: a melhor forma de apoiar os músicos neste momento difícil e de incerteza é segui-los nos seus sítios na internet e nas redes sociais, escutar a sua música e comprar os seus discos.

 

André Santos (guitarrista)

1. No meu caso, e na grande maioria dos músicos, afeta-nos fortemente porque todos os concertos foram cancelados ou adiados, as aulas (para quem dá aulas) também e não temos outra forma de rendimento, tirando direitos de autor e conexos, que no meu caso é uma fatia muito reduzida do orçamento global.

2. Já existe, supostamente, um apoio do governo para os trabalhadores independentes. Sabemos que não somos os únicos afetados, há muita gente! E o orçamento, apoios, subsídios, não são elásticos, daí que já é uma boa ajuda. A nós, músicos, resta-nos aproveitar a internet e apelar e sensibilizar o público a apoiar a nossa música. A relação artistas-público mudou, não sabemos por quanto tempo, e é importante aprendermos a lidar com isso. Com o dinheiro que era investido no bilhete para o concerto ao vivo, podem, por exemplo, comprar os nossos discos, apoiar os concertos ou outros conteúdos que vamos soltando na internet. Estou também a pensar dar aulas “online”. Ainda estou a refletir sobre tudo isto. É uma nova realidade, que não sabemos quanto tempo durará nem que marcas deixará para o futuro.

3. Apesar das dificuldades, sei que sou um privilegiado, por fazer o que tanto gosto, por poder usar esta quarentena como espaço de criação, etc. O meu dia-a-dia não muda muito, a grande mudança de cenário para nós (músicos) é a parte económica, tirando, obviamente, a parte social de interagirmos uns com os outros e com o público. Normalmente, o nosso trabalho é já por si solitário, caseiro e em retiro.

 

André Carvalho (contrabaixista, a residir em Nova Iorque) 

1. Está a afetar muito a minha vida enquanto músico e não só. Resido em Nova Iorque, onde toco com regularidade e, paralelamente, dou aulas numa escola de música e tenho uma série de alunos particulares (tanto presencialmente como via internet). Com a nova situação, todas as minhas fontes de rendimentos sofreram, obviamente, alterações. Em relação aos concertos, infelizmente, não houve qualquer tipo de compensação. Em relação às aulas, na escola de música passou tudo a ser feito pela internet e em relação aos meus alunos particulares, estou a tentar reorganizar e passar a dá-las também através da internet. Tanto a resposta da escola como a dos meus alunos particulares relativamente a tudo passar a ser feito pela internet foi bastante rápida, talvez por a era digital estar muito enraizada na cultura nova-iorquina. Infelizmente, nem todos os alunos conseguirão ter aulas pela internet. Dou aulas a alunos de todas as idades, sendo que será bastante mais complicado dar aulas a alunos muito novos, por exemplo de seis anos de idade. Além disso, alguns dos alunos, geralmente os que estão mesmo no início, ainda não têm instrumento. Um outro problema relativamente a esta crise que estamos a viver é que não sabemos quanto terminará. Assim, quanto a concertos, a meu ver não sabemos duas coisas. Por um lado, quais os concertos que temos já agendados a médio prazo que não se vão realizar. Por exemplo, tenho uma série de concertos já marcados para o fim da primavera / verão e não faço ideia se se realizarão. Será que faz sentido tentarmos marcar / organizar concertos a médio prazo, já que tudo se apresenta tão cinzento? Por fim, julgo que esta crise também me afeta enquanto consumidor de música, frequentador de concertos de outros músicos, participante em “jam sessions” ou sessões com outros músicos e ainda o facto de não sair à rua e ser inspirado por esta cidade, museus, restaurantes, bares, pessoas e mundo que normalmente contactaria.

2. Julgo que uma série de medidas que aliviem as despesas não só dos artistas, mas de todo o tipo de profissões liberais que funcionem sem contrato de trabalho. A meu ver, medidas como alívio nas rendas, contas e obrigações. Julgo que praticamente todos os músicos de hoje têm de obter o seu sustento através de várias vias, sejam elas “performances”, aulas, “arts administration”, comissões, etc. No entanto, grande parte destas áreas sofreu e sofrerá com esta crise. Por isso, julgo que seria importante haver um apoio básico (salário garantido) que compense as diversas áreas afetadas. Os espaços que acolhem concertos deveriam também ser apoiados de alguma forma. Os espaços não são só empregadores dos artistas, são também empregadores de uma série de outras pessoas, técnicos, funcionários, etc., que têm as suas vidas por um fio. Temos também de pensar no pós-crise. Se muitos dos espaços fecharem, onde é que os artistas apresentarão os seus trabalhos, onde é que o público assistirá a espetáculos, etc.? Por fim, as escolas devem ser apoiadas de alguma forma, já que a educação e o ensaio são áreas que contribuem para as contas mensais dos artistas.

