Jazz Vária, 29 de Janeiro de 2019

Jazz Vária

Conversas na catedral (3/ Duke Ellington)

texto António Branco

Edward Kennedy “Duke” Ellington (1899-1974) nunca se acomodou ao rótulo de “músico de jazz”, preferindo descrever a sua arte como “música americana”. No terceiro episódio de Jazz Vária, António Branco lembra os seus “concertos sagrados” e o recente restauro digital do filme-concerto de Coventry.

Figura maior da música americana do século XX, “Duke” Ellington jamais escondeu a sua atração por obras ambiciosas que incorporassem elementos de proveniência diversa, do jazz aos espirituais negros, com passagem pelos blues e pela tradição musical europeia. Já na reta final de uma carreira extraordinária, depois de abordado pelo reverendo John S. Yaryan, deu, a 16 de setembro de 1965, na Catedral da Graça, em São Francisco, o primeiro “concerto sagrado” (dos três principais que conheceram edição em disco – os outros tiveram lugar em 1968 e 1973). Ellington viria a considerar estes trabalhos como estando entre os seus melhores. (O Steinway em que compôs o primeiro “concerto sagrado” integra hoje a coleção do Museu Nacional da História Americana.)

Neles, dirigindo a orquestra a partir do piano, “Duke” sintetizou a intensa espiritualidade do povo negro e toda a carga dramática de um passado de escravatura e segregação e um presente de desigualdade e afronta (que permanecem em plena era Trump). Ellington afirmou que não era seu propósito compor missas ou fundir a liturgia cristã com o jazz, sabendo de antemão que as reações a tal empreendimento poderiam não ser as mais favoráveis, em especial junto dos setores mais conservadores da sociedade norte-americana. Ainda assim, a apresentação destas obras de fôlego não deixou de motivar alguma controvérsia, numa época de tumulto racial nos Estados Unidos.

Recentemente, foi recuperado um filme-concerto, julgado perdido há meio século, que mostra Ellington e sua orquestra do lado de cá do Atlântico, na catedral de Coventry, Reino Unido, num concerto ocorrido a 21 de fevereiro de 1966. O evento, transmitido pela ITV e integrado na programação pascal sob o título “Celebration”, constituiu a estreia europeia de tais “concertos sagrados” e incluiu a apresentação (única) de uma peça, “Come Easter”, que Ellington compôs especialmente para aquele espaço e ocasião. (O registo áudio está fixado no disco “In Coventry, 1966”, edição da Storyville Records.)

No passado dia 29 de dezembro de 2018, o filme original, a preto e branco, restaurado digitalmente com o apoio da Universidade de Warwick, foi exibido em público pela primeira vez desde a transmissão televisiva e no mesmo local da gravação. A nova catedral de Coventry, inaugurada em 1962, foi erguida e consagrada após a destruição do templo original, construído durante os séculos XIV e XV e reduzido a escombros durante o trágico bombardeamento nazi de novembro de 1941.