“O Fagote de Shatner e Outros Contos”, 23 de Abril de 2019

“O Fagote de Shatner e Outros Contos”

Um grito urgente

texto António Branco

Um livro que é um grito contra o conformismo e as polícias do pensamento, evidenciando uma profunda desilusão interior, escreve-se no texto que vem a seguir a propósito do novo tomo de Rui Eduardo Paes (foto acima de Paulo Alexandre Jorge)…

Vai para uma dezena de anos, num importante festival de jazz, alguém me elencou o que entendia serem as condições que definem este género musical: «negro, masculino e norte-americano.» Esta afirmação, reveladora de uma preocupante dose de desconhecimento, não é, mesmo com 19 anos entrados no século XXI, coisa rara. Se me voltasse a cruzar com tal figura, oferecer-lhe-ia de bom grado um eficaz antídoto contra o veneno da ignorância e do preconceito: o novo livro do jornalista, ensaísta, curador e agitador cultural Rui Eduardo Paes (REP), “O Fagote de Shatner e Outros Contos”, acabado de editar pela Chili com Carne / Thisco. 

Com quase 35 anos de escrita, REP continua a desenvolver um trabalho singular (e não raras vezes polémico) de análise e reflexão sobre as múltiplas e variadas interfaces entre música(s) – sempre nas periferias da grande indústria –, política e outras disciplinas (da Filosofia à Ótica, passando pela Sociologia e pela História) e acerca do modo como estas, a vários níveis, impactam a existência humana. Rejeitando unanimismos estéreis, os seus textos densificam e problematizam, mas também vertem sobre o leitor abundante luz, sob a forma de informação (e opinião) que, decerto, ajudá-lo-ão a fundar um juízo mais sólido. Ainda assim, algumas das suas posições têm motivado incompreensão e reações virulentas, como foi o caso do que aconteceu numa recente edição da Festa do Jazz do São Luiz. 

Neste novo livro, o autor volta a optar por um «discurso em caudal» para expressar a sua visão, com uma escrita torrencial e especulativa, num vertiginoso exercício de “name-dropping” que é um reflexo da era da informação acelerada em que vivemos. Não é difícil, de facto, perdermo-nos na imensa constelação de referências, que se sucedem, deliberadamente, a um nível alucinante. O “modus operandi” é o que tem vindo a ser utilizado em obras anteriores: colagem, reconfiguração e expansão de material pré-existente, escrito para conferências, folhas de sala, notas de capa de discos, etc., dando assim lógica continuidade a uma produção literária que compreende 10 títulos em nome próprio e outras seis participações em trabalhos coletivos. 

A sua escrita jamais segue por caminhos óbvios, guinando para um lado quando esperávamos outro rumo, intercalando assuntos sem aparente ordem ou coerência, remetendo para a experiência de um esquizofrénico com sinapses em roda livre, alguém que padece de degeneração neurológica e que perdeu o controlo da fala. O autor não deixa de advertir quem se prepara para mergulhar na leitura, apelidando este ensaio de «montanha-russa». Prefiro, ao invés, entendê-lo como um imenso dédalo, labiríntico, onde não existe caminho único ou certo ou desejável. Há na produção literária de REP um lado eminentemente enciclopédico – com verbetes individuais ou monotemáticos intercalados no texto –, mas avesso a formalismos académicos: não existe, por exemplo, qualquer índice onomástico, mas dessa ausência pode resultar uma leitura também ela mais livre, admitindo que se abra o volume numa qualquer página e se avance para trás ou para a frente sem se perder a essência. 

Em “O Fagote de Shatner e Outros Contos”, REP retoma alguns dos temas que são recorrentes na sua obra: os movimentos “queer”, feminista, anarquista e pós-anarquista, entendidos como mecanismos intelectuais e de ação centrados na fuga à normatividade, de subversão do cânone estabelecido, de libertação das grilhetas do capitalismo e da indústria, numa visão que apelida de «sexo-positivista e libertária». A estrutura do livro assenta em três núcleos temáticos (mais do que capítulos) fundamentais: “sexo”, “loucura” e “morte”. Convém ter bem presente o contexto em que tudo isso decorre: um mundo dominado pelo patriarcado e onde recrudescem, em várias partes do globo, puritanismos fascizantes e moralismos bacocos, que contaminam também uma certa esquerda aburguesada. 

