Jazz Vária, 21 de Janeiro de 2020

Jazz Vária

Os discos da vitória (17/ V-Discs)

texto António Branco

Em plena Segunda Guerra Mundial, as forças armadas dos Estados Unidos decidiram lançar iniciativas destinadas a aumentar o moral das tropas em combate um pouco por todo o mundo. Entre elas estava um programa que produziu centenas de diferentes discos, incluindo dos mais importantes músicos norte-americanos de jazz desse período. António Branco recorda os V-Discs no décimo sétimo episódio de Jazz Vária.

Tal como 1929, ano do “crash” bolsista em Wall Street, também 1941 ficou para a história dos Estados Unidos da América. O bombardeamento da base militar de Pearl Harbor, localizada na ilha de Oahu, Havai, na manhã de 7 de dezembro desse ano, pela Marinha Imperial japonesa, desencadeou a entrada do país na Segunda Guerra Mundial. (No dia seguinte ao bombardeamento, na sequência do qual perderam as suas vidas mais de 2400 militares e civis, o presidente Roosevelt pediu ao Congresso que declarasse guerra contra o Japão. A declaração foi aprovada com apenas um voto contra. Começava então uma etapa decisiva da história norte-americana, quer em termos económicos, quer em termos sociais e culturais. A indústria mobilizou-se para o esforço de guerra e iniciou-se um recrutamento em massa. As restrições de matérias-primas e de produtos foram de vária ordem, desde o racionamento do combustível até à produção discográfica.

Dizem os manuais de estratégia militar que o moral das tropas pode ser decisivo para o desfecho de batalhas e guerras. Um dos programas delineados com esse propósito teve a sua origem muito antes, em junho de 1941, a seis meses da entrada dos EUA no conflito. Diferentes departamentos das forças armadas norte-americanas estiveram envolvidos, começando pela Secção de Recreio e Bem-Estar, quando o capitão Howard Bronson foi designado como conselheiro musical. Bronson salientou que os militares poderiam ser motivados através da música. No ano seguinte, o Serviço de Rádio das Forças Armadas começou a enviar discos para as tropas.

Entretanto, o Sindicato dos Músicos, liderado por James Petrillo, decretara uma greve visando as quatro maiores editoras discográficas, que vigorou de 1 de agosto de 1942 até 1944. Contudo, a 27 de outubro de 1943, George Robert “Bob” Vincent, pioneiro da indústria discográfica, então tenente, convenceu Petrillo a permitir que os músicos participassem nas gravações de discos para os militares, enquanto não houvesse discos disponíveis no circuito comercial. Os músicos que quisessem gravar neste contexto tinham forma de dar a conhecer o seu trabalho, assim como a garantia de público espalhado pelos quatro cantos do planeta. Foi então estabelecido um acordo entre o governo norte-americano e várias editoras privadas para a produção destes discos, sob determinadas condições.

Os discos foram batizados de “V-Discs” (V de vitória), embora o tenente Vincent tenha mais tarde recordado que V era também a letra inicial do seu apelido. Os V-Discs constituem um acervo fundamental para melhor se compreender o que se fez na música norte-americana (clássica, jazz, popular) durante este conturbado período. As fontes para estes discos foram não apenas edições comerciais, mas também programas de rádio e sessões de gravação dedicadas.

O acordo alcançado deixou claro que os discos produzidos ao abrigo deste programa não poderiam ser vendidos comercialmente (durante e após o fim da guerra) e que todos os “masters” teriam de ser destruídos. Fisicamente, os V-Discs foram essencialmente fonogramas de 78 rotações por minuto prensados numa mistura de acetato de vinilo e outras resinas termoplásticas no formato de 12 polegadas. Devido à dimensão maior do que a habitual, cada lado podia acomodar até seis minutos e meio de música, o que significava que as peças registadas podiam ser mais longas. A escolha dos materiais teve em atenção a necessidade de aumentar a sua resistência e durabilidade, evitando que se quebrassem com facilidade (muitos dos discos de goma-laca enviados por familiares chegavam em cacos ao destino). A Columbia, uma das editoras que produziram V-Discs, continuou a usar goma-laca, apesar da escassez deste material durante a guerra.

Sob a coordenação de George Vincent, as responsabilidades pela escolha do repertório recaíram sobre Steve Scholes e Walt Heebner, da RCA Victor, Morty Palitz da Decca e Tony Janak da Columbia. O programa começou pelo exército, mas estendeu-se à marinha e aos fuzileiros. Ao quartel-general do programa V-Discs, em Nova Iorque, chegavam também gravações enviadas por rádios e estúdios de Hollywood. Os artistas reuniam-se em teatros e estúdios de gravação na Big Apple e em Los Angeles. Era hábito os músicos deixarem também palavras de estímulo aos militares. No V-Disc 65A, editado em dezembro de 1943, Glenn Miller deixou a seguinte mensagem: «Daqui fala o capitão Glenn Miller da Orquestra do Comando de Treino da Força Aérea e espero que os soldados das forças aliadas gostem destes discos que estamos a fazer apenas para vós.»

Os V-Discs foram um sucesso imediato junto dos militares deslocados, fartos dos velhos discos, ao permitir-lhes que escutassem música gravada e que estava inacessível de outra forma, incluindo registos de solistas clássicos de grandes orquestras, marchas militares, “big bands” de swing, cantoras e cantores famosos. Um grupo constituído por Louis Armstrong, Coleman Hawkins e Art Tatum gravou concertos que foram lançados como V-Discs. O programa V-Discs não estava, contudo, isento de alguma tensão racial, havendo materiais apenas dedicados a militares negros, como a série “Jubilee”, apresentada pelo comediante Ernie “Bubbles” Whitman.

Após o final da guerra, o custo de produção dos V-Discs tornou-se gradualmente proibitivo, com a redução dos pedidos e os maiores intervalos entre eles. Ainda assim, continuaram a ser fabricados para apoiar as forças militares estacionadas no âmbito do Plano Marshall. Quando o programa terminou, em 1949, houve intenção de honrar o compromisso assumido de destruição integral dos “masters” originais. Em algumas ocasiões, o FBI e outras autoridades confiscaram e destruíram V-Discs que alguns militares haviam levado para casa. Um funcionário de uma editora de Los Angeles chegou a estar preso pela posse ilegal de mais de 2500 V-Discs.

Não obstante, a Biblioteca do Congresso norte-americano conserva um conjunto completo de V-Discs e o Arquivo Nacional possui alguns equipamentos de prensagem. O historiador Richard Sears, que se especializou no estudo das complexas relações entre as forças armadas e a indústria do entretenimento, logrou reunir uma das mais importantes coleções, incluindo inúmeros discos, correspondência e outra documentação, atualmente conservada na Coleção Sears do Arquivo Glenn Miller. Também no Núcleo Museológico do Hot Clube de Portugal se encontra uma coleção surpreendente de V-Discs (na qual constam discos de nomes como Duke Ellington, Billie Holiday, Glenn Miller ou Frank Sinatra), que o fundador Luís Villas-Boas, graças aos seus contactos privilegiados, conseguiu salvar da destruição anunciada.