3. Felizmente, nestas últimas semanas, nem tudo foram más notícias. Fui pai pela segunda vez em meados de março, o que me obriga naturalmente a alguma reserva familiar. Visto desta perspetiva, o isolamento tem sido bom, já que passo muito mais tempo com os meus dois filhos e com a minha mulher. No entanto, as outras facetas da minha vida continuam: continuo a dar aulas, a querer praticar e melhorar, escrever música e desenvolver uma série de projetos que estou a idealizar, estar em contacto com outros músicos e artistas. No meu caso, estando com os filhos em casa 24/7 dificulta muito o desempenho destas diversas áreas. Ainda estamos no início desta crise, portanto ainda estamos todos a ambientar-nos a esta nova realidade que esperamos que seja breve. Desta forma, há que priorizar áreas, organizar, fazer listas de tarefas e escalonar tudo de forma a que os vários “blocos” não caiam. Paralelamente, tentar ter uma atitude positiva, meditar, ler, fazer exercício físico, ter cuidado com a alimentação, etc., coisas com as quais já tenho habitualmente cuidado. De qualquer das formas, e apesar de ter a questão da parentalidade muito presente e estarmos de quarentena, estou a tentar estipular horários para que as coisas continuem a funcionar, estou em contacto com os meus amigos mais próximos e gostava de me focar nalguns projetos que desejo desenvolver, nomeadamente escrever música para dois novos grupos e continuar a desenvolver um outro projeto que já me persegue há muito, que é um projeto a solo.

 

Jorge Moniz (baterista) 

1. A situação está a afetar os músicos de todas as formas possíveis. Se não há trabalho não há rendimentos. Felizmente, dou aulas e no que a elas diz respeito tenho, para já, algumas garantias, se bem que não a 100%, visto que a escola de jazz do Hot também se encontra encerrada.

2. Uma das medidas seria aliviar os encargos com impostos e os encargos sociais. Outra, à semelhança do que acontece com os bancos que desabam, seria existir uma verba destinada a este tipo de situações que, pudendo não cobrir 100% dos rendimentos, cobrisse uma parte significativa.

3- O dia-a-dia está a ser penoso. É nesta altura que damos valor à nossa vivência e hábitos “normais”. É frustrante não poder sair de casa para ter uma atividade normal. Limita-nos não só ao nível familiar como profissional.

 

Hernâni Faustino (contrabaixista) 

1. A atual situação está a ser péssima, pois ser músico é a minha atividade principal e acrescido a esta situação também me vi privado de uma atividade que tinha em algumas escolas. Como acontece com todos os artistas, tive concertos cancelados e também uma “tour” confirmada em várias cidades chinesas que teve de ser cancelada. Tudo isto tem um impacto grande na minha vida pessoal a vários níveis, dinheiro, trabalho e realização profissional.

2. Como trabalhador independente acho que as instituições governamentais deveriam ajudar de forma concreta todos aqueles que trabalham nesta área e que, por causa desta situação, perderam os seus rendimentos. Penso que serem mais benevolentes com as contribuições à Segurança Social não basta, deveríamos ter muito mais apoio por parte das instituições governamentais.

3. Tenho estado ocupado nestes últimos dias. Terminei uma banda sonora para uma curta metragem e estou também de volta ao meu arquivo, onde tenho imensas sessões de gravação, e onde estou a fazer alguma arqueologia. Para além disto continuo a tocar contrabaixo em casa e fiz dois concertos em direto para o Facebook através da página Covidarte, com o trio TextuAlive, com Margarida Azevedo e Miguel Mira. Também me dedico um pouco mais à fotografia, a ler, a ouvir música e a pôr alguns filmes em dia.

 

Miguel Ângelo (contrabaixista) 

1. Basicamente, acabou com todas as atividade realizadas ao vivo, isto é, concertos, aulas, ensaios, gravações, etc., foram cancelados ou adiados para data incerta. Muitos, como eu, mantêm a atividade letiva com aulas “online”, utilizando as novas tecnologias de informação como ferramenta. Claro que o motivo o justifica e sou absolutamente a favor e apologista para que se cumpram as regras definidas pela Direção-Geral da Saúde e pelo nosso governo. Esta é uma pandemia cuja única vacina é a inteligência, quer na forma como lidamos com este caos e esta nova ordem social, quer na forma como a combatemos e cumprimos com a nossa parte, evitando o contágio, não só o nosso como o de terceiros. No entanto, receio que isto seja o culminar de uma crise na cultura e, em particular, na cultura que não é de massas, como é o caso do jazz / música experimental, entre outros e, como tal, receio que se avizinhem tempos muito difíceis para esta arte. Espero estar enganado.