O título do livro alude ao ator que interpreta o papel do capitão Kirk na série televisiva “Star Trek” (em português, “O Caminho das Estrelas”) que tinha como hóbi... tocar fagote. Esta associação esteve também na génese do grupo britânico Shatner´s Bassoon, no qual, curiosamente, ninguém toca esse instrumento. O livro propõe a exaltação do “fagote de Shatner”, definido como «a parte do cérebro onde se processa um efeito similar ao uso das drogas e ao sexo e que também pode ser ativada por meio da música.» O fagote é um instrumento ainda pouco habitual no jazz, embora haja registos da sua utilização desde os alvores. Hoje em dia há mais praticantes do que alguma vez existiram, mas os discos que o incluem são por estes dias em número residual. 

Traçando uma perspetiva sobre os movimentos “queer” e feminista no jazz (um «mosaico inspirador», como lhe chama), REP defende que está em curso um processo de “requeerização” e de “revaginização” da sociedade e, em particular, deste género musical, assente na afirmação de uma sexualidade que desafia convenções e ditames normativos, explorando as suas implicações na arte e enquanto libelo contra todas as formas de opressão. O autor lembra ainda as manipulações da sexualidade com objetivos musicais, com especial menção aos “castrati” (verdadeiras “pop stars” à época), a quem, através da castração, era cruelmente interrompido o processo de desenvolvimento hormonal e físico, de forma a obter uma voz que se pretendia mais perto do céu. São igualmente apresentados exemplos de anarquistas e extremistas sónicos de natureza vária e do seu papel decisivo enquanto agentes disruptores. 

Também é profusamente explorado o papel da loucura, com e sem aspas, na criação musical, designadamente ao nível das práticas improvisacionais, aquilo que alguns ignorantemente definem como «gente a tocar cada um para seu lado». O improvisador e teórico Joe Morris diz, ao contrário, que «não há ações ao acaso na improvisação». O filósofo Jacques Derrida acreditava mesmo que a improvisação é impossível, não restando aos improvisadores outra alternativa senão insistir, falhando sempre. A Derrida, Paes junta dois outros “loucos-pensadores” fulcrais para a definição da música do presente: Buckminster Fuller (engenheiro, matemático e economista a quem o sistema harmolódico de Ornette Coleman não será alheio) e o místico e mestre espiritual George Gurdjieff. 

Rui Eduardo Paes por Hélio Gomes

REP fala numa «loucura metódica», aquela que os improvisadores utilizam para se ligarem ao som e à expressão musical. Neste particular, o autor assume dívidas para com Lester Bangs (o lado argumentativo) e Greil Marcus (a vertente analítica). Foi, aliás, este último, confessa, que lhe serviu de exemplo para «relacionar tudo com tudo», o que está no cerne do seu processo filosófico-exploratório. As associações voltam aqui a surgir em catadupa, como aquela, improvável ou talvez não, que une Carlos “Zíngaro” a David Bowie (a ele voltaremos à frente): o primeiro fez uma versão de “Venus in Furs”, incluída originalmente no álbum “Transformer” de Lou Reed, produzido por... Bowie. Como bem afirma o autor, «até no caos se formam padrões». Ou, como escreveu o jornalista e escritor Eduardo Guerra Carneiro, «isto anda tudo ligado». 

Para ilustrar o papel da loucura/esquizofrenia na história do jazz (muitas vezes potenciada pelo uso de drogas) – “Buddy” Bolden, Charlie Parker, Bud Powell, Thelonious Monk, Sun Ra, Donald Ayler, Moondog e tantos mais –, REP cita também o exemplo do contrabaixista Henry Grimes, encontrado 35 anos depois de ter sido dado como morto, e a quem os profundos distúrbios mentais levaram à dependência e à incapacidade de qualquer contacto social. (Nota pessoal 1: também eu o recordo, em Nova Iorque, a ser alimentado por uma mulher (não sei se a referida pelo livro), durante o Vision Festival de 2006, organizado por William Parker, o mesmo que lhe ofertou o célebre contrabaixo verde-azeitona.)

