European Jazz Conference, 20 de Setembro de 2018

European Jazz Conference

Lisboa na Europa

texto Carlos Martins fotografia Andreea Bikfalvi / Sons da Lusofonia

O anfitrião, enquanto responsável da Sons da Lusofonia, da conferência da Europe Jazz Network (EJN) em Lisboa faz neste texto uma primeira reflexão, a quente, sobre o que aconteceu de 13 a 15 de Setembro passados no CCB e em outros espaços, entre reuniões e “showcases”. E promete debruçar-se mais adiante sobre o que resultará desta vinda a Portugal dos principais promotores do jazz ao vivo na Europa. Como afirma repetidas vezes, «é necessário escutar mais e falar menos»…

Na Europa e no mundo ocidental vivem-se momentos de grande tensão financeira, social e política, claramente provocados pelo início da queda do capitalismo selvagem e pela ganância neoliberal. O jazz só vende mais do que a música para crianças e é o antepenúltimo na lista. É sintomático o facto de estas duas músicas, que deveriam ser elementares na formação de indivíduos fluidos e conscientes, serem as que menos são compradas. Mostra o estado de desorientação espiritual a que chegámos. Não há muito para descobrir nesta Europa manietada à esquerda por agendas supostamente libertadoras ainda, e contudo, escravas da cobardia e de políticas normativas. Esta Europa que vive simultaneamente uma exigência de bem-estar das suas classes médias e esquece os direitos de migrantes e mulheres, enquanto nos vários sofás da vida se esvai a coragem para por exemplo, lutar pela dignidade humana e pela sustentação do planeta.

É necessário escutar mais e falar menos.

Mas há uma outra Europa cheia de diversidade, de engenho e emoções, de jovens e maduros talentos, de línguas com sons diversos, de pessoas sem medo do desconhecido e de grandes almas generosas. Não é, pois, de estranhar que, numa conferência europeia sobre jazz, surjam estes e outros assuntos decorrentes do modelo civilizacional que orienta as nossas vidas em conjunto.

Indo agora ao centro deste universo que é a música, não podemos esquecer nunca que a música improvisada e os músicos que a praticam são a razão principal da existência de qualquer “network” de jazz. Se uma estrutura como a EJN se esquece deste simples e crucial facto pode perder a sua razão de existir e tornar-se em mais uma grande máquina burocrática. Compete aos músicos, que se debatem com alguma falta de autoridade nestes meios, não deixar que isso aconteça.

Uma das mais fortes razões para o jazz se ter tornado numa música atraente, altamente apreciada e vivida é o facto de, através da prática jazzística, se poder afirmar de forma clara que, além da exaltação da positividade da existência humana, se podem usar os paradoxos da improvisação como inspiração para maiores criatividade e espontaneidade humanas. Por isso, é essencial ouvir o que os músicos tocam, nem sempre o que dizem, e tentar transpor os códigos humanos presentes na boa música para inspirar as nossas vidas. Repito, é necessário ouvir mais e falar menos.

Cerimónia de abertura

Discurso de Maria João

Painel sobre o jazz português em contexto europeu

Concerto da Orquestra Jazz de Matosinhos

Lançamento do livro "The History of European Jazz"

Reunião de trabalho

Por isso foi, também, essencial que na EJC em Lisboa se discutisse, pela primeira vez em cinco anos, desde que este modelo de conferência foi adoptado, a razão pela qual alguns membros desta “network” europeia e outros participantes não estiveram presentes nos “showcases”. Foi por mim sublinhada a expressão “turistificação” relacionando-a com a EJC em Lisboa, tendo em conta o descaramento de alguns, não os que interessam, que, deslumbrados com o clima, o espaço do CCB, a comida, etc., não mostraram qualquer interesse em ”escutar” os músicos portugueses. No ano passado, em Ljubljana, a minha indignação foi ainda maior, uma vez que as assistências dos “showcases”, que decorriam à noite, foram muito fracas. Foi essencial que a cantora Maria João dissesse como hoje em dia se sente um músico tão só e cada vez mais longe dos centros de poder. Acabaram por fazer “mea culpa” alguns membros turistas e por quase encher o pequeno auditório do CCB ou a Ler Devagar.

Para resolvermos estas questões será necessário que os músicos se organizem para fazer parte da rede das redes. Que se organizem nos seus países em redes de promoção das suas músicas, que tenham uma ideia clara das várias possibilidades de se promoverem na Europa. A agenda política, social e criativa da Europa, e da EJN, é demasiado seguidista e politicamente correcta. Ora se fala de refugiados, esquecendo-se na próxima EJC, ora se fala de questões de género influenciando eleições sem qualquer pejo, ora se fala de integração sem incorporar as acções necessárias para que se promovam valores em continuidade. Por isso, os músicos têm de se definir não por estes modelos, mas por aquilo que fazem melhor, pela música e por vezes pelo grito ou o silêncio que essa música pode trazer à comunidade. A Rede das redes deve, pois, ser feita essencialmente de música livre e dos livres artistas que a conduzem. Não será uma tarefa fácil voltar a criar espaço e tempo para “escutar”, mas teremos de nos dedicar. E a primeira acção é apresentar em “showcase” ou concerto o que de novo se produz, neste caso entre nós. Foi isso que se verificou em Lisboa e foi por isso que alguns grupos tiveram quase no momento convites para salas ou festivais de jazz na Europa. Esse era o nosso objectivo principal e, ao “pressionarmos” polidamente os participantes a estarem presentes, o que veio a acontecer de forma mais do que satisfatória, alargámos o leque de possibilidades para a divulgação da cultura nacional.

Os músicos portugueses estiveram em destaque nesta EJC 2018 não só a tocar, mas também a falar. As participações em várias actividades de músicos, críticos, investigadores  e editores nacionais serviu para mostrar uma unidade dentro da diversidade e uma grande capacidade de gerar ideias alternativas que podem influenciar a Europa a ser menos burocrática.

Os futuros possíveis de artistas e agentes portugueses na Rede Europeia de Jazz, e principalmente nos circuitos europeus de festivais, são colectivamente, pela primeira vez não só individualmente, animadores. A realização da European Jazz Conference em Lisboa em 2018 já trouxe e trará uma série de benefícios ao jazz português que serão em breve fruto de uma maior reflexão. Para já, posso dizer que a música composta e improvisada por portugueses foi reconhecida pelos nossos pares europeus sem nenhum recurso a paternalismos ou outros preconceitos. Foi a primeira vez que aconteceu de forma colectiva e institucional por um grupo organizado de pessoas e não só por alguns.  Só isto não seria pouco para um país que se deixa levar por questões menores dentro de portas. Agora falta unirmo-nos em torno de claras vontades, primeiro, e de claros e pensados objectivos, depois. Em breve, e em conjunto com outros músicos e agentes e, se possível, através da novíssima Rede do Jazz Português, que espera por sangue novo nas suas fileiras, daremos mais notícias sobre os resultados da realização da European Jazz Conference em Lisboa.

Agradeço mais uma vez ao Dr. Eilisio Summavielle, à Dra. Catarina Vaz Pinto, às respectivas equipas do CCB e da CML, à Ler Devagar e à Antena 2, à equipa da ASL e a Constanze Juergens, aos críticos e agentes presentes e, principalmente, aos músicos que tocaram nestes dias para os nossos convidados. Foram eles que deixaram nesta difícil, trabalhosa, inspirada, fantástica e elogiada organização a melhor impressão.