Festival de Jazz de Vigo, 9 de Julho de 2018

Festival de Jazz de Vigo

O Imaxinasons nunca existiu

texto Rui Eduardo Paes

Terminou a 4 de Julho a edição de 2018 do festival que veio substituir aquele realizado em Vigo que ano após ano era reportado pela jazz.pt. Porque era o festival espanhol mais próximo de Portugal, porque incluía sempre na sua programação grupos e músicos portugueses e ainda porque se distinguia no seu conceito de todos os eventos de jazz em Espanha. Pois esse festival na verdade nunca aconteceu. Foi apagado da história.

Envolto em polémica, realizou-se entre 29 de Junho e 4 de Julho passados o Festival de Jazz de Vigo, denominação que substituiu – 14 anos depois – a de Imaxinasons. Não foi apenas o nome que mudou: o Imaxinasons era o único festival espanhol que incluía formações portuguesas no seu cartaz, e desde logo a sua primeira edição. Em 2018, um só músico português nele participou, o saxofonista José Soares, integrado num grupo viguense, o Dani Font Quartet, que se apresentou num “after-hours” do Café Vitruvia. O mesmo Soares que, apenas uns dias depois e deste lado da fronteira, encontraríamos na Fundação de Serralves, abrindo o ciclo Jazz no Parque com o projecto The Mantra of the pHat Lotus de Mané Fernandes. As diferenças falam por si.

O desaparecimento de Portugal na programação do festival galego vem na decorrência da decisão dos novos directores artísticos do mesmo, Yago Vázquez e Felipe Villar, de substituir o foco no jazz europeu pelo norte-americano, ainda que compensando com a inclusão de mais grupos espanhóis do que antes acontecia (o que também pode dever-se aos sucessivos cortes orçamentais que foram ocorrendo). Tem, no entanto, um contexto cuja influência não é possível medir: o da recente desavença entre os presidentes das vizinhas autarquias de Vigo e do Porto devido aos seus respectivos aeroportos e à ligação ferroviária entre as duas cidades. Ora, o evento é promovido pela câmara local. Referir o facto só seria despropositado se as motivações desta mudança de rumo não fossem políticas, e os detractores da dita – começando pelos seus três primeiros programadores, Baldo Martínez, Nani García e, nos dois últimos anos, Lucía Martínez – vêm dizendo que sim nos meios de comunicação social e em tomadas de posição na Internet.

Motivações políticas e, acrescentam os mesmos, «de ego», referindo que a nova direcção (surgida depois de, há uns meses, Lucía Martínez ser dispensada das suas funções sem que lhe tivesse sido dada qualquer explicação) é constituída precisamente pelas mesmas pessoas que contestavam o conceito de abertura e diversidade estética que conduzia o Imaxinasons, reivindicando um festival mais “mainstream”, e que nos bastidores vinham insistentemente forçando um «quitate tu pa ponerme yo». No espaço virtual, tal corte com o passado surgiu com a retirada das imagens e dos dados que 13 edições do certame tinham acumulado, articulando-se com a difusão de informações «mal-intencionadas», como argumentam os seus anteriores responsáveis em comunicado. Neste, lê-se mesmo que está em curso um «exercício de esquecimento premeditado da história, que recorda certas práticas que não nos atrevemos a mencionar».

Na apresentação dos concertos realizados em 2018 o festival declarou a intenção de se converter «numa referência europeia em dez anos», mas lembram os subscritores do comunicado em questão que o Imaxinasons já conseguira isso, e logo cinco anos depois de ter tido início, com entusiásticas menções na imprensa de toda a Espanha, de Portugal (jazz.pt), de França (Jazz Magazine, Jazz Hot), Itália (Jazzconvention) e outros países. O que justifica este comentário a Baldo Martínez, Nani García e Lucía Martínez, dirigido ao “alcalde” do Consello de Vigo e ao seu vereador da Cultura: «Alguém não está a ser bem assessorado.»

Sobre toda esta contestação, silêncio da Câmara de Vigo e silêncio dos actuais directores do Festival de Jazz de Vigo, como se as vozes que se levantaram em protesto (as de jornalistas, críticos, músicos, público, para além das referidas) viessem, de facto, do túmulo onde o Imaxinasons foi enterrado. Qualquer contraditório implica o reconhecimento daquilo que se contradiz, mas o que parece estar em causa é precisamente o contrário: fazer-nos crer que o Imaxinasons nunca existiu, que foi um sonho apenas de que acabámos de acordar. O LUME, o Red Trio com John Butcher, Maria João, a dupla Miguel Mira / Ulrich Mitzlaff, Carlos “Zíngaro” a solo, Carlos Bica Azul, Susana Santos Silva em duo com Jorge Queijo, Américo Rodrigues e outros tantos que julgámos ver e ouvir em Vigo nunca estiveram, na verdade, