Jazz Vária, 2 de Outubro de 2019

Jazz Vária

Vota Dizzy! (14/ Dizzy Gillespie)

texto António Branco

Em 1964, Dizzy Gillespie concorria à presidência dos Estados Unidos da América defendendo os direitos civis da população negra, a retirada imediata do Vietname e o reconhecimento diplomático da China comunista. Disse que, caso fosse eleito, preencheria os lugares de topo da Administração com músicos de jazz. António Branco recorda o episódio no décimo quarto capítulo de Jazz Vária.

Com a corrida às primárias a decorrer, e cansados da boçalidade e da incendiária verborreia do atual inquilino da Casa Branca, dediquemo-nos, ainda que por instantes, a um exercício especulativo que nos deixará, decerto, um pouco mais otimistas, a cerca de um ano de novo ato eleitoral: como teriam evoluído a política e a sociedade norte-americanas se o cidadão John Birks Gillespie (1917-1993), candidato independente às eleições presidenciais de 1964, tivesse sido eleito para o mais alto cargo dos Estados Unidos da América?

Intruso num clube de milionários, “Dizzy” Gillespie – sim, o cidadão é o venerável trompetista, compositor, diretor de orquestra e cantor, pioneiro do be bop e figura decisiva para a evolução do jazz – decidiu candidatar-se ao pleito desse ano, concorrendo contra Lyndon Johnson, do Partido Democrata, e Barry Goldwater, do Partido Republicano, um conservador extremista que havia votado nesse mesmo ano contra a lei dos direitos civis. Goldwater alfinetou Gillespie, afirmando que o seu músico de jazz favorito era o trombonista de dixieland Turk Murphy... Dizzy não perdeu tempo a retorquir: «Tudo o que posso dizer é que não culpo o Turk por isso. Estou satisfeito por ele não me ter escolhido!»

Algum tempo antes, Gillespie havia lançado uns crachás (hoje avidamente procurados por colecionadores) onde se pode ler “Dizzy Gillespie for President”, destinados a angariar dinheiro para organizações de promoção dos direitos civis como o Congress for Racial Equality e a Southern Christian Leadership Conference, entre outras sob a alçada do reverendo Martin Luther King.

Em 1963, a atuação de Dizzy no Festival de Jazz de Monterey foi gravada e editada no disco “Dizzy for President”. Um dos temas tocados na ocasião foi o inescapável “Salt Peanuts”, cujo título pode, sem grande contorcionismo fonético, ser modificado para “Vote Dizzy”. Foi isso que fez o cantor Jon Hendricks, o autor da letra, que reza assim: «Your politics ought to be a groovier thing/Vote Dizzy! Vote Dizzy!/So get a good president who’s willing to swing/Vote Dizzy! Vote Dizzy!». Com o trompetista e o cantor, assinam esta singular ação de “marketing” político o pianista Kenny Barron, o saxofonista/flautista James Moody, o também saxofonista Sleepy Matsumoto e o baterista Rudy Collins. Hino oficial de campanha já tinha.

Os admiradores de Gillespie, entusiasmados com a ideia, formaram a Sociedade John Birks, que chegou a ter delegações em 25 estados norte-americanos. A campanha, que começou como uma brincadeira num comício em Chicago, foi organizada pelo crítico (e um dos fundadores da revista Rolling Stone) Ralph J. Gleason, que chegou mesmo a usar a sua coluna para enaltecer as virtudes do trompetista-candidato. Os apoiantes de Gillespie tentaram, em vão, colocar o seu nome nos boletins de voto na Califórnia.

Entre as promessas de campanha estava a de que, se fosse eleito, escolheria para vice-presidente a atriz e comediante Phyllis Diller, o solene Duke Ellington para o lugar de secretário de Estado (cargo equivalente ao nosso ministro dos negócios estrangeiros), o camaleónico Miles Davis como diretor da CIA, o bombástico Max Roach como secretário da defesa, o irascível Charles Mingus como secretário da paz (justificou: «Porque ele tira um pedaço da tua cabeça mais depressa do que alguém que eu conheça.» – trocadilho com os vocábulos “piece” (pedaço) e “peace” (paz) –, e o esquivo Thelonious Monk como embaixador itinerante.

Do seu programa eleitoral constavam outros aspetos como a educação e a saúde gratuitas e o envio de um astronauta negro à Lua (a primeira alunagem só aconteceria cinco anos depois, cumprindo o desígnio do presidente Kennedy de o conseguir antes do fim da década). Se não houvesse alguém disponível, voluntariou-se para ir ele próprio. Disse também que a morada presidencial passaria a ser chamada de Blues House (confesso que teria preferido Hot House, em honra do tema de Tadd Dameron que gravou ao vivo ao lado de Charlie Parker em maio de 1953 no Massey Hall, depois de o terem registado em 1945, para a Savoy, e dois anos depois no Carnegie Hall).

Gillespie ficou conhecido pela boa disposição e pelo humor e a sua campanha não foi alheia a esta característica. A total improbabilidade de sucesso não fez com que a ocasião deixasse de ser um período com impacte significativo. Mas mais do que provocador ou humorista (há-os a ganhar eleições nos dias de hoje, como o ucraniano Volodymyr Zelensky, o mesmo que recebeu uma chamada de Trump que lhe pediu para investigar os interesses do candidato democrata Joe Biden e do seu filho Hunter), lutou convictamente por uma América menos discriminatória e mais respeitadora dos direitos civis, mais tolerante e mais justa.

Apesar de a campanha ter sido abortada por escassez de fundos, Gillespie continuou a dar entrevistas à imprensa durante todo esse período. À revista Downbeat disse: «Gostei da ideia de concorrer a presidente.» «Teria sido divertido se fosse eleito. Lutaria por um programa de desarmamento e pelo estabelecimento de um governo mundial», acrescentou. Em 1971, afirmou que se candidataria novamente, mas não chegou a concretizar esse desejo.

Na sua autobiografia, deixou claro que a principal razão para manter a campanha, para além do financiamento dos projetos sociais, era a possibilidade de «ameaçar os democratas com uma perda de votos, colocando-os numa posição mais razoável sobre os direitos civis.» A eleição foi ganha por Johnson, com pouco mais de 61% dos votos. Mas Dizzy chegou mesmo à Casa Branca, ainda que não como presidente. Visitou-a e tocou lá em diversas ocasiões, a mais relevante das quais em 1978, quando pediu ao então presidente Jimmy Carter para se juntar a ele numa versão improvisada de “Salt Peanuts”, a primeira vez que um POTUS em exercício “interpretou” um tema de jazz.