Rita Maria / Filipe Raposo, 23 de Agosto de 2018

Rita Maria / Filipe Raposo

Até ao fim da vida

texto Nuno Catarino fotografia Rui Dias

O duo de voz e piano vai ter o seu primeiro disco a circular desde o presente mês de Agosto e é o registo de um concerto na Noruega, “Live in Oslo”. A jazz.pt ficou a saber que muitos concertos e outros álbuns estão na calha, numa colaboração que os seus protagonistas desejam que seja longa.

Rita Maria e Filipe Raposo tinham estado em estúdio, a gravar um disco, pouco antes de a primeira iniciar uma digressão pela Escandinávia no contexto do Stockholm-Lisboa Project, coincidndo com o facto de o pianista estar então (2015) a acabar o seu mestrado no Royal College of Stockholm. Acharam, no entanto, que o melhor seria que o primeiro álbum da dupla fosse um registo ao vivo e designadamente o realizado em 2017 durante o concerto que fizeram no Cosmopolite, uma sala de referência na Noruega. É o que ouvimos em “Live in Oslo”, disco que está já disponível nas plataformas digitais. Por exemplo, aqui: https://open.spotify.com/album/00jVlQ73m0KQDnszbA9ms1?si=55qL6eazT6CAWrciT4MpdA

«Havia à priori uma grande afinidade artística com o trabalho da Rita, a sua forma de escutar a música, as palavras e o mundo. Ficámos com a certeza de que queríamos fazer um projecto juntos», conta Raposo. «Foi desde logo um encontro feliz. A primeira conversa aflorou inúmeras influências em comum e a imensa vontade de partilha em projectos futuros. Não decorreu sequer um mês até que a primeira colaboração acontecesse, um convite da RTP (destinada ao programa “Super Diva”) para reinterpretar uma famosa ária de Henry Purcell, “Lamento de Dido”. Foi essa a primeira semente do disco que agora lançamos», especifica Rita Maria.

Depois dessa primeira apresentação pública no nosso país vieram os concertos, um dos quais na edição de 2016 da Festa do Jazz, e logo se proporcionou a “tournée” pela Escandinávia. «Ao voltarmos a Lisboa ouvimos a gravação de Oslo e ficámos verdadeiramente entusiasmados com a possibilidade de o editar. Um disco “live” é o melhor para canalizar a espontaneidade da improvisação que caracteriza tão bem a nossa abordagem musical», explica Filipe Raposo. Apenas com voz e piano, a música que vem dentro tem, no entanto, proporções que parecem maiores: «Pensar no piano como uma grande orquestra é algo que me agrada profundamente. Gosto de pensar em orquestração quando toco. Cada melodia, textura, cor harmónica poderia ser facilmente substituída por um instrumento de orquestra. Na nossa música cabe um mundo de sons que procuramos retratar. Há momentos de intimidade absoluta em oposição a momentos de grandiosidade orquestral, tudo isto apenas com a voz e o piano», ficamos também a saber.

Este interesse de Raposo foi ao encontro das pretensões de Rita Maria: «Interessam-me as possibilidades tímbricas de cada som, o impacto sonoro e emocional que provocam. Uma nota apenas pode levar-nos ao puro êxtase ou à angústia mais profunda, e tenho um deleite absoluto nesse acto de escuta.» Daí que tenha nascido desde o primeiro minuto desta parceria o sentimento de que estavam ambos «em sintonia absoluta, como se nos conhecêssemos desde sempre», como comenta Filipe Raposo. «Há uma simbiose tão plena que continua a pedir para ser explorada a dois», pelo que logo seria de prever que este projecto viesse a ter continuidade.

O CD inclui temas portugueses, tradicionais e mais recentes, algum cancioneiro cinematográfico e “standards” de jazz. Rita Maria: «A selecção foi feita com muita naturalidade. São universos estéticos que nos caracterizam a ambos, fazem parte do nosso ADN e servem de plataforma para o diálogo criativo. Quisemos propositadamente assumir um alinhamento ecléctico.» Raposo diz ainda mais: «Habituámo-nos a colocar os géneros dentro de caixas, como se a unidade de uma dada obra fosse impossível fora deste conceito. Em "Live in Oslo" fazemos precisamente o contrário. Jorge Luís Borges disse: “... sou todos os livros que li, todas as pessoas que conheci, todos os lugares que visitei, todas as pessoas que amei.” Atrevo-me a juntar mais uma alínea a esta afirmação poética – nós somos todas as músicas que ouvimos.»

O que se segue e este disco anuncia? Em Setembro vão gravar, como convidados, com a Big Band Júnior. Em Outubro, irão ao Jazz Cairo Festival. «Há uma enorme quantidade de repertório que gostaria de explorar com o Filipe. Cada vez mais ideias fomos tecendo e neste momento não vemos fim para as explorar. Poderei arriscar dizendo que temos ideias para gravar discos e fazer concertos até ao fim das nossas vidas», antecipa Rita Maria. Ficaremos atentos…