Jazz Vária, 26 de Fevereiro de 2019

Jazz Vária

Um tempo que ficou para trás (5/ Orquestra Girassol)

texto António Branco

Dirigida por Zé Eduardo, nome fundamental para o grande salto qualitativo dado pelo jazz nacional em meados da década de 1970, a Orquestra Girassol foi a primeira “big band” a gravar um disco em Portugal. António Branco recupera-o do olvido no quinto episódio de Jazz Vária.

No final de uma das sessões de divulgação do jazz que dinamizei no interior alentejano há meia dúzia de anos, um dos participantes entregou-me um pequeno vinil de 45 rpm, dizendo: «Sei que o valorizará mais do que eu.» Surpreendido, tinha nas mãos um exemplar do histórico registo gravado a 25 de junho de 1978 pela Orquestra Girassol, a primeira “big band” portuguesa documentada em disco.

Num período em que Portugal ainda se libertava das grilhetas impostas por meio século de ditadura, o panorama do jazz nacional era incipiente e a edição discográfica uma realidade longínqua para a maioria dos músicos. Apesar de, com as primeiras edições do Cascais Jazz, o jazz estar em expansão entre nós, quer na imprensa, quer no público estávamos então ainda bem longe do dinamismo que se viria a instalar anos mais tarde.

Quase década e meia depois do projeto pioneiro dirigido pelo maestro Jorge Costa Pinto, o contrabaixista, compositor, arranjador e pedagogo Zé Eduardo concretizou a audaz tarefa de constituir uma nova “big band” em Portugal. Após a dissolução do grupo Araripa, em 1976, juntou alguns jovens instrumentistas de sopro e formou o embrião de uma orquestra. Este processo foi sensivelmente coevo da edição de “Malpertuis” de Rão Kyao (com o contrabaixista na formação), o primeiro disco de “jazz português” (ainda que tenha havido outros gravados anteriormente, como o do clarinetista Domingos Vilaça, em 1957, de pendor “dixieland”). Perante as insuficiências ao nível da preparação que então detetou, Zé Eduardo viria a fundar, em 1979, a primeira escola, apesar de tudo “formal”, de jazz em Portugal, no Hot Clube de Portugal.

Nas fileiras da Girassol – a orquestra fora, entretanto, assim batizada – oficiavam músicos que viriam a ganhar protagonismo no panorama luso dos anos seguintes: o saxofonista e flautista Carlos Bechegas, os trompetistas Laurent Filipe e Tomás Pimentel, o guitarrista Armindo Neves, o baterista Urbano Oliveira. Foi este último, aliás, que assumiu o papel de produtor e de principal força motriz para levar a orquestra para estúdio (o Musicorde, na rua Coelho da Rocha, em Campo de Ourique, Lisboa).

Abordado no sentido de editar a gravação pela Tecla, de que era fundador e responsável, o mesmo Costa Pinto declinou (a editora estava em fase de encerramento) e o disco acabaria por ser lançado em edição de autor. O custo de produção e o preço de venda de cada exemplar equivaleram-se (50 escudos, outros tempos!). No lado A escuta-se “Walkin'”, eternizado por Miles Davis, e, no lado B, “Stolen Moments”, de Oliver Nelson.

Com a banalização das ferramentas de gravação, edição e disponibilização de música ao público (sobretudo as “online”), a estória da gravação da Orquestra Girassol remete para um tempo que, felizmente, ficou para trás. Haja por isso quem resgate do esquecimento uma jornada que desbravou caminho para as excelentes orquestras de jazz que hoje temos por cá.