Jazz Vária, 15 de Janeiro de 2019

Jazz Vária

A era do jazz (2/ Scott Fitzgerald)

texto António Branco

Garboso e altivo, mas incapaz de sustentar financeiramente a sua excentricidade, Francis Scott Fitzgerald (1896-1940) foi o maior cronista da chamada “era do jazz” (expressão cunhada pelo próprio). António Branco lembra-o neste segundo episódio de Jazz Vária…

Os também sugestivamente designados por “roaring twenties”, período balizado entre as manifestações do 1.º de Maio de 1919 e o colapso bolsista de Wall Street (1929), foram de prosperidade económica e efervescência cultural e artística. Ao longo dessa década, o jazz deixou o calor do sul e migrou ao encontro de cidades industrializadas como Nova Iorque ou Chicago, metamorfoseando-se. No conto “Ecos da Era do Jazz”, escrito em novembro de 1931, ao mesmo tempo que declara morta essa época, recorda-a com nostalgia: «Ela sustentou-o, louvou-o e proporcionou-lhe mais dinheiro do que poderia imaginar nos seus sonhos.» (Fitzgerald publicou o seu romance mais famoso, “O Grande Gatsby”, em 1925.)

«Foi uma era de milagres, foi uma era de arte, foi uma era de excessos e foi uma era de sátira», escreveu. À medida que a juventude florescia, a moral sexual e o puritanismo abriam brechas: «Era toda uma raça que se tornava hedonista, optando pelo prazer.» A Lei Seca – proibição do fabrico, transporte e venda de bebidas alcoólicas – encaminhava os jovens para os “speakeasies”, espaços clandestinos onde o jazz era a banda sonora por excelência. «A palavra jazz, até se tornar respeitável, começou por querer dizer sexo, passando depois a querer dizer dança e, finalmente, música.»

Com argúcia, Fitzgerald perscrutou esses universos, mas também os do cinema e até do desporto, em busca dos traços caraterizadores dessa rutura. Para o escritor, a era do jazz terminou «de forma espetacular» porque «a confiança absoluta que era o seu alimento essencial sofreu um terrível abalo, e a estrutura precária não se manteve de pé por muito tempo.» Mas o apelo daquela música permaneceu: «Há um rumor espetral nas percussões, um sussurro asmático nos trombones, que me devolve ao princípio dos anos 20, quando bebíamos álcool de madeira e todos os dias nos tornávamos melhores.»