Jazz Vária, 4 de Junho de 2019

Jazz Vária

Música degenerada (10/ Charlie and His Orchestra)

texto António Branco

O regime nazi apelidava o jazz de “impuro” e incluía-o no rol das chamadas “músicas degeneradas”. Chegou a ser utilizado com ironia em panfletos propagandísticos gizados por Goebbels, que criou mesmo uma orquestra de swing para angariar apoio. No décimo episódio de Jazz Vária, António Branco lembra a relação do Terceiro Reich com o jazz.

Num tempo em que a extrema-direita recrudesce em boa parte da Europa, e não só, importa não deixar cair no esquecimento o tratamento que os nazis davam ao que chamavam “música degenerada”, formulação que incluía o jazz, cujo “poder corrosivo” temiam. Hitler – que ascendera ao poder em 1933 – procurou, de forma sistemática, operacionalizar o culto da pureza da raça, assente em princípios ideológicos e numa mitologia que se traduzia, também, em manifestações artísticas que definiam um padrão.

O apertado controlo estendia-se a todas as formas de arte, da música ao cinema, passando pelas artes plásticas e pela literatura, listando o que podia ser fruído e o que era considerado “degenerado” e, portanto, proibido. Todas as produções culturais que dele se afastassem eram consideradas “degeneradas” ou “aberrantes”, termos que parecem decorrer das abomináveis práticas “clínicas” do regime nazi.

É bom lembrar que a República de Weimar havia sido, durante os anos 1920, um cadinho para a experimentação e o vanguardismo artísticos, desafiando os gostos conservadores de importantes setores da sociedade alemã. Numa entrada do seu diário, Joseph Goebbels, homem-forte da propaganda hitleriana, chamou-lhe “a era da decadência”. Para os nazis era a influência judia que estava por detrás da arte moderna, banindo movimentos como o expressionismo, o cubismo, o dadaísmo e o surrealismo. Na música, a atonalidade era considerada subversiva; os nazis entendiam o jazz como “música inferior” e selvagem, por ser associada a estilos afro-americanos e a música de negros, a “negermusik”. Em Portugal, note-se, a mesma argumentação era então esgrimida por muitas figuras ligadas ao Estado Novo e na imprensa.

Depois de Munique ter recebido em 1937 a exposição “Entartete Kunst” (“Arte Degenerada”), no ano seguinte foi organizada em Düsseldorf uma outra intitulada “Entartete Musik” (“Música Degenerada”) que visava diretamente a influência do judaísmo (na esteira dos escritos antissemitas de Wagner) e de compositores como Arnold Schönberg, Alban Berg, Paul Hindemith, Igor Stravinsky, Ernst Krenek ou Kurt Weill. O russo exilado e anti-bolchevique Igor Stravinsky estranhou a inclusão do seu nome na exposição; já Béla Bartók, opositor do regime nazi, protestou porque entendia que ele próprio lá deveria figurar.

Goebbels afirmava que o jazz era «música americana negro-judia da selva». Para o cartaz da exposição de 1938 foi selecionada a imagem de um negro com feições de macaco, ostentando a estrela de David e a tocar saxofone (instrumento tido como próprio dos negros), numa alusão ao protagonista da ópera de Krenek “Jonny Spielt Auf” (estreada em Leipzig, em fevereiro de 1927), à época bastante popular, que inclui elementos derivados do jazz. Se era a música do inimigo, havia que a anatemizar.

Em Berlim continuou a ouvir-se jazz, clandestinamente. Tanto assim era que, dada a grande procura, Goebbels patrocinou a criação, no início da década de quarenta, de uma orquestra de swing chamada Charlie and His Orchestra – referência ao cantor Karl Schwedler –, também conhecida como Templin Band – alusão ao maestro e arranjador Lutz Templin. Esta formação pretendia capitalizar apoios junto dos ouvintes britânicos e americanos que escutavam a rádio nas frequências de onda curta. Existem também relatos de sobreviventes que dão conta de que se ouvia jazz (e géneros conexos) em diversos campos de concentração.

Foi concedida a Schwedler autorização para viajar pelos países ocupados e perceber o que então se fazia, munindo a orquestra nazi de repertório para as suas mais de 90 gravações, realizadas entre 1941 e 1943. Os bombardeamentos aliados desse ano ditaram o fim da propaganda jazzística de Goebbels. Mesmo com as bombas a cair, a orquestra continuava a tocar na rádio. Nas vésperas do Dia D, durante a ocupação da Holanda, Goebbels publicou panfletos dizendo “Greetings from England – The Coming Invasion”, que fazia referência a velhos discos de jazz e incluía mesmo a frase «na celebração da libertação, as vossas filhas e mulheres dançarão nos braços de verdadeiros negros», incitando ao racismo e à violência xenófoba.

Já depois da Guerra, o baterista Fritz Brocksieper reagrupou a formação, ainda reconhecida como a “orquestra de Goebbels”, que tocou em clubes das forças armadas norte-americanas. Não é certo o destino de Charlie: é possível que tenha emigrado para os Estados Unidos.