Jazz Vária, 3 de Setembro de 2019

Jazz Vária

Cigano de ouro (13/ Django Reinhardt)

texto António Branco

O guitarrista franco-belga Django Reinhardt é um dos nomes fundamentais da história do jazz europeu e figura fundadora do chamado “jazz manouche”. Um episódio trágico determinou a existência e o legado do “Liszt da guitarra”, como lhe chamou um crítico de jazz dos anos 1930. António Branco recorda-o no décimo terceiro episódio de Jazz Vária.

A 2 de novembro de 1928, um terrível acontecimento mudaria para sempre a vida do guitarrista Jean “Django” Reinhardt (1910-1953). Ao chegar de madrugada à caravana que partilhava com a sua primeira mulher, Florine “Bella” Mayer – depois de uma apresentação no clube parisiense La Java –, pensou ter visto um rato e, querendo apanhá-lo, derrubou acidentalmente uma vela que atingiu as flores de celulose que Bella fizera para vender no mercado no dia seguinte, incendiando rapidamente tudo à sua volta.

Enquanto a família e os vizinhos tentavam desesperadamente salvá-los da fúria das chamas, Django e a mulher (então grávida) conseguiram escapar daquele inferno embrulhados num cobertor, mas ele acabou por sofrer graves queimaduras de primeiro e segundo graus em cerca de metade do corpo. A perna direita ficou paralisada (esteve prestes a ser amputada, mas Django recusou) e a mão esquerda gravemente queimada. Perdeu a sensibilidade em dois dedos (anelar e mindinho), facto que o levou a desenvolver uma prodigiosa técnica, quase exclusivamente assente nos dedos indicador e médio.

Sempre que a sua mãe – que jamais abandonou a sua cabeceira – lhe perguntava em que estava a pensar, Django respondia: «Na minha mão.» Os médicos resignaram-se e disseram-lhe que nunca mais conseguiria tocar guitarra. Abandonaria o hospital algum tempo depois, miraculosamente, com a perna salva. Recuperou o andar com a ajuda de uma bengala.

Django não sabia ler nem escrever, tendo o violinista Stéphane Grapelli usado algum do seu tempo livre para lhe ensinar os rudimentos da escrita. Recebeu alento do irmão, o também guitarrista Joseph Reinhardt, que lhe ofereceu uma nova guitarra. Depois de um lento e doloroso processo de recuperação, Django teve praticamente de recomeçar do zero, desenvolvendo uma técnica de abordagem ao instrumento completamente nova.

Django (que na língua romani quer dizer “eu acordo”) nasceu na cidade belga de Liberchies no seio de uma humilde família cigana e cresceu em acampamentos perto de Paris. O pai, Jean Eugene Weiss, era artista de circo e tocava piano, instrumento, pelo menos à partida, pouco adequado para a vida itinerante, mas que, ao que parece, era habitual em caravanas ciganas. A mãe, Laurence, era bailarina. Um início de vida liberto dos constrangimentos da sociedade moderna (com caravanas e cavalos, crianças a brincar ruidosamente ao ar livre, música no ar), transparecerá mais tarde na frescura e na espontaneidade de peças como “Nuages”, “Mélodie au Crépuscule”, “Fleur d’Ennui” ou “Manoir de Mes Rêves”. (Diz-se que antes de se dedicar à música era perito em roubar galinhas.)

Começou por aprender violino, mas recebeu como primeiro instrumento um banjo oferecido por um vizinho que reparara no seu grande interesse pela música. Aprendeu a tocar depressa e de forma autodidata, mimetizando os músicos que observava atentamente. Ainda não tinha completado treze anos quando se estreou ao lado do acordeonista suíço Frédo Gardoni numa sala de dança parisiense.

Jean Cocteau foi um dos primeiros a afirmar-se impressionado com a música de Django, depois de o ter visto, em 1933, atuar no clube Coq Hardi, em Toulon. A propósito, o poeta e romancista escreveu: «Esta guitarra que chora e ri, uma guitarra com voz humana...». Mais tarde, o guitarrista fez furor no meio boémio parisiense, sobretudo integrando o lendário quinteto do Hot Club de France, fundado em 1934, porventura a mais célebre das formações europeias de jazz de então. Mas se estava próximo do cosmopolitismo da cidade das Luzes, nele permanecia um vínculo aos costumes ciganos ancestrais.

Quando rebenta a Segunda Guerra Mundial, em 1939, o quinteto estava em digressão por Inglaterra, tendo Django de imediato regressado a França, deixando a sua mulher para trás (Grapelli também permaneceu do lado de lá da Mancha). Logrou escapar à fúria nazi, contando com a preciosa ajuda de Dietrich Schulz-Köhn, oficial da Luftwaffe, que, por apreciador do género, fora apelidado de Doktor Jazz.

Muito influenciado pela música da dupla Eddie Lang e Joe Venuti (um tandem americano de guitarra/violino) e também por Louis Armstrong e Duke Ellington, potenciou, ao escutá-los, o seu enorme talento para a improvisação, nunca tocando uma peça duas vezes da mesma forma.

Após o advento de be bop, em meados dos anos 1940, Django desde logo se revelou apreciador das inovações introduzidas por Charlie Parker e Dizzy Gillespie. Terá querido contactá-los quando esteve em Nova Iorque, mas tais tentativas foram infrutíferas. Influenciou muitos guitarristas de jazz e não só. De entre os que citaram Django como referência marcante estão figuras tão díspares como Charlie Christian, Wes Montgomery, Jimi Hendrix (o seu grupo Band of Gypsies foi batizado em sua homenagem), Jimmy Page, Tony Iommi e Jerry Garcia (o guitarrista dos Black Sabbath perdeu as pontas de dois dedos num acidente de carpintaria e o dos Grateful Dead todo um dedo).

Consta que um dia, admirada ao escutá-lo, a Viscondessa de Noailles terá exclamado: «Este cigano vale um Goya!»