Jazz Vária, 10 de Março de 2020

Jazz Vária

Enfim livre (18/ Albert Ayler)

texto António Branco

Albert Ayler foi um dos músicos mais importantes do jazz da década de 1960, embora a sua música não encaixe nos padrões comumente aceites para definir aquilo que se convencionou designar por “free jazz”. Estabeleceu elos entre o jazz de vanguarda e as origens mais remotas do género, mas o seu legado ainda está longe de ser consensual. António Branco lembra-o no décimo oitavo episódio de Jazz Vária.

Depois de desaparecer, a 5 de novembro de 1970, após uma discussão com a namorada, a cantora Mary Maria Parks, o corpo do saxofonista Albert Ayler apareceu, vinte dias depois, a boiar no East River, em circunstâncias ainda não cabalmente esclarecidas, volvido meio século. Quando foi encontrado, aparentava ter estado na água durante algum tempo, talvez muitos dias. Ainda que a tese oficial aponte para suicídio por afogamento, persistem rumores sobre um eventual assassínio (logo surgiu quem recordasse uma velha questão com a Máfia, que o terá atado a uma “jukebox”). Annette Peacock dirá mais tarde que um outro músico lhe confidenciara que os exames “post-mortem” ao corpo de Ayler revelaram a existência de 19 ferimentos por arma branca. A compositora, cantora e multi-instrumentista recorda-se das últimas palavras que lhe ouviu, no Slug's Saloon, clube do Lower East Side nova-iorquino, após uma apresentação, rodeado de bajuladores: «Não estou aqui.»

Silenciava-se deste modo trágico uma das mais icónicas (e controversas) figuras da história do jazz. Por muitos apodada de radical, a sua obra ainda hoje está por consensualizar, ao contrário do que já aconteceu, por exemplo, com a de Ornette Coleman, entretanto canonizada. A própria BBC terá destruído o único filme existente de Ayler a tocar ao vivo, sem que jamais o tenha transmitido. Os seus últimos meses de vida também permanecem um mistério. Muitos dos que lhe eram próximos relatam um comportamento estranho, como usar casaco de pele e luvas em pleno verão ou cobrir a cara com vaselina.

Ayler nunca soube o que é ter um público fiel. As dificuldades financeiras acompanharam-no durante toda a vida, necessitando sempre da ajuda da família e de amigos músicos, incluindo John Coltrane. Desde cedo, Albert acumulou um sentimento de culpa devido à saúde instável do irmão mais novo, o trompetista Donald (Don) Ayler. Vendo a sua saúde deteriorar-se, e sendo incapaz de cuidar de si própria, também a mãe se havia oposto à sua mudança para Nova Iorque, insistindo que Albert deveria tratar dela. Ambos desejavam que Don regressasse a Cleveland, cidade natal, para aí poder receber um melhor acompanhamento médico. Ao mesmo tempo que as tensões familiares cresciam, Albert procurava uma vida tranquila, que lhe permitisse dedicar-se à música.

Nascido a 13 de julho de 1935, Albert Ayler teve aulas de saxofone alto com o pai, Edward, que era saxofonista e violinista semiprofissional e também o principal responsável pela introdução do filho no mundo do jazz, dando-lhe a escutar discos de swing e de bebop. A vivência na igreja foi igualmente determinante para a sua abordagem à música, que pode ser entendida com uma forma de expressar uma espiritualidade muito presente.

Depois de experiências nos campos dos blues, do R&B e do bebop – a forma como dominava este repertório levou a que fosse apodado de “Little Bird”, numa referência a Charlie Parker –, Ayler virou-se resolutamente para o jazz mais livre, adotando um estilo pouco ortodoxo e dificilmente catalogável. Depois de concluir os estudos secundários, alistou-se no exército (altura em que trocou o saxofone alto pelo tenor), tendo ficado estacionado em França, onde tomou contacto mais próximo com a música militar europeia e se apercebeu do modo de vida no velho continente. Desmobilizado, tentou arranjar emprego em Nova Iorque e em Cleveland, mas a sua postura progressivamente mais iconoclasta encontrou resistências em donos de clubes e organizadores de concertos e festivais.

Mais baseada na exploração tímbrica do que nos planos harmónico e melódico, a sua música revela um avançado sentido de improvisação (explorando microtonalidades, por exemplo), estendendo os avanços alcançados por Coltrane e Ornette. Desenvolveu um som que claramente remete para as “marching bands” dos alvores do jazz, acrescentando-lhes improvisações lancinantes e sons que nenhum saxofonista jamais havia tentado. O seu vibrato amplo assemelhava-se ao dos saxofonistas de gospel, que procuravam tirar dos seus instrumentos um som mais próximo da voz humana, algo muito diferente do que faziam os músicos das orquestras de swing.

Em 1962, optou por mudar-se para as frias paragens escandinavas, onde liderou grupos de músicos suecos e dinamarqueses. Neste período tocou e gravou com Cecil Taylor, na condição de músico não pago. Regressado aos Estados Unidos, fixou-se em Nova Iorque, onde ampliou o seu estilo idiossincrático, vertido em discos históricos como “Spiritual Unity” (para a ESP-Disk, com o contrabaixista Gary Peacock e o baterista Sunny Murray), “Ghosts”, “Bells”, “Spirits Rejoice” ou “Love Cry”. Archie Shepp, grande admirador de Ayler, chamou a um disco seu “Fire Music”, título emblemático e que reflete o que então faziam, juntando a energia e a vibração da música à determinação do movimento político de luta pelos direitos cívicos da população afro-americana.

Ayler foi capaz de sintetizar essas várias dimensões de modo único, equilibrando intensidade e beleza extremas. Nas notas do disco “Live in Greenwich Village”, escreveu: «Toco sobre a beleza que virá depois da tensão e das ansiedades.» Quem assistiu à sua apresentação no serviço fúnebre de Coltrane, a 21 de julho de 1967 na Igreja Luterana de São Pedro, em Nova Iorque, relata que tirou o saxofone da boca em apenas duas ocasiões: numa delas emitiu um grito de angústia e noutra uma expressão de alegria, simbolizando a ascensão do seu amigo e mentor aos céus.

Nos últimos meses, e faltando-lhe a intensidade que exibira noutros momentos, continuava a revelar uma forma muito própria de estar na vida e na música. A Impulse!, editora para a qual gravava por recomendação de Coltrane, pressionara-o no sentido de suavizar o som. Tendo-o feito, adotando uma sonoridade com mais elementos dos blues e do R&B (no fundo, regressando às origens), os discos vendiam-se mal, não agradando nem aos admiradores mais antigos nem aos novos. A incerteza e a angústia corroíam-lhe o espírito e contribuiriam para ditar-lhe o fim.

No verão de 1970, Ayler regressou à Europa, e em concertos que deu na Fundação Maeght, uma galeria de arte perto de Nice, provou que estava no caminho certo para acomodar sons e preocupações. Entrevistado nesse ano acerca da sua relação com o free jazz que então se fazia em Nova Iorque, respondeu: «Não é para mim. Fico comigo próprio.»