Jazz Vária, 12 de Março de 2019

Jazz Vária

Uma noite nos trópicos (6/ Louis Moreau Gottschalk)

texto António Branco

Louis Moreau Gottschalk foi o primeiro pianista norte-americano a obter reconhecimento internacional e a incorporar nas suas obras os ritmos populares do continente. Jamais sonhou vir a influenciar um género musical que, anos mais tarde, se viria a chamar… jazz. António Branco recorda-o no sexto episódio de Jazz Vária.

A emergência do jazz dificilmente teria sido a mesma sem Louis Moreau Gottschalk (1829-1869). Hoje praticamente caído no esquecimento, Gottschalk nasceu em Nova Orleães – terra de miscigenações –, filho de um homem de negócios judeu de Londres e de uma crioula haitiana de ascendência francesa. Desde cedo esteve exposto quer à vasta paleta musical das Américas do Norte e do Sul e das Caraíbas, quer à tradição romântica europeia.

Considerado uma criança prodígio pela burguesia da cidade natal, estreou-se em público aos onze anos. Pouco depois viajou para a Europa, tendo estudado no Conservatório de Paris, não sem num primeiro momento ter sido rejeitado pela mesma instituição por causa da nacionalidade. Pierre Zimmerman, compositor e responsável pelo curso de piano, terá expressado venenosamente o seu preconceito: «A América é um país de máquinas a vapor!»

Depois de um concerto na Salle Pleyel, em Paris, Chopin terá dito a Gottschalk: «Dê-me a sua mão, prevejo que se tornará o rei dos pianistas.» Franz Liszt também observou o seu enorme talento. Apesar do seu sucesso na Europa, movia-o algum ceticismo em relação à vida musical do velho continente. Ridicularizou um certo “culto do génio” e os devaneios estelares de alguns de seus colegas europeus. Chamou a Liszt, por exemplo, “Alcibíades do piano”, chegando a comentar que não havia romântico que não usasse o cabelo comprido. Combatendo o fogo com o fogo, Gottschalk parece ter sido ligeiramente preconceituoso contra a Alemanha e o norte da Europa, uma vez que durante o tempo em que viveu deste lado do Atlântico nunca lá tocou. Tal poderá estar relacionado com a má relação que manteve com o pai (que vivera na Alemanha) e uma tentativa de evitar seguir os seus passos.

De regresso ao continente americano, viajou por Cuba, Porto Rico e por outras ilhas, absorvendo as suas músicas. Durante a Guerra Civil americana (sendo natural do Sul foi apoiante do Norte) já era o mais famoso pianista do novo mundo, esgotando as salas onde se apresentava. Recebido entusiasticamente em toda a América do Sul, os seus concertos por vezes chegaram a envolver até 650 artistas. Uma relação atribulada com uma jovem estudante forçou-o, em 1865, a deixar os Estados Unidos e a exilar-se no Brasil, onde continuou a organizar concertos e a compor. (A “Grande Fantasia Triunfal sobre o Hino Nacional Brasileiro” foi recuperada para o funeral do presidente Tancredo Neves, em 1985.)

De espantar é o facto de figuras como Scott Joplin (nome maior do ragtime) e “Jelly Roll” Morton (o autointitulado “inventor do jazz”) não se terem assumido particularmente devedores do seu trabalho. Gottschalk ficou, sobretudo, conhecido pelas peças para piano inspiradas na música popular americana (antecipando Aaron Copland ou Virgil Thomson em um século) e por obras orquestrais, como a Sinfonia n.º 1 “A Night in the Tropics” (1859). Compôs também obras vocais perfeitamente alinhadas com o cânone romântico. Três semanas depois de sofrer um colapso em palco (após a interpretação de uma peça intitulada “Morte!!”), terminaria os seus dias num hotel da Tijuca, Rio de Janeiro, com apenas 40 anos. Revisitar a obra de Louis Moreau Gottschalk é essencial para melhor se entenderem os elos entre a música do século XIX e os alvores do jazz.