Jazz Vária, 7 de Maio de 2019

Jazz Vária

Amargo fruto (9/ Billie Holiday)

texto António Branco

Há canções com poder suficiente para combater a ignomínia e a barbárie humanas. No país de Trump, Bannon e Duke, “Strange Fruit” continua a ser um hino intemporal da luta pelos direitos civis da comunidade negra. No nono episódio de Jazz Vária, António Branco recorda a canção imortalizada por Billie Holiday, oitenta anos volvidos sobre a sua gravação.

Marion, Indiana, 7 de agosto de 1930: os jovens afro-americanos Thomas Shipp e Abram Smith são linchados por uma multidão e os seus corpos dependurados numa árvore. A prática de linchamento era considerada normal, sobretudo no sul dos Estados Unidos, mas não se limitava a esses territórios. Muitos gostavam de ser fotografados debaixo das árvores onde tais crimes grotescos eram praticados, orgulhosos do feito.

Chocado com a violência do episódio (de que tomou conhecimento através de uma imagem captada pelo fotógrafo Lawrence Beitler), o professor e escritor judeu do Bronx, membro do Partido Comunista, Abel Meeropol, sob o pseudónimo Lewis Allan, escreveu o poema “Bitter Fruit”, publicado em 1937 na revista do sindicato dos professores, The New York Teacher. Depois de ter pedido a outros para musicar o poema, Meeropol acabou por fazê-lo ele próprio, granjeando mesmo algum sucesso. Com a sua mulher e a cantora Laura Duncan tocou a canção em várias salas nova-iorquinas, incluindo o Madison Square Garden.

Meeropol terá apresentado a canção a Barney Josephson, fundador do Cafe Society, na Sheridan Square em Greenwich Village (o primeiro clube não segregado), e este a Billie Holiday (nascida Eleanora Fagan, 1915-1959), que a cantou e gravou pela primeira vez em 1939, tornando-a definitiva e inseparavelmente sua (outras fontes referem que foi Robert Gordon, diretor musical de Holiday nesses concertos, quem ouviu a canção no Garden e a mostrou à cantora). Em outubro desse ano, o colunista do The New York Post, Samuel Grafton, escreveu que “Strange Fruit” era a «“Marselhesa” dos explorados». Ahmet Ertegün, produtor e fundador da editora Atlantic, disse que se tratava de uma «declaração de guerra» e o início do movimento pelos direitos civis.

Holiday contaria mais tarde que teve medo de represálias, mas, como a canção lhe fazia lembrar o pai, continuou a interpretá-la ao vivo. Devido à carga dramática, era habitual, aliás, terminar com ela os seus concertos: os empregados paravam de servir e a sala mergulhava na escuridão, restando um único projetor a iluminar-lhe o rosto.

Lady Day (assim a batizou Lester Young) abordou a Columbia acerca da possibilidade de gravar a canção, mas a editora recusou, temendo boicotes por parte de rádios e lojistas. Até o produtor John Hammond, célebre pelo seu ativismo integrador, a rejeitou. Holiday cantou-a “a cappella” para Milt Gabler, patrão da Commodore, deixando-o em lágrimas. A Columbia permitiu então que Holiday se libertasse por uma vez do contrato para registar “Strange Fruit”, tendo para a acompanhar sido escolhida a banda do Cafe Society, dirigida por Frankie Newton. Uma vez que considerava a canção demasiado curta, Gabler pediu ao pianista Sonny White que improvisasse uma introdução.

“Strange Fruit” é, desde então, um pungente hino do movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos. A canção perdurou no tempo como um símbolo da luta contra a crueldade do racismo, da discriminação e da desigualdade de oportunidades, lembrando a dor e o sofrimento por que tantos passaram (e outros continuam a passar, não o esqueçamos).

O disco de 1939 vendeu mais de um milhão de cópias e tornou-se no maior sucesso de toda a carreira da cantora. Foi incluída na lista das canções do século por várias instituições, como a Recording Industry Association of America e a National Endowment for the Arts. Em 1999, a revista Time considerou mesmo “Strange Fruit” como a canção do século. Em 2002, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos incluiu-a na meia centena a serem adicionadas nesse ano ao Registo Nacional de Gravações.

Dezenas de músicos gravaram versões, de Nina Simone (samplada por Kanye West) a Robert Wyatt, passando por Jeff Buckley e Siouxsie and the Banshees. No documentário “No Direction Home”, Bob Dylan cita-a como inspiração. «For the rain to gather, for the wind to suck / For the sun to rot, for the trees to drop / Here is a strange and bitter crop.» Estes estranhos frutos ainda lá estão, apenas medram de outra forma.