Jazz Vária, 16 de Abril de 2019

Jazz Vária

O lendário Hasaan (8/ Hasaan Ibn Ali)

texto António Branco

A história do jazz é fértil em figuras meteóricas, daquelas que desaparecem quase tão rapidamente como surgem. Hasaan Ibn Ali (1931-1980) foi um obscuro pianista, compositor e teórico que cimentou reputação nos clubes de Filadélfia. Em meados dos anos 1960 gravou um disco com Max Roach e Art Davis, que António Branco resgata do olvido no oitavo episódio de Jazz Vária.

No início de dezembro de 1964, o trio liderado pelo histórico baterista Max Roach (com o contrabaixista Art Davis) gravou um álbum que viria a ter um título misterioso: “The Max Roach Trio Featuring the Legendary Hasaan”. Mas por que insondável razão seria “lendário” este Hasaan que poucos fora de Filadélfia conheciam bem?

Pianista e autor de todas as composições deste registo tão memorável quão esquecido, Hasaan Ibn Ali (batizado William Henry Langford, Jr.) nasceu em Filadélfia, em 1931. Com apenas 15 anos, foi para a estrada com o grupo do trompetista Joe Morris. Depois, tocou com toda a gente. Bem, quase toda. Faltou Charlie Parker. «Costumava ouvi-lo», ironizava. Mas quando o assunto era contrato de gravação ou trabalho em clubes, eram chamados músicos de menor valia, enquanto ele permanecia na sombra.

O genoma do jazz fora-lhe passado por Elmo Hope, a quem, aliás, dedicou uma das mais belas peças do disco, “Hope So Elmo” (a sua outra grande referência era Art Tatum). De Hope, dizia Hasaan que Thelonious Monk e Bud Powell lhe ficaram a dever muito. Desenvolveu uma abordagem com características muito próprias. «Fui à escola. Toquei como ninguém que tivesse ouvido, porque por mais que me esforçasse nesses deveres não funcionava», disse. «De Elmo ouvi sobre como aprender.»

Hasaan visitava regularmente Nova Iorque, cirandando de clube em clube em busca de oportunidades. Certa vez, ao chegar à cidade, a primeira pessoa que procurou foi o trompetista Kenny Dorham, que, ato contínuo, telefonou a Roach: «Hasaan está em Nova Iorque. Achas que o podemos ajudar?». O baterista, que não via o amigo há vários anos, retorquiu afirmativamente e usou a sua influência para convencer o patrão da Atlantic a agendar sessões de gravação.

Quando Hassan apareceu nos estúdios da editora numa tarde invernosa, abriu a porta, dirigiu-se ao piano e começou a tocar antes mesmo de se sentar. O fotógrafo Laurence Fink perguntou-lhe se iria tirar o casaco, ao que o músico disse algo ininteligível, tão embrenhado estava no seu mundo interior. No apartamento de Roach, costumava também sentar-se ao piano, tocando sozinho noite dentro (por vezes gravado pelo anfitrião). Mais tarde, quando lhe perguntaram como tinham corrido as sessões, Hasaan disse que lhe haviam pregado um susto de morte.

Músicos de nomeada como Roach e Johnny Griffin há muito enalteciam os seus predicados. Os colegas descreviam-no como excêntrico e instável. Não será exagero dizer que Hasaan – por vezes alcunhado “Count” Langford – antecipou em muitos aspetos a abordagem inovadora de Cecil Taylor. O seu pianismo intenso e de forte apelo rítmico estabeleceu elos entre diferentes estilos (descortinam-se elementos de Art Tatum, Thelonious Monk, Herbie Nichols) e evoluiu no sentido de se tornar progressivamente menos convencional, influenciando luminárias como John Coltrane, em especial nas suas “sheets of sound”. Há registo de que uma gravação caseira de Hasaan com Coltrane, de 1952, possa ter sobrevivido.

“The Max Roach Trio Featuring the Legendary Hasaan” foi a única gravação do pianista que conheceu edição discográfica (de outras perdeu-se o rasto), mostrando finalmente Hasaan a um público mais alargado. Para aqueles que já antes o haviam escutado, parecia que o destino de Hasaan era ser aquele pianista extraordinário de Filadélfia que nunca gravou um disco. E assim Hasaan emergiu por breves momentos da obscuridade para a ela rapidamente regressar.