Jazz Vária, 17 de Dezembro de 2019

Jazz Vária

As luvas de Miles (16/ Miles Davis)

texto António Branco fotografia Glen Craig

As associações entre jazz e boxe vêm de trás e fundam-se num paralelismo entre percursos de vida, muitas vezes marcados por questões políticas e raciais. Miles Davis, um dos nomes maiores da história do jazz, era um apaixonado pelo boxe, convertendo essa admiração em grande música. No décimo sexto episódio de Jazz Vária, António Branco recorda algumas estórias que ligam Miles àquele desporto.

O saxofonista, compositor, estratego sonoro e pedagogo Steve Coleman tem explorado, num plano conceptual, a ligação entre música (não gosta do termo “jazz”) e boxe, a que chama a “ciência doce”, numa perspetiva de ação e reação, movimento e equilíbrio. Miles Davis (1926-1991) era fanático por boxe desde a infância passada em East St. Louis. Desporto muito popular entre os jovens negros, não constituía, contudo, para a maior parte deles, nem uma forma possível de ganhar a vida nem a expressão de uma certa forma de arte. Era mais uma questão de estilo, de «mudar as roupas» ou de «se tornar um homem», como frisa John Szwed na biografia “So What: The Life of Miles Davis”.

Isto era importante para Miles enquanto forma de afirmação, já que, dadas a sua estatura e a sua cor da pele, era frequente alvo de abusos e discriminação. De certa forma, o boxe canalizava a ira de uma população segregada e maltratada e o jovem Miles não era exceção. Ele e os amigos não lutavam a sério num ringue e nem sequer treinavam muito, não indo além de uns socos mais ou menos vigorosos em jeito de diversão. Mas dedicavam muito tempo a esta atividade que lhes ocupava os pensamentos e moldava a imagem que tinham deles próprios.

Não espanta, por isso, que existam muitas estórias que relacionem Miles com o universo do boxe e que esse imaginário o marcasse pela vida fora. O trompetista dividiu casa com Stan Levey, pugilista-promessa semiprofissional que um dia se tornou um importante baterista. Em Chicago, Miles conheceu Johnny Bratton, peso meio-médio oriundo do Arkansas que se havia mudado para a cidade ventosa. Ambos tinham aparências e gostos similares, apesar de o pugilista ser mais histriónico e extravagante no vestuário. Certa vez, a bordo do descapotável que Bratton havia comprado recentemente, foram parados pela polícia por circularem em excesso de velocidade. Um dos agentes da lei reconheceu o pugilista: «É “Honey Boy” Bratton!» e deixou-os seguir. Miles ficou muito impressionado com o episódio. Bratton lutou profissionalmente durante onze anos, mas a vida de fausto não durou muito, tendo acabado a viver no carro e depois em instituições psiquiátricas, ainda que sempre impecavelmente trajado.

Já figura consagrada do jazz, Miles sempre efabulou com a possibilidade de ser lutador, mas evitou combates para não correr o risco de lesionar as mãos e a boca, que sabia essenciais para a sua vida. Um dia, porém, confessou-o, lutou, meio a sério meio a brincar, contra o panamiano Roberto Durán, conhecido como “mãos-de-pedra”. Mas o trompetista entendeu que, tal como Berry Gordy, que também passara de pugilista profissional a baterista de jazz, para então se tornar o patrão da Motown, a vida no boxe não seria longa e que acabaria por perder eventuais títulos, por derrota desportiva ou retirada dos ringues, enquanto como músico poderia ser famoso para sempre.

Não deixa de ser curioso que pugilistas e músicos de jazz têm, efetivamente, muito em comum, desde logo partilhando uma vida itinerante e de certo modo individualista, num trajeto tantas vezes marcado por uma infância e juventude difíceis, para uma vida pública debaixo dos holofotes da fama, do apaixonado escrutínio dos pares e de uma imprensa implacável e desejosa de coroar novos reis.

Em 1970, o trompetista compôs e gravou a banda-sonora de um documentário sobre o lendário Jack Johnson, explorando as semelhanças existentes entre as respetivas carreiras. Para o disco, produzido por Teo Macero, Miles gravou também tributos aos já mencionados Durán e Bratton. Tudo começou quando Bill Clayton, empresário do ramo, realizava um documentário sobre Johnson e convidou Miles para compor a música. Tendo aceite o repto de forma entusiástica, mergulhou a fundo na vida do pugilista, lendo tudo o que havia para ler e vendo todos os filmes que havia para ver sobre Johnson e sobre a história do boxe. Durante a rodagem do documentário e a composição da música, Miles requisitava imenso material à produção, ficando a visioná-lo durante horas a fio. Conta-se que até dormia com uma foto de Johnson junto à cama.

Inspirado pelas dimensões política e racial do percurso de Jack Johnson e pelo contexto musical da época, marcado pelo rock progressivo, o psicadelismo e o hard-rock, Davis montou em estúdio, como sempre foi seu hábito, grupos específicos para operacionalizar o que pretendia em termos sonoros, contando com os préstimos de gente excelsa como John McLaughlin, Sonny Sharrock, Herbie Hancock, Chick Corea, Bennie Maupin, Michael Henderson, Jack DeJohnette e Billy Cobham. Clayton recordaria mais tarde a forma intensa e apaixonada como Miles discutia boxe e como chegava junto dele e perguntava: «Como é que o Joe Louis foi atingido por aquele golpe?». Percebe-se por que razão “Jack Johnson” foi durante muito tempo um dos seus discos favoritos.

Também o multi-instrumentista brasileiro Hermeto Pascoal, em entrevista à edição brasileira do jornal “El País”, contou um episódio sobre Miles e a sua paixão pelo boxe. Disse Hermeto que no dia em que o conheceu, Miles convidou-o para subir a um ringue e lutar. Parece que a coisa não terá corrido bem para o trompetista: «Enquanto o meu olho direito acompanhava a direção do seu olhar, o outro olhava em direção ao restante do seu corpo, que estava desprotegido. Então, dei-lhe um cruzado que lhe acertou em pleno rosto», recordou um Hermeto divertido.

Antes de um concerto, Miles gostava de ficar sozinho e afastava quem estivesse por perto. Tal como um pugilista concentrando-se para um combate, abstinha-se de comida e de sexo, argumentado que um músico, para ser grande, devia tocar esfomeado e insatisfeito.