2. Em primeiro lugar, garantir a sobrevivência dos músicos, sobretudo dos que dependem inteiramente das “performances”, através de apoios e subsídios; benefícios fiscais, através de isenções de contribuições ou pagamentos ao Estado e à Segurança Social; incentivos à produção artística, ou seja, o Estado atribuir subsídios para que os artistas possam criar conteúdos em casa, como por exemplo, produção de obras, conteúdos pedagógicos, espetáculos, etc. Sei que algumas destas medidas já foram anunciadas, no entanto, preocupa-me o facto de terem uma duração limitada e com valores pouco realistas. Há muitos concertos que não se podem justificar como perda, músicos que tocam em hotéis, bares, concertos em espaços pequenos em que não há um cartaz, ou um contrato, e que tornam o processo de justificação dessas perdas muito difícil. Espero que os nossos governantes tinham isso em conta. Infelizmente, os músicos de jazz não tocam, pelo menos jazz, no Altice Arena ou no Coliseu e concertos no CCB ou na Casa da Música são raros, portanto, a grande maioria vive de pequenos concertos (mas com muita música). É fundamental que, quando acabar esta crise, o Estado fomente e incentive esta área, com atribuição de mais verbas aos espaços que tem programação regular, com regras claras para a sua gestão, obrigando a diversificar e a apostar em áreas da cultura que normalmente são esquecidas, como é o caso da música e, em especial, do jazz e da música experimental; baixar o IVA e os impostos sobre a aquisição de instrumentos e material associado; incentivar os privados a investirem nesta área, com benefícios fiscais, por exemplo. E por falar em privados, é importante que o Estado tenha em conta muitos empresários e associações que tinham programação regular, como bares, associações recreativas / culturais, coletividades, etc., que fecharam portas quando dependem inteiramente dos clientes que frequentavam esses espaços e que correm o risco de não voltarem a abrir: é fundamental que o Estado os compense e, de alguma forma, os incentivem a voltar à atividade quer por questões económicas globais, quer como forma de dinamização das ofertas culturais.

3. Na verdade, tem sido bastante produtivo, sendo que tenho de assumir vários papéis no mesmo dia e por vezes em simultâneo, ou seja, professor dos meus alunos, professor da minha filha, pai a tempo inteiro porque a mãe trabalha na saúde e não está em casa, programador informático, músico em formação (sempre), compositor em construção, técnico de estúdio,  reparador de todas as coisas cá de casa e, mais importante, cuidar dos que são importantes para mim. Portanto, tenho trabalhado bastante e sugiro que todos façam o mesmo, sobretudo, dedicar tempo ao que mais importa, que é a família. Ainda recentemente, a propósito dos MAU e do álbum “Utopia”, disse que vivíamos tempos perigosos e que mudanças sociais eram urgentes, que era necessário deixar as redes sociais e deixar de “parecer” para “ser”... esta pode ser uma bela oportunidade para redefinirmos o nosso caminho como sociedade e, quem sabe, para uma oportunidade de criar a nossa “utopia”.

 

Ricardo Pinheiro (guitarrista) 

1. Trata-se de uma situação dramática, principalmente para aqueles que vivem exclusivamente da atividade artística. No meu caso, tive já vários concertos desmarcados, entre os quais o lançamento de um disco. Um músico precisa de se exprimir.

2. A meu ver, a tutela deveria preparar um plano concertado com o intuito de apoiar inequivocamente os músicos, que irão ver-se impedidos de exercer a sua atividade profissional durante vários meses, sem a garantia de que os concertos cancelados irão realizar-se mais tarde. É urgente haver uma intervenção.

3. Em casa, seguindo as recomendações do governo, aproveitando para estudar, acompanhar os filhos e refletir sobre o paradigma sob o qual temos vivido nos últimos anos.

 

Bruno Santos (guitarrista) 

1. Neste momento, e de forma muito prática e falando de concertos que foram e vão sendo adiados ou cancelados e que me envolvam, já estou na dezena ou na dúzia, principalmente com o meu irmão, André, no duo Manos. Desses todos, apenas dois foram já remarcados e há mais dois ou três com a promessa de que tal aconteça. Os outros estão, digamos, em “standby”. Preocupa-me muito o futuro, porque temos duas fases complexas pela frente, para os músicos e o mundo em geral. Temos de resolver o problema da epidemia como passo um e depois esperar que as pessoas recuperem a confiança para voltarem à rua e ao contacto com outras pessoas. Este passo dois não será coisa fácil nem automática. Portanto, diria que nesta fase tenho muito receio da duração de tudo isto. Tento pensar dia a dia.

2. As medidas deviam ser tomadas já na nossa fase de normalidade. Quando olhamos para um músico de que gostamos e saímos felizes de um concerto, tendemos a esquecer que aquela hora de música tem eventualmente 100 outras horas de preparação diária. É um trabalho, um investimento brutal, que não é pago. Os músicos, e não só, que investem a esse nível, não sabem se alguma vez terão retorno. É um mistério, um tiro no escuro, mas é o amor à sua arte e o rigor de fazer a coisa como deve ser que falam mais alto. Se pusermos a coisa nesta perspetiva é assustador. Podemos estar meses a trabalhar, diariamente, sem nada em troca. É triste. É óbvio que não defendo que sejamos dependentes, ou totalmente dependentes, de subsídios. Há uma parte que compete e é responsabilidade do músico, o chegar e aproximar-se às / das pessoas que nos ouvem, por exemplo, mas é duro. Nesta fase, mais duro ainda. É preciso coragem para assumir que a cultura é vital para a sanidade no mundo, produz coisas boas e positivas como o trabalho de grupo, a interatividade, o contacto com outras pessoas para um bem comum, para um objetivo comum e tudo de bom que vem daí.

