Jazz Vária, 12 de Fevereiro de 2019

Jazz Vária

A árvore da felicidade (4/ Scott Joplin)

texto António Branco

A relação entre jazz e ópera não é, infelizmente, muito abordada. No quarto episódio de Jazz Vária, António Branco recorda “Treemonisha”, ópera composta por Scott Joplin em 1911, mas só levada ao palco em 1972. Hoje é considerada uma obra fundamental do património operático norte-americano.

“Duke” Ellington sonhava criar uma “obra de arte total” à maneira wagneriana. Em sentido inverso, também compositores europeus de tradição clássica como Debussy, Milhaud, Poulenc ou Hindemith, entre outros, incorporaram, de forma mais ou menos profunda, elementos jazzísticos nos seus trabalhos. As influências entre os dois mundos foram, e continuam a ser, mútuas.

Scott Joplin (1868-1917) – nome cimeiro do ragtime e sobretudo autor de peças para piano, como “The Entertainer”, “Maple Leaf Rag” ou “Magnetic Rag”, que estão no panteão – compôs três obras de maior fôlego, destinadas ao grande palco. A primeira, “The Ragtime Dance”, inspirada nas míticas reuniões de negros para dançar, foi apresentada em 1899 no clube Black 400 em Sedalia, Missouri. A segunda, “A Guest of Honor”, centra-se no jantar que o escritor e pedagogo afro-americano Booker T. Washington (que concebia a cultura e a qualificação profissional como sendo mais eficazes do que a luta política pelos direitos civis) teve com o Presidente Roosevelt na Casa Branca e foi estreada em East St. Louis, Illinois, em 1903. Chegou até a andar em digressão, mas problemas financeiros apressaram o seu fim. O paradeiro da partitura é desconhecido.

Em 1911, concluiu “Treemonisha”, que muitos continuam a rotular, de forma algo simplista, como “ópera-ragtime”, embora não seja difícil perceber que é muito mais do que isso. Estruturada em três atos, tem libreto do próprio Joplin, inclui abertura e prelúdio, recitativos, pequenas peças orquestrais, ballet e árias. Passada em setembro de 1884 numa antiga plantação de escravos isolada no interior de uma densa floresta (não muito distante da sua Texarkana natal), conta a história de Treemonisha, filha adotiva dos ex-escravos Ned e Monisha, encontrada debaixo de uma árvore (“tree”) da felicidade. Retrato dos conflitos latentes na cultura afro-americana no final do século XIX, a obra espelha o desejo acalentado por Joplin de que a educação dos mais jovens adaptasse essa comunidade à sociedade norte-americana, rompendo de vez com os velhos modos de vida e com as superstições africanas (pensamento alinhado com o de Washington).

Nunca conseguiu juntar o dinheiro suficiente para levar “Treemonisha” à cena, facto que contribuiu para o ocaso da sua vida. Após décadas de esquecimento, a audição completa da ópera só viria a acontecer em 1972, em Atlanta, organizada pelo Morehouse College e sob a direção do maestro Robert Shaw. Apesar de ter subido ao palco do Wolf Trap Farm Park for the Performing Arts, em Vienna, Virginia, pouco depois, só em 1975, na Ópera de Houston, foi apresentada com a visibilidade merecida. Carmen Balthrop assumiu o principal papel e a orquestra da casa foi dirigida por Gunther Schuller – um dos principais responsáveis pela redescoberta de muitos dos rags de Joplin. O jornal The New York Times só em 2019 publicou o seu obituário.