Jazz Vária, 3 de Julho de 2019

Jazz Vária

A última palavra (11/ Keith Jarrett)

texto António Branco

O genial e irascível Keith Jarrett gravou em Colónia um dos álbuns a solo mais marcantes da história. Pela superlativa qualidade da música – quase totalmente improvisada –, mas também pelos muros que ajudou a derrubar. No décimo primeiro episódio de Jazz Vária, António Branco revisita “The Köln Concert”, um disco eterno, ainda que não consensual.

Registo de um recital a solo de Keith Jarrett (n. 1945) na Ópera de Colónia, a 24 de janeiro de 1975, “The Köln Concert” – editado pela alemã ECM – é um consumado milagre. Não por ser um dos álbuns de jazz mais vendidos de sempre – a importância artística deve medir-se por outra bitola –, mas porque a Lei de Murphy estava prestes a cumprir-se quando uma guinada do destino permitiu que a ocasião acabasse por se tornar num dos pináculos da arte de um músico tão excelso quão temperamental.

Perdura, aliás, na memória portuguesa aquela noite de 24 de junho de 1981, no lisboeta Coliseu dos Recreios (à época uma sala desconfortável e fumarenta), quando Jarrett interrompeu várias vezes a sua atuação devido ao ruído provocado por alguns espetadores, até que pegou na toalha e, irado, abandonou de vez o palco. (Teria de passar um quarto de século até que o músico voltasse a pisar solo luso.)

Mas voltemos a Colónia. O entusiástico público – audível na gravação – ignora que as horas anteriores haviam sido particularmente penosas para o pianista. O recital fora organizado por Vera Brandes, que com apenas 17 anos era a mais jovem produtora de espetáculos na então República Federal da Alemanha. O músico dormira mal nas noites anteriores, estava cansado após uma longa viagem num Renault 5 desde Zurique, onde tocara dias antes, com dores nas costas e esfomeado, quando finalmente chegou (atrasado) à cidade alemã.

Logo percebeu que o piano disponível não era o que havia solicitado à organização, um Bösendorfer 290 Imperial. A equipa encontrou um outro instrumento da mesma marca nos bastidores e assumiu que seria aquele o escolhido pelo músico. O erro foi descoberto tarde demais: aquele piano (que servia apenas para ensaios) era mais pequeno, os pedais não funcionavam e revelava problemas de afinação insanáveis em tempo útil. Jarrett ameaçou não tocar, mas acabou por ser demovido por Brandes. Ao jantar, os funcionários do restaurante italiano onde tinha sido reservada mesa também se confundiram, o que fez com que a refeição chegasse apenas a tempo de Jarrett dar umas garfadas antes de ter de sair.

O recital começou num horário tardio para os rígidos hábitos germânicos – onze e meia da noite – o único a que os responsáveis da Ópera de Colónia acederam para um concerto de jazz, o primeiro de sempre na sala. Ao início, escuta-se o murmúrio do público (o espaço estava esgotado) quando este se apercebe que o músico cita a melodia do sinal de chamada. O que vem depois não cessa de nos surpreender e comover. Custa a crer que se está perante um conjunto de improvisações sem qualquer estruturação prévia (exceto num caso, o “encore” do concerto, baseado numa peça escrita conhecida como “Memories of Tomorrow”), longe do formato canção ou dos “standards” do jazz. O facto de a música produzida extravasar, harmónica e melodicamente, o cânone purista do piano-jazz da altura, ajudou a captar outros públicos, contribuindo para esbater sectarismos. Mas também ergueu detratores, que apontaram as repetições de melodias e o afastamento da tradição do género.

O que escutamos em “The Köln Concert” são longas deambulações – ora densas e hipnóticas, ora contemplativas e atmosféricas – a partir de motivos simples, que revelam o génio de um músico ímpar na arte da chamada “composição em tempo real”. Para contornar as debilidades do instrumento, sobretudo nos registos mais graves, recorreu a motivos repetitivos e a figuras rítmicas para reforçar essas notas e centrou-se na parte intermédia do teclado. O produtor Manfred Eicher diria mais tarde que Jarrett tocou daquela maneira porque o piano era mau.

Logo após o lançamento comercial da gravação do concerto (que aconteceu ainda em 1975), o pianista começou a ser sondado para publicar as partituras. A princípio resistiu, argumentando que se tratava de música que ele próprio havia improvisado. Quando, mais tarde, finalmente acedeu, deixou uma recomendação clara a todos os que quisessem recriar aquelas peças: o que está na gravação é que constitui a última palavra.