Jazz Vária, 12 de Novembro de 2019

Jazz Vária

O Villas-Boas do Porto (15/ Manuel Guimarães)

texto António Branco

A divulgação do jazz em Portugal, a partir dos anos 1940, esteve centrada em Lisboa, mas nem por isso deixaram de surgir focos de interesse por esta música noutros locais do país. A norte, destaca-se o papel desempenhado por Manuel Guimarães, nome a quem a divulgação do jazz na Invicta muito deve. António Branco recorda-o no décimo quinto episódio de Jazz Vária.

Salvo raras exceções, muitas das crónicas sobre jazz e seus parentes, publicadas na imprensa nacional ao longo das décadas de vinte e trinta do século XX, assumiram um tom hostil, apodando a música de “selvagem” e “primária”. Sendo o Estado Novo, instalado em 1933, ideologicamente contrário ao jazz (com António Ferro, o mesmo que em 1924 publicara “A Idade do Jazz-Band”, já à frente do Secretariado de Propaganda Nacional), nada fazia pela sua promoção, antes pelo contrário: havia a preocupação de que o excesso de “jazz-bandismo” na rádio e nas casas de diversão noturna pudesse pôr em causa os supostos valores da cultura portuguesa. Perante este estado de coisas, foi decisivo para a difusão do jazz o papel desempenhado por um punhado de divulgadores, jornalistas e melómanos que não se intimidaram e prosseguiram esforços com um nítido sentido de missão.

O maior impulso foi dado na segunda metade da década de quarenta, com a fundação do Hot Clube de Portugal. A 19 de março de 1948, Luís Villas-Boas assinou a ficha de inscrição como primeiro sócio, apesar de os estatutos só terem sido oficialmente aprovados dois anos depois. Instalado desde o início dos anos 1950 na cave do número 39 da Praça da Alegria, em Lisboa, o clube foi o prolongamento natural da casa dos irmãos Sangareau, onde um conjunto de amadores da música “hot” se reunia informalmente para escutar as novidades discográficas e tocar.

A partir desse momento, eivados de uma resoluta militância, começaram a surgir outros divulgadores que levaram a cabo uma atividade relevante na divulgação do jazz em Portugal. Entre eles avulta, a norte, o nome, algo esquecido, de Manuel (Rocha Brito) Guimarães. O seu interesse pelo jazz, e o contacto com o próprio, fizeram com que fosse alcunhado de “Villas-Boas do Porto” [1].

Os primeiros contactos de Manuel Guimarães com o jazz deram-se quando teria 17 ou 18 anos. Ouvia o (pouco) jazz que então passava na rádio, mais virado para as chamadas “melodias da Broadway”, Glenn Miller, Artie Shaw ou Harry James, e menos para Duke Ellington ou Count Basie. Em entrevista a José Duarte, publicada em 2003 no sítio JazzPortugal.ua.pt, afirmou que ouvia a Voz da América com Willis Conover e recordava que este se limitava a referir o essencial: «tema, data e personnel» [2].

Também ouvinte do programa “Hot Club” no Rádio Clube Português (RCP), em 1946 começou a corresponder-se com o fundador do Hot e responsável pelo programa, tendo acompanhado à distância os problemas político-burocráticos associados à regularização oficial do clube, então considerado “associação de recreio”. Em dezembro desse ano, escreveu a Villas-Boas dando conta das dificuldades do processo de criação de um clube similar no Porto, apontando como razão principal o insuficiente número de interessados. Esta troca epistolar, em que o único tema era a paixão comum pelo jazz (músicos, discos, temas), está hoje à guarda do Núcleo Museológico do Hot Clube de Portugal. Através de Villas-Boas, Manuel Guimarães tornou-se o Sócio Correspondente n.º 1 do Hot (o cartão tem data de 1 de abril de 1956), pois residia fora da capital [3].

No programa n.º 50 de “Hot Club” (curiosamente a ocasião em que se escutou pela primeira vez em Portugal a suíte “Black, Brown and Beige”, de Duke Ellington), emitido na véspera de Natal de 1946, Villas-Boas, na secção “Correio”, agradece a Manuel Guimarães a carta que este lhe havia endereçado e felicita-o pelas atividades desenvolvidas naquele a que, em programa anterior, havia chamado de Hot Clube da Boavista. Exortou ainda Guimarães a juntar os seus esforços aos do seu amigo Joaquim Macedo, no sentido da criação do Hot Clube do Porto. «São núcleos de entusiastas como o seu que se devem formar em locais onde não seja possível um Hot Club, e desde já pode contar com todo o nosso apoio em tudo o que nos seja possível», escreveu Villas-Boas no guião desse programa [4].

Um ano depois, Guimarães, estudante na Universidade de Coimbra, queixou-se a Villas-Boas das deficientes condições técnicas em que a emissão do RCP chegava à cidade do Mondego, facto que já tinha sido relatado por outros ouvintes. Se não chegava a rádio, chegavam os discos, que tinha o hábito de levar do Porto para Coimbra, onde o esperavam amigos impacientes para os escutarem em conjunto. Mais tarde, já na sua qualidade de professor de Inglês, também costumava levar discos de jazz para as aulas e assim facilitar a aprendizagem da língua de Shakespeare.

Manuel Guimarães esteve muito ativo quer na organização de sessões fonográficas, no Clube Fenianos Portuenses e em outras associações recreativas, com o apoio do Cine Clube do Porto, quer também na imprensa escrita e na rádio. As emissões do seu programa “Jam Session” tiveram início em 1948, no Rádio Clube do Norte. No final da década, o núcleo inicialmente reduzido foi engrossando com cada vez mais gente interessada.

Programou concertos e festivais, com maior ou menor sucesso. Dizia que Lisboa desde cedo possibilitou mais oportunidades de prática e convívio ligados ao jazz, dando como exemplo a diferença de longevidades entre o Hot Clube e a secção de jazz da delegação portuense da Juventude Musical Portuguesa, que durou poucos anos. Em seu entender, a eventual abertura de uma delegação do Hot no Porto enfrentaria dificuldades semelhantes, incluindo problemas logísticos como encontrar uma sede, o que não foi possível concretizar.

Manuel Guimarães procurou sempre equilibrar as novidades que lhe iam chegando com uma assídua revisitação dos históricos. Indagado sobre o futuro do jazz, respondeu clarividente: «[O jazz] cedo se abriu a outras culturas, diversificou-se, a cada passo [o] seu espetro se amplia. A universalidade de que desfruta, a dimensão interpretativa-criativa e um sentido rítmico muito próprio que mantem, são fatores que decerto lhe assegurarão continuidade.» Em junho de 2010, o Hot Clube prestou-lhe justa homenagem pelos esforços de uma vida em prol da causa do jazz.

Agradeço ao António Curvelo as informações sobre Manuel Guimarães que gentilmente partilhou.

 

Referências:

[1] Martins, Hélder Bruno (2006), “Jazz em Portugal (1920-1956)”, Almedina, Coimbra.

[2] Sítio JazzPortugal.ua.pt – Entrevista a José Duarte (2003).

[3] Boletim “Hot News” n.º 2 (2010), Hot Clube de Portugal, Lisboa.

[4] Santos, João Moreira dos (2007), “O Jazz Segundo Villas-Boas”, Assírio & Alvim, Lisboa.