3. Tenho a sorte de ter um quintal para arejar, apanhar um bocadinho de sol, levar a minha filha a passear e brincar e ainda juntar-me a Ricardo Toscano, que está no quintal do lado. Temos feito umas sessões informais de 40 minutos para os vizinhos com transmissão “online” em tempo real, porque traduz o que se passa. Já que não podemos ir ao Hot, fazemos aqui no quintal a nossa “jam session” e transmitimos em direto, tal como uma “jam”. Sem grande preparação, escolhemos três ou quatro temas e pronto. Rita Redshoes tem-se juntado a nós e vamos mantendo as nossas sessões. Um dia de cada vez com um olhar mais a médio / longo prazo, um equilíbrio que nesta fase me parece importante e vital para a nossa sanidade. Além disso, tenho tentado investir e estudar algumas coisas que estavam aqui à superfície, nomeadamente alguns compositores sul-americanos de guitarra clássica que têm coisas lindas. Ando a aprender algum repertório de dois ou três. Ouvir música, ler um bocadinho sobre algumas coisas que me interessam e agora tentar voltar à normalidade, dentro do possível. Por exemplo, tentar colocar a escola do Hot a funcionar num sistema alternativo. Outro desafio. Nem tudo é mau nesta fase.

 

Miguel Rodrigues (baterista) 

1. Sendo os concertos a principal fonte de rendimento dos músicos, penso que os cancelamentos / adiamentos foram o primeiro e mais direto impacto até agora. Não sabemos o tempo que vai durar esta situação. Os eventos que se encontravam em programação também estão suspensos, deixando assim o futuro numa incógnita que não augura nada bom a nosso favor.

2. Como sabemos, o impacto desta pandemia vai estender-se por um longo período, portanto acho que uma das medidas que poderiam ser adotadas seria decretar por parte dos municípios, festivais, teatros e agentes culturais com interesse público, a preferência / obrigatoriedade de contratar músicos nacionais. Por parte das gestoras de direitos de autor e conexos (SPA, GDA), haver um apoio extraordinário aos músicos, promovendo uma equidade de “dar” mais aos que recebem menos e “tirar” um pouco aos que recebem muito, por exemplo.

3. Acima de tudo, tenho tido a preocupação de me manter ativo, mas é difícil abstrair-me das notícias que a cada dia são mais aterrorizadoras. No entanto, tenho tentado transformar a quarentena num retiro musical. Tenho praticado bastante, ouvido discos e feito transcrições. Leio livros, vejo documentários e mantenho corridas matinais a ouvir o “Four & More” de Miles. Quero aproveitar e sair mais forte desta fase.

 

Desidério Lázaro (saxofonista) 

1. É uma situação nova, criadora de impasses profissionais. Mas tenho estado focado na minha saúde e na dos meus, pelo que rapidamente coloquei a questão profissional em segundo plano. (Uma ressalva: continuo a lecionar “online”, o que me assegura o pagamento das despesas da vida. No entanto, penso nos meus colegas que ficaram sem trabalho e vencimento, e lamento muito por eles).

2. Não faço ideia... Gostaria que houvesse alguma lei que obrigasse a uma assinatura de contrato para qualquer compromisso de trabalho profissional, independentemente do valor do “cachet” negociado. Isso faria com que todos os concertos que envolvessem valores baixos de honorários também fossem ressarcidos.

3. Estou com os meus dois filhos e a minha mulher em casa. O tempo é dividido entre a parentalidade e as aulas, um pouco de saxofone aqui e ali.

 

Gonçalo Marques (trompetista) 

1. Está a afetar muito, os concertos foram cancelados e as aulas passaram a ser dadas “online”. Para além do mais, as escolas fecharam e por isso o meu filho está agora em casa e precisa de mais apoio, o que me tira tempo que dedicava à música…

2. Felizmente, penso que algumas estão a ser tomadas. Uma coisa que iria ajudar, quando isto acabar, seria as autoridades facilitarem um pouco mais a realização de concertos em espaços pequenos. Neste momento há muitos entraves, de tal modo que muitos espaços mais pequenos preferem não ter música. Se, depois de terminada a quarentena, as pessoas responsáveis puderem retirar alguns destes entraves isto já seria uma ajuda. Um apoio extra a pequenas associações que ajudam a organizar concertos e outras atividades que, no fundo, fomentam cultura e dão trabalho a músicos, seria também muito bem vindo. Claro que ajudas diretas aos músicos, como facilidades no pagamento da Segurança Social, rendas, etc., também são bem-vindas.

