Jazz Vária, 30 de Julho de 2019

Jazz Vária

O inventor do jazz (12/ “Jelly Roll” Morton)

texto António Branco

“Jelly Roll” Morton afirmou um dia que fora ele o responsável pela invenção do jazz em Nova Orleães, em 1902. Com uma abordagem ambiciosa e inovadora, livre dos espartilhos do ragtime, tornou-se num dos mais influentes pianistas das primeiras décadas do século XX, marcando de forma indelével o jazz que viria depois. António Branco recorda-o no décimo segundo episódio de Jazz Vária.

Ecoando a frase lapidar de Ortega y Gasset, “Jelly Roll” Morton (1890?-1941) – nascido Ferdinand Joseph Lamothe, acrescentando mais tarde o apelido do novo marido da mãe, Mouton, depois anglicizado para Morton – foi o primeiro músico de jazz em relação ao qual é possível conhecer, de forma menos mitificada, o homem e o contexto em que a sua obra se desenvolveu. Para tal muito contribuiu o facto de, em 1938, o musicólogo e folclorista Alan Lomax ter convidado Morton para registar música e uma série de depoimentos para a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, relativizados por alguns devido à falta de contraditório e até hoje não isentos de polémica.

Personalidade complexa e magnética – com um polo positivo e outro negativo –, foi amado e odiado tanto em vida como após a morte. Nem sempre logrou os seus objetivos, amiúde por culpa própria. A sua relação com o submundo dos bordéis, onde passou a infância, e da prostituição (foi proxeneta) esteve na génese de um comportamento ambivalente e problemático com as mulheres e o sexo (a sua alcunha deriva, aliás, de uma alusão a aspetos particulares da genitália feminina). Casou com a dançarina Mabel Bertrand, embora se saiba que foi um inveterado polígamo. A avó, Eulalie Hecaud, também conhecida por Lauren Hunter, era uma rainha de vudu, dando continuidade a práticas haitianas ancestrais.

Em 1915, Morton inscreveu o seu nome na história ao publicar pela primeira vez a partitura de uma peça de jazz, “The Jelly Roll Blues” (também referenciada como “Original Jelly Roll Blues”). Viajou por todo o sul e costa oeste dos Estados Unidos em busca de oportunidades. Em 1923, encontramo-lo em Richmond, Indiana, a gravar com os New Orleans Rhythm Kings, formação apenas constituída por músicos brancos – num momento histórico pelo quebrar de barreiras raciais – e a solo para a Gennett Records. Os seus Red Hot Peppers, ativos entre 1926 e 1930, foram a banda-sonora dos anos que antecederam o “crash” bolsista de 1929 e da sua ressaca imediata.

Durante a Grande Depressão dedicou-se a outras atividades para sobreviver: entre elas, geriu um clube em Washington DC (no bairro afroamericano de Shaw), chamado, em diferentes momentos, Music Box, Blue Moon Inn ou Jungle Inn. Após adoecer devido a ferimentos sofridos durante uma altercação no clube – foi-lhe negado atendimento no hospital mais próximo, apenas para brancos, tendo sido transportado para um hospital para negros, a maior distância, o que provavelmente comprometeu a sua saúde para sempre –, decidiu, muito devido à pressão de Mabel, regressar à costa oeste.

Esta existência atribulada, mas ao mesmo tempo fascinante, deu azo a que em seu redor despontassem estórias com diferentes graus de aderência à realidade. Uma delas tem que ver com as suas qualidades técnicas enquanto pianista. O contrabaixista “Pops” Foster, que com ele tocou, referiu que Morton tinha uma mão esquerda fraca e que teve de recorrer a outros pianistas para gravar essas partes (não se sabe ao certo se há algum fundo de verdade nesta alegação; se tal aconteceu, não é crível que ficasse exarado nas fichas técnicas). “Duke” Ellington, um velho rival que o subestimava, também pôs em causa a sua proficiência técnica.

Havia quem clamasse que não sabia ler ou escrever música, tocando as partes escritas de memória e improvisando. Outros diziam que roubava as ideias alheias, argumento que estará relacionado com a guerra instalada entre compositores e editores de partituras, cujo estatuto era à data particularmente importante. Os seus apaniguados, claro, afirmavam o oposto.

Morton nunca negou as suas ambições, expandindo os horizontes do jazz e catalisando a sua rápida evolução. A sua influência foi profunda e marcante, apesar de comummente subvalorizada. Não terá sido, como pesporrentemente afirmava, o inventor do jazz, mas foi um dos seus pais-fundadores. Para o cânone ficaram composições como “King Porter Stomp”, “Wolverine Blues”, “Black Bottom Stomp” e “I Thought I Heard Buddy Bolden Say”. Pioneiros da vanguarda jazzística, como Ornette Coleman, Cecil Taylor, Henry Threadgill e Sun Ra, vincaram a traço grosso a importância de Morton para o contínuo da música norte-americana.

“Jelly Roll” viria a morrer de falha cardíaca em Los Angeles, em julho de 1941, quando tentava reerguer a carreira e organizar um grupo para tocar novos arranjos das suas peças de sempre. A edição de 1 de agosto de 1941 da revista Downbeat noticiou a presença de Kid Ory, Mutt Carey e Ed Garland no funeral. Ellington e Jimmie Lunceford, que estavam na cidade, não apareceram.