Hot News, 6 de Março de 2019

Hot News

70 anos numa revista que é um livro

texto Gonçalo Falcão

Está publicado o primeiro número da revista / livro (porque havia muito que contar) Hot News, dedicado à comemoração dos 70 anos de existência do Hot Clube de Portugal, com coordenação de Inês Homem Cunha e António Curvelo. Já não era sem tempo.

Nunca fomos um povo muito amigo de cuidar de memórias; fazemos, construímos, montamos, mas nem sempre nos preocupamos em acompanhar a obra com alguém que lhe fixe a memória. Este despego pelo registo faz com que a história se perca ou seja traficada, torcida e remontada para servir narrativas ou personagens de conveniência.
Porque não é este o caso, temos de começar por elogiar a Hot News.

Já temos várias pessoas interessadas em mitografar o jazz português, nem sempre com lisura, com discos fundadores ou datas iniciais que não o são; assim sendo, acrescem motivos para prezar o bom trabalho feito pelo Hot Clube de Portugal e agora editado num formato de revista/livro, para comemorar os 70 anos desta instituição. Setenta anos são muito tempo, mas muito tempo é pouco para quem continua a manter vivo o mais antigo clube de jazz aberto na Europa. São realmente muitos anos e muitas realizações e a qualidade como estas memórias foram arrumadas fazem jus à dificuldade da tarefa e à grandeza do tema, sem a tentação de reescrever a gosto ou de construir um sermão laudatório.

António Curvelo construiu em nove secções uma imagem do clube e do seu papel no jazz português, usando múltiplas perspectivas e uma procura honesta das várias histórias destes 70 anos. A primeira parte é justamente dedicada a três grandes nomes do Hot já desaparecidos. Primeiro - e com justeza - Luís Villas-Boas, seu fundador e «inventor de uma maneira de fazer as coisas». Parece simples, mas o perceber esta qualidade é, por si só, notável e o pequeno texto de Inês Homem Cunha é das melhores coisas escritas sobre o Villas-Boas. Seguem-se cinco figuras referenciais: os dois irmãos Mayer, Bernardo Sassetti, o saxofonista Jorge Reis e Raúl Calado, crítico – ou melhor – divulgador. Tudo nomes particularmente queridos na Praça da Alegria.

A segunda parte fala dos três clubes de jazz da região de Lisboa para se compreender a criação da dinâmica do Hot Clube na audição au vivo (de músicos e de discos): o Hot, o CUJ (Clube Universitário de Jazz) e o Louisiana, a vivenda de Cascais onde Villas-Boas construiu um clube. E como o jazz vive ao vivo, a quarta parte da revista/livro inicia o tema da formação e da educação de um músico de jazz com a memória do 1º Seminário Internacional de Jazz de 1983. Este abre o caminho para o quinto ponto, que é um dos pilares estruturantes do clube: o ensino do jazz. Começa com a aparente contradição sobre ensinar jazz («o jazz não se ensina, mas aprende-se»). Bruno Santos, o actual director pedagógico da Escola de Jazz Luís Villas-Boas, fala-nos deste tema, com Inês Homem Cunha, Margarida Campelo, Alexandra Ávila Trindade e João Godinho.

As quatro secções finais falam da memória, dos concertos, dos discos e das fotografias. A ideia de um museu do jazz ou de um projecto para guardar a memória do jazz em Portugal, tendo o Hot como epicentro, é o sexto ponto. Por vezes, os museus são só uma falta de imaginação ou de cultura: quando não se sabe bem o que fazer a uma memória, a única resposta que normalmente surge é: faz-se um museu. Lisboa tem uns 40. Mas o facto é que, com o crescimento do turismo em Lisboa, a oferta museológica ainda é curta em termos europeus: Berlim tem 166 museus e galerias não comerciais (se somarmos as comerciais são mais de 350) e por isso ainda parece haver espaço na capital portuguesa para se museografar mais um tema. Os turistas adoram museus e hoje parece ser este o único peso das decisões sobre a cidade. Venha, pois, o museu do jazz.

O sétimo ponto aborda as noites do Hot através de vários testemunhos. Por fim chegam os discos (recomendados por músicos), o meio através do qual a maior parte de nós ouviu os grandes nomes do jazz e, por fim, as fotografias que guardam a memória e que falam e tocam. Esta estrutura inteligente assente em nove pontos lança um olhar histórico muito completo sobre todas as dimensões do Hot Clube, da música propriamente dita ao ponto de encontro, das aprendizagens várias e das pessoas que fazem as coisas. Um clube é aquilo que os sócios querem que ele seja e, no caso do Hot, os sucessivos sócios e direcções souberam fazer uma obra que perdura. Faltou apenas ouvir o Luís Hilário e o Alexandre, mas como o clube avança solidamente, ficará para a Hot News de 2028.