O psiquiatra Sean Spence apresentou mesmo uma tese em que defende o papel das doenças mentais na evolução do jazz, o que veio contribuir para alterar a perceção de uma música sempre conotada com o desejo sexual (etimologicamente, “to jass” é um calão para o ato sexual). A esquizofrenia, patológica ou estética, tem sido essencial para todo este processo. O presente jazz é esquizofrénico na sua multidirecionalidade. Voltemos ao assertivo Joe Morris, citado por REP: «Chegámos ao ponto em que vêm dizer-nos o que é o jazz, assim o matando, embalsamando e colocando atrás de uma vitrina.» A complexa, mas evidente, teia entre sexo, loucura e jazz assim se urde.

A derradeira parte do volume versa a morte, não necessariamente como epílogo, mas enquanto processo que se desenrola em vida, um combate ao avanço das limitações e à instalação de uma precariedade física e intelectual. Apesar do peso histórico do patriarcado, há que notar que a morte não é apenas gramaticalmente feminina, sendo personificada por uma mulher, a “grande ceifeira”. 

David Bowie, a ele voltamos, encenou ao longo da obra a própria morte, desde a da persona bissexual Ziggy Stardust, culminando em “Blackstar”, álbum que lançou no dia em que completou 69 anos (o “69” de forte conotação sexual, o “curioso número”, nas palavras de um antigo presidente da Assembleia da República) e a apenas dois dias de ir ao encontro do Major Tom. O músico britânico é assim um exemplo maior, aliás, do elo que se estabelece entre “sexo” (as posturas andróginas, o visual desafiante), “loucura” (lembremos o genial álbum de 1973, “Aladdin Sane”, jogo fonético com “a lad insane”/“um rapaz louco” – Bowie receava enlouquecer) e a “morte”, antecipada em vida. 

Indissocialvelmente ligada à morte está a noção de “tempo”: do “passing time” da letra de “My Death” (inquietante adaptação de “La Mort” de Jacques Brel) ao “infinito presente” de Camané (numa referência pouco habitual ao fado na obra de REP), que de certa forma encarna um modo muito português de olhar para o tempo, o “kairos” grego, o tempo que sentimos, não sequencial, em oposição ao inexorável avanço dos ponteiros do relógio. Esperamos até à página 136 para encontrarmos outra figura que já tardava e que une, também, os temas centrais do livro: o líder dos Pink Floyd iniciais, Syd Barrett (o “crazy diamond”), cuja esquizofrenia (porventura inata, associada ao consumo intenso de LSD) levou à desintegração mental e a uma vida ausente. Como escreve REP, «a aceitação da morte é o reconhecimento da sua existência em vida.»

São recordados dois concertos em Lisboa marcados pelo espectro da morte: o de Ornette Coleman (Jazz em Agosto, 2007) e o de Martial Solal (Culturgest, 2014). (Nota pessoal 2: tendo assistido a ambos, revivo o que então escrevi na jazz.pt a propósito do último e do modo como aquela fragilidade me impressionou: «A nota solitária com que Martial Solal disse adeus ecoa-me na cabeça desde então.») E tudo volta ao início, porque “pequena morte” é uma expressão associada à experiência orgásmica... 

“O Fagote de Shatner e Outros Contos” funciona como auto-indagação e evidencia uma profunda desilusão interior: «Valerá a pena continuar?», questionou o autor na sessão de apresentação do tomo. Este livro é, acima de tudo, um grito. Um grito contra o conformismo, um grito contra as polícias do pensamento, dos costumes e do gosto, um grito contra a acefalia instalada. Num momento em que o nosso mundo é, a cada dia que passa, um lugar mais sombrio, escutar esse grito é urgente.