Jazz Posters, 11 de Dezembro de 2018

Jazz Posters

Cartazes que se tornaram livro

texto Gonçalo Falcão

A tempo das compras de Natal, acaba de ser editado um livro curioso para a história do “design” e do jazz em Portugal. O título em Inglês – “Jazz Posters” – não disfarça a imensa portugalidade do trabalho, no qual uma lúcida paixão se transforma em virtude.

“Jazz Posters” compila perto de 60 cartazes (vá-se lá saber porque é que são chamados de “posters”) e uns estudos do tempo em que Portugal era a Roménia. Os ditos cujos foram criados pelo arquitecto João Fonseca entre 1985 e 1989 para a porta do Hot Clube, numa tentativa de estabelecer uma relação mais quente e esclarecida entre a música que iria ali ser tocada e os passantes. São cartazes desenhados à mão, reproduzidos no seu tamanho original (aprox. A3), e usam quase exclusivamente os tipos de letra e a composição para traduzir a música.

Neste tempo estavam a começar os cursos em Portugal. Os de jazz (1979) e os de “design” (1976). Em 1985, a formação em “design” (e em jazz) era ainda tímida e pouco conhecida e o “à Lagárdère” movia mais os expeditos do que a Escola Superior de Belas-Artes. Não é por isso de estranhar que o trabalho tenha sido desenvolvido por um arquitecto atento ao mundo das letras. Os nossos maiores “designers” da altura, como por exemplo Sebastião Rodrigues, Victor Palla e Carlos Rocha, ouviam jazz e frequentavam o Hot. Mas calhou a João Fonseca, com vagar na arquitectura, o papel de “designer” do Hot entre 1985 e 1987: a desocupação e a paixão jogaram a favor.

A sua ignorância sobre a anatomia das letras e a composição (à arquitecto - em linhas rectas e caixas) foi compensada com uma entrega à causa e uma vontade de comunicar o jazz a um público que aparecia no clube, mas não fazia ideia do que estava a ouvir. Os cartazes incluídos no livro são, por isso, não só objectos gráficos curiosos e bonitos, mas também um testemunho que estava escondido, de uma linguagem gráfica emergente, feita manualmente. As letras são tratadas com respeito e com atenção e a pobreza de meios não resulta numa pobreza de fins: a mão não era uma opção estilística, mas uma necessidade, na impossibilidade financeira de recorrer à máquina, num tempo pré-CEE em que o acesso às tecnologias do “design gráfico” (desde as letras de decalque à fotocomposição) era caro.

João Fonseca não foi só “designer” do Hot Clube. O seu interesse pela comunicação visual ligou-o a outros projectos, como por exemplo o desenho do jornal-revista “Contraste” (1985 a 1987), dirigido por Miguel Portas, e desenhado por si e por Henrique Cayatte, com muitas outras colaborações (de Jorge Colombo a Fernando Brito). Nestes cartazes e no “Contraste” (ou na capa de “Independança”, de Luís Camacho, e noutros projectos interessantes desta altura) o “fazer à mão” é também o emergir de uma nova linguagem gráfica que faz do desconhecimento (da inobservância?) do cânone tipográfico (usado no mundo empresarial) uma tentativa de instalar algo de mais compatível com uma certa “movida” artística urbana que despontava em Lisboa. Os cartazes de João Fonseca fazem parte desta aragem de civilização e o Hot esteve, neste período, na corrente de imagem do seu tempo.

Vemos o quarteto de Mário Laginha (Carlos Martins, Mário Franco, José Salgueiro) escrito com uma letra fina que nos aponta para a delicadeza da música, e vemos o Sexteto de Jazz de Lisboa com as letras arrumadas em faixas brancas e pretas e as letras com um certo travo a revolução russa. Lindíssimo, o cartaz para o quinteto dos Moreiras (João Moreira, Pedro Moreira, Bernardo Moreira, Miguel Moreira e Carlos Vieira), com as letras trémulas em enorme contraste entre cheios e vazios e toda a composição ligeiramente oblíqua. Em 1986, o Cato Trio (Carlos Barretto, Sylvain Beuf e George Grown) é tratado com uma linguagem claramente retirada dos primeiros números “Sempre Fixe” (1926-1930, Carlos Botelho, Stuart Carvalhais, etc.).

Nota Alberto Lopes, que escreve os textos do livro, outra inovação que não é menor: a ideia de que um bar deve ter uma imagem e deve comunicar. Se exceptuarmos o Frágil (hoje Lux), que desde 1982 compreendeu isso mesmo e investiu na ideia (e talvez também o Jukebox, que abriu no Bairro Alto um pouco antes), a noção de que um bar deveria ter uma imagem e uma comunicação com o público era muito revolucionária para o Portugal dessa altura (de Espanha chegava o “Madrid Me Mata”, que abria os olhos aos mais atentos). E o trabalho de João Fonseca colocou o Hot nos anos 1980, com uma comunicação expressiva e interessante à qual não creio que tenha ainda regressado.

Este livro, iniciativa da editora Argumentum, do também arquitecto Filipe Jorge em conjunto com o Hot Clube de Portugal, é mais um passo no levantamento de um património gráfico português que, improvisando, conseguiu chegar frequentemente a horas ao seu tempo, numa nação que chega quase sempre tarde.