3. Em parte é o dia-a-dia normal de um pai de família com uma criança pequena e um bebé… Trata-se de gerir as necessidades de cada um, tentar manter os miúdos saudáveis e bem-dispostos. No meio disto tudo dar aulas “online” e responder a questões relativas às minhas responsabilidades. Com alguma sorte, estudar um pouco do meu instrumento…

 

Luís Lopes (guitarrista) 

1. Bom, tinha uma digressão pela Europa e a Rússia com o meu Humanization 4tet, para lançamento do nosso disco “Believe, Believe”, gravado em Nova Orleães durante a nossa última “tour” americana em 2018. Uma dúzia de concertos, que passavam também aqui pelo Pequeno Auditório do CCB, pelo Salão Brazil em Coimbra e pelo Grémio Caldense nas Caldas da Rainha. Tudo cancelado. Milhares de euros e, como deves imaginar, desmoralização total. Tanto trabalho. e depois vem a tristeza de, em cima da hora, veres todo o nosso “show” simplesmente desaparecer. Esperemos que seja tudo mandado para data mais à frente. Será? Tenho agora outro festival, Konfrontationen Nickelsdorf Austria, em duo com o violoncelista americano Fred Lonberg-Holm, agendado para meados de julho, com possível “tour” também pela Europa. Acontecerá? Ainda não sabemos. E é isto o mais importante de entre outras coisas que iam sempre acontecendo. Tenho constante trabalho, de misturas de outros discos para fazer, etc., trabalho muito dificultado nestas condições. Tenho de continuar a marcar concertos para o próximo futuro, mas ninguém sabe o que vai acontecer, o que fazer. Uma tragédia!

2. O que há a fazer é apoiar no sentido financeiro, claro! Para quem funciona com recibos verdes, como eu, é obrigatório o Estado assegurar pelo menos parte considerável da média de todos os meses, para não dizer na totalidade, e sem restrições ou equações que no fim das contas levam ao residual ou ao nada. Somos músicos, não contabilistas. Recebi um email da GDA, por exemplo, a informar que vai adiantar os apoios previstos – já é uma ajuda, mesmo que seja pouco. Depois, todos precisamos de saber concretamente quando isto vai acabar, essa informação concreta. Não se sabe ainda? Ouve-se tanta coisa desmoralizante, tipo um mês, até ao verão, todo o ano, enfim... É que assim, para além de estarmos parados, sem possibilidades, e a afundar dia a dia, não temos uma perspetiva de data do fim de tudo isto e início de nova vida. Torna a coisa bem pesada! Na nossa área os projetos são marcados com muita antecedência. Pelo menos aqueles com mais possibilidades, como sabes.

3. Estamos por casa, a respeitar total e verticalmente o que é exigido. Não só por nós, mas por todos, nomeadamente os que estão ao serviço de todos nós como os médicos, enfermeiros, etc. Que fazer? Vamo-nos mantendo em atividade, sempre a trabalhar em alguma coisa, com muita calma e consciência. A minha companheira é realizadora de cinema, trabalhou duas semanas num projeto de filme para entregar ao ICA e tentar conseguir apoio financeiro para uma longa metragem. Eu vou trabalhando sempre na minha música. Temos uma casa grande, eu tenho o meu espaço / escritório / estúdio e a Inês o dela, o que facilita. Temos uma criança de 12 anos em casa, que tem de ser orientada numa situação difícil destas. Também tem o seu espaço. Temos terraço e jardim, o que dá para arejar. Está a correr bem, vai correndo. Tudo isto é muito difícil, estamos ainda distantes de um possível fim. É uma situação totalmente nova para todos, ninguém sabe muito bem como corresponder. Usamos o instinto. É muito duro também ver as notícias e tomar consciência das dificuldades e desgraças de muitos. Enfim, vamos ver!

 

Hugo Alves (trompetista) 

1. Penso que neste momento não há vida que não esteja afetada, a uma escala planetária. Honestamente, o problema das artes de palco paradas não é inferior ao de qualquer outra profissão que, neste momento, está parada: estamos todos castrados, por um problema maior que urge ser resolvido, e que passa afinal por cada um de nós. Neste momento, eu e a Orquestra de Jazz do Algarve temos a agenda suspensa pelo menos até fim de maio, com concertos e eventos a serem reagendados. É uma suspensão na vida de todos nós que obviamente nos afeta muito. Mas urge dizer que todos os nossos parceiros institucionais têm sabido lidar com a situação, dando soluções, as possíveis, e que ainda assim podem não ser as finais. Da nossa parte também temos tentado estar à melhor altura. Estamos em férias forçadas, numa suspensão da vida, que espero, retorne à normalidade o mais rápido possível, algo que mais uma vez depende de todos e de cada um de nós.

2. Penso que neste momento, o problema laboral, o problema do reagendamento de datas e calendarizações de eventos, entre outros, não podem ainda ser totalmente colocados em cima da mesa, porque na verdade não sabemos ainda o grau total de afetação. Estamos, infelizmente, ainda dentro de uma crise que não passou, que não está resolvida, e logo, não sabemos ainda toda a extensão dos estragos. O meu universo está afetado até ao fim de maio, como referi, mas pode ainda ver junho ou julho também comprometidos. No geral, só depois de conhecidos os danos finais, se poderá  avaliar e tomar decisões, seja pelo governo, pelas instituições públicas e autarquias e por nós, entidades da cultura ou artistas. Considero que as questões maiores terão a ver com apoios sociais imediatos, em virtude desta suspensão abrupta de atividade e rendimentos. As autoridades já deram algumas respostas, se bem que a maioria das pessoas que trabalham nas artes são trabalhadores independentes, algo que acarreta suscetibilidades e particularidades próprias, nomeadamente quando não há um valor fixo e regular de rendimento. Reparei que as medidas tomadas vão no sentido de adaptar aos independentes as medidas que foram tomadas para os trabalhadores por conta de outrem. Penso que, no pós-crise, e após essa avaliação real, urge encontrar as soluções e os instrumentos para resolver isto o mais e o melhor possível. Há danos que são já irreparáveis. E será muito importante a contribuição de todos num objetivo comum.

3. É um clima de férias forçadas, nos primeiros dias uma espécie de travagem a fundo. Na Orquestra de Jazz do Algarve já temos algumas práticas de teletrabalho, se assim quisermos chamar, e apenas reforçamos mais essa componente, algo que nos faz estar isolados já há cerca de três semanas. Muito trabalho está em suspenso, mas muito também não, e fazemos tudo o que podemos, em colaboração com os nossos parceiros, a quem também reconhecemos algum sangue frio necessário. De resto, concentrei-me em tomar as minhas medidas pessoais de isolamento, seguindo as instruções dadas pela Direção-Geral da Saúde. Seguem-se as notícias, e o que vai acontecendo, mas com a dificuldade da necessária triagem dos dados que vão saindo. Confesso que me preocupa a falta de bom senso de tantas pessoas que se deslocam mais do que precisam, compram mais do que precisam, falam mais do que precisam e daquilo que não sabem ou não podem saber, ou casos de pessoas que ainda há bem poucos dias estavam para viajar e só não o fizeram porque os voos foram cancelados. Será possível? Há muitas pessoas com falta de sentido de comunidade e de bom senso na gestão dos problemas, o que é triste. De resto, estuda-se música, fazem-se outros trabalhos que estavam relegados para outros momentos. Felizmente, tenho sempre muito que fazer! Fiquemos todos em casa, e ajudemos aqueles que estão na linha da frente a fazer por nós, num momento tão difícil.

 

João Pereira (baterista) 

1. Este estado de emergência afeta-nos a todos enquanto artistas de modo significativo ou quase total, na medida que todas as apresentações e concertos foram e vão sendo cancelados desde o principio de março até não-sabemos-bem-quando. Portanto, o grande problema que se faz sentir imediatamente é que todo o retorno financeiro (e artístico) que estava previsto para os próximos meses vai pelos ares. É um período de grande incerteza e as pessoas estão preocupadas não só com este rombo inicial bem como com a perspetiva de trabalho que se possa ter pós-pandemia. Como músico, e face ao dever de isolamento profilático, torna-se também impossível trabalhar numa série de outras coisas que normalmente se fariam em grupo ou no contacto direto com outras pessoas (como ensaios, sessões de trabalho, gravações, etc.), mas vai sempre haver alguma coisa a que nos podemos dedicar e aprofundar neste período. As pessoas são criativas e uma coisa boa destas limitações é que estas nos fazem ir por outros caminhos e arranjar novas formas de fazer o que é preciso. Estas medidas de emergência vão sendo cada vez mais rigorosas, mas são necessárias ao combate do vírus em sociedade.

2. Pelo que sei, há medidas a serem discutidas que visam aliviar a situação financeira dos trabalhadores independentes e, em particular, dos artistas lesados por esta situação (praticamente todos, diria). A GDA, por exemplo, lançou um inquérito aos seus membros para que o preenchessem e divulgassem (não é preciso ser membro para preencher este inquérito), com o fim de ter uma noção mais detalhada do panorama atual do setor artístico, tomando conhecimento do trabalho e dos rendimentos que ficaram comprometidos e assim poder representar os artistas e os seus interesses junto das entidades competentes. Espero que as propostas e soluções apresentadas por este tipo de iniciativas sejam ouvidas e que deem frutos. Que frutos serão esses, não sei, talvez a Segurança Social venha a dar algum apoio. Fugindo um bocadinho à pergunta: tão ou mais importante é que, pós-pandemia, não se verifique uma subvalorização e diminuição da cultura, dos artistas e do seu papel. Antes pelo contrário: que fique mais claro que é, ainda, das coisas mais reais que este mundo tem para dar.

3. Finalmente, estou a realizar um sonho antigo e a fazer uma estátua. É uma reconstituição 3:1 de mim próprio, à base de papel higiénico, máscaras respiratórias, e depois colo tudo com gel desinfetante. Está a dar muito gozo. Vou inaugurar a estátua quando esta maluquice toda acabar, com evento e tudo, só espero que apareça muita gente! Agora a resposta oficial: dia-a-dia calmo, por enquanto tudo bem aqui por casa. Há muito tempo para ouvir música, ler, escrever e rabiscar, estudar bateria e piano, ver filmes, fazer exercício, algumas experiências, e até mesmo para fazer nada (finalmente tenho desculpa!). Já tenho para aí mais 50 aplicações novas para fazer videoconferências. Tenho falado com pessoas, com algumas já não falava há muito tempo. Não sei se é geral, e talvez venha daquela parte das limitações que falava há pouco, mas acho que todos temos tido, para além de mais preocupações, mais boas ideias para o futuro. Acredito que, no meio de toda esta catástrofe, parar tenha coisas boas.

 

José Valente (violetista) 

1. Ainda estava em Lisboa a fazer o espetáculo “Os Figos São Para Quem Passa” no Teatro Municipal de São Luiz (primeira semana de março) quando comecei a receber as primeiras notícias, por parte do meu agente, de adiamentos e cancelamentos. Nessa altura fiquei realmente zangado e frustrado com o vírus! Toda a agenda de março, abril e (provavelmente) maio foi cancelada. Ou seja, cinco “masterclasses”, quatro concertos, uma jurisprudência (de prova de aptidão profissional) e uma inauguração. Um desses concertos era num festival positivo para a minha internacionalização. Só não é mais dramático porque eu já tinha organizado a agenda de forma a ter uma grande parte de abril e maio livres para compor a obra para viola de arco e banda filarmónica que será gravada em CD em julho (espero que essa data também não caia!).

2. Cada caso é diferente. Alguns equipamentos culturais podem, ou se calhar até devem (sei que alguns estão a fazer isso), encontrar soluções / programações alternativas adequadas à quarentena, com os artistas que já estavam previstos e contratados para este período. Apesar de os espaços terem fechado, a logística inerente a cada evento não se eliminou. Os orçamentos previstos para os próximos meses não desapareceram. O dinheiro que já tinha destino, não se evaporou. Nalguns casos (isso está a acontecer comigo) os compromissos foram adiados para o último trimestre do ano. No entanto, não existe a certeza de que, por essa altura, nos venha a ser possível regressar aos palcos e à rua. Hoje participei numa reunião / debate organizada pela Associação Apuro com vários artistas em que se discutiu esta alternativa. É uma resposta insuficiente para o problema: o mais provável é que os espaços voltem a adiar por mais uns meses as suas agendas quando chegarmos a outubro. Esta epidemia está a transformar as nossas rotinas e hábitos de produção. Espero que as instituições culturais se adaptem rapidamente, caso o regime se modifique na totalidade. O Estado está também a tentar oferecer apoio aos trabalhadores independentes – que é o enquadramento laboral da maioria dos artistas –, mas ainda não sabemos exatamente qual o procedimento para receber este apoio. Uma grande fatia da sociedade já interpretava a arte, antes do aparecimento do surto, como uma forma de entretenimento, não estabelecendo qualquer compromisso sério com a sua subjetividade. Por isso não vai ser agora que a vai sentir como algo de essencial. Apesar de nos primeiros tempos de quarentena se ter sentido um entusiasmo anormal para com a arte nas redes sociais, acho que os concertos “online” gratuitos ou por donativo abrem um precedente perigoso. O sistema irá certamente aproveitar as consequências económicas provocadas por esta epidemia para justificar uma nova crise financeira. Quando a crise assola a sociedade, a cultura é sempre a primeira a definhar, a sofrer cortes nos apoios, etc. Os equipamentos culturais, se se mantiverem fiéis à sua função para com a comunidade (se o são ou não, essa é outra questão), podem ser uma grande ajuda para combater a desvalorização da arte neste período complicado. Ao continuarem a apresentar uma agenda cultural (seja esta “online” ou por outro formato) definida pela singularidade epela  curiosidade das propostas, fomentam uma relação um pouco mais justa entre o artista e a sociedade e garantem que criações menos óbvias se desenvolvam, independentemente da adesão e da aceitação por parte das massas.

3. Não está a ser muito diferente do tempo que passo em casa, entre concertos e demais atividades. Gosto de me recolher em casa durante vários dias. Nesses períodos estudo, componho, ouço muita música, leio muito, cozinho, jogo FIFA e durmo bastante. Também é nesses momentos que costumo pesquisar para as próximas peças e concertos. Nestes dias compus três curtas peças e li uns tantos livros. Também tenho andado a pensar em duas ideias para desenvolver e apresentar durante a quarentena. E a pesquisar para a composição de “Trégua” – o mencionado disco para viola e filarmónica. Entretanto, fui contratado para filmar uma atuação minha, para um conjunto de episódios (com contribuições de vários artistas) que serão divulgados “online”. Por isso vou estar ocupado a preparar e a gravar esse concerto durante esta semana. Também fui contratado para dar uma “masterclass” “online” para meados de abril. Veremos o que acontece. Desejo perseverança, coragem e muita força a todos os meus colegas artistas. E quero agradecer-lhes por nunca desistirem. Vamos continuar a partir a louça!

 

José Lencastre (saxofonista) 

1. Esta situação afeta totalmente a minha vida como músico. No que me toca, somando aos inúmeros concertos cancelados tanto em Portugal como também na Holanda e na Bélgica, para onde deveria ir uma semana agora no início de abril, não tenho previsão de conseguir fazer qualquer apresentação pública pelo menos até junho. Será muito difícil gerir os adiamentos, pois trata-se de um elevadíssimo número de espetáculos que ficaram em suspenso: os de todos os que estão nesta mesma situação.

2. Uma delas passa necessariamente por criar um fundo especial de apoio financeiro para todos os artistas e pessoas ligadas ao mundo das artes que estão sem trabalhar neste momento. A Segurança Social prevê algo, mas ao que sei ainda não está disponível para os trabalhadores independentes. Esse apoio tem um valor máximo que não chega ao salário mínimo nacional. Uma boa medida seria garantir esse valor como ponto de partida para o apoio neste período. Talvez criar algumas isenções fiscais ou mesmo ajudas na vida quotidiana, algo como passe livre para transportes públicos até ao final de 2020, não pagamento de IVA em bens de primeira necessidade. Qualquer medida que alivie as despesas diárias que todos os cidadãos têm seria já uma boa ajuda.

3. Tenho tentado rentabilizar ao máximo este tempo extra que a estadia em casa me proporciona. Mantenho a minha rotina de estudo do instrumento mais ou menos nos moldes anteriores. No entanto, tenho tido mais tempo para ler, para assistir a palestras, entrevistas, documentários e filmes, para fazer exercício físico e também para relaxar e dormir. Evito seguir todas as notícias e gosto de acreditar que uma boa maneira de contribuir positivamente para toda esta situação pode muito simplesmente passar por manter a paz de espírito e pensar que toda a adversidade pode proporcionar evolução e crescimento pessoal e global.

 

Diogo Vida (pianista)

1. Nesta fase em que foi declarado o estado de emergência, estou com alguns concertos cancelados e sem aulas para dar. Isto pode significar uma certa instabilidade económica, acrescentada à instabilidade óbvia que decorre da pandemia em que vivemos.

2. Tenho alguma dificuldade em colocar-me no lugar dos governantes, mas espero e penso que eles estão conscientes da situação, desde uma perspetiva bem mais larga do que apenas as dos músicos e profissionais do espetáculo. Sei que já estão em marcha algumas medidas que pretendem auxiliar os trabalhadores independentes neste momento. Além destas medidas em concreto, espero que, ao longo do tempo, haja possibilidade de atender às necessidades mais específicas que se possam apurar.

3. O meu dia-a-dia está a ser passado em família, em casa, tentando passar o tempo da melhor maneira. No tempo que me posso ocupar da música, tenho trabalhado em novas composições, estudado piano e vou fazendo o que posso para ser produtivo nas circunstâncias atuais. Tudo menos ver demasiadas notícias!

 

João Lencastre (baterista)

1. Esta situação afeta-me a vários níveis: ser músico é partilhar, é estar, é o público, são os músicos com quem toco, etc. E afeta-me obviamente também do ponto de vista monetário, visto que a minha maior fonte de rendimento e de quase todos os músicos hoje em dia serem os concertos.

2. De momento não me parece que seja possível fazer alguma coisa que não seja dar algum apoio financeiro a todos os músicos e trabalhadores independentes. Espero que esta situação volte à normalidade o quanto antes, mas caso não seja possível talvez fosse importante criar alternativas que permitissem aos músicos atuarem, mesmo que fossem eventos sem público, transmitidos através das redes sociais. E desta forma os músicos poderiam ter alguma remuneração monetária.

3. Tenho ocupado os dias a praticar mais do que o habitual, a escrever música nova e a treinar boxe, desporto que tenho como “hobby” há já alguns anos. Nem tudo é mau!

 

João Hasselberg (contrabaixista)

1. Bem, a consequência mais direta e talvez a mais dramática é a interrupção dos rendimentos. A outra, talvez menos percetível ao público em geral, é a incapacidade de continuar a desenvolver projetos artísticos (ou não, meramente comerciais) que envolvam outros músicos ou profissionais de áreas adjacentes. Tenho um disco novo para sair com Eduardo Raon (harpa, eletrónica) e Luís Figueiredo (piano, eletrónica) que está parado porque a distribuidora “online” não está a trabalhar e a fábrica de reprodução em vinil também não. Por outro lado, talvez tenha mais tempo (e especialmente espaço mental) agora para estar focado na minha música ou em outras áreas artísticas e em projetos pessoais.

2. Não estou muito por dentro de tudo o que se anda a passar em relação a isto, e acho que os meios de comunicação têm um papel muito importante no que diz respeito a disseminar informação verdadeira e acertada. A sensação que tenho é a de que estão a levar a coisa para o lado mais sensacional, mais uma vez, e isso gera pânico, fomenta dogmatismo e, logo, a incapacidade de pensar criticamente. No que diz respeito ao papel da Segurança Social em segurar isto tudo, ainda é cedo para dizer. A única coisa que posso dizer para já é que o valor proposto para os trabalhadores independentes é irrisório. O olhar e a ação do Estado deveria ser igual para todos os cidadãos, independentemente do escalão de contribuições. Mas esta é outra história, bem mais antiga.

3. Não mudou muito a não ser que tenho de gerir melhor os longos passeios que dava diariamente. Passo os dias a ler, a fotografar e a meditar. Tenho visto também muitas entrevistas de pessoas que admiro. De vez em quando avanço música que está em processo de criação, às vezes bem-sucedido, às vezes não.