Jazz Vária, 27 de Março de 2019

Jazz Vária

O outro São João (7/ John Coltrane)

texto António Branco

John Coltrane (1926-1967) é uma das mais seminais figuras da história do jazz, tendo modificado o seu curso e influenciado sucessivas gerações de músicos. No sétimo episódio de Jazz Vária, António Branco lembra que o autor de “A Love Supreme” e “Ascension” foi elevado à condição de santo pela Igreja Ortodoxa Africana.

A Igreja de São John Coltrane foi fundada pelo arcebispo Franzo W. King e está sedeada em São Francisco, Califórnia. A revelação original ter-se-á dado em 1965, no primeiro aniversário do casamento do Arcebispo com Marina King, “mãe suprema” e mais tarde diretora do coro da congregação, quando sentiram, dizem, a presença do Espírito Santo nos sons que Coltrane produziu durante um concerto no clube Jazz Workshop. O episódio levou-os a aprofundarem a ligação à música e ao pensamento de Coltrane, que voltaram a escutar ao vivo no ano seguinte.

No dia 1 de julho de 1967, o arcebispo King estava noutro clube, o Bop City, quando soube da “morte e ascensão” do músico (palavras dele). Pouco tempo depois, fundou, com o irmão Landres, o The Jazz Club, que depois evoluiria, em várias fases, concretizando uma mudança de foco do plano cultural para o espiritual. Os anos de atividade do então já designado The One Mind Temple (1971-1974), que visava a conciliação da palavra de Jesus Cristo com a mensagem de Coltrane, coincidiram com o envolvimento dos fundadores no movimento Black Panther.

Esta congregação religiosa passou a integrar, a partir de 1981, a Igreja Ortodoxa Africana (fundada em 1921 e associada à Universal Negro Improvement Association, liderada por Marcus Garvey), e tem como missão «pintar o globo com a mensagem de “A Love Supreme” [disco gravado em 1964] e, ao fazê-lo, promover a unidade global, a paz na Terra e o conhecimento do único e verdadeiro Deus vivo». Depois da elevação de Coltrane à santidade, foi adotada a designação de São John Will I Am Coltrane.

Nascido e criado cristão, Coltrane foi, ao longo de toda a sua vida, alguém de uma profunda espiritualidade. Não seguia nenhuma religião, mas acreditava num plano maior que originaria todos os tipos de fé. O casamento, em 1955, com Juanita Naima Grubb (muçulmana, para quem mais tarde escreveria a peça “Naima”, incluída no álbum “Giant Steps”, de 1960) permitiu-lhe um contato próximo com o islão (o seu pianista McCoy Tyner também era muçulmano). Em 1965, gravou “Om”, que inclui passagens do Bhagavad Gita, texto religioso hindu; no ano seguinte, com Pharoah Sanders, fez referências ao Livro Tibetano dos Mortos. Os estudos de música indiana levaram-no a pensar que determinados sons e escalas têm a capacidade de gerar reações emocionais concretas.

Hoje, a Igreja de São John Coltrane está alojada no Cyprian's Center, cujo lema é “Artes, Resiliência, Comunidade”. A iconografia da congregação lembra a bizantina, mostrando São John Coltrane com um halo dourado à volta da cabeça e empunhando um saxofone de cuja campânula saem labaredas. No conjunto dos responsáveis, ressalta o reverendo Franzo King Jr., filho do fundador, diácono e “ministro do som”, que também é saxofonista (tenor e soprano). São John Coltrane é louvado todos os domingos (no primeiro de cada mês há uma “A Love Supreme Meditation”), ao meio-dia, em celebrações musicais que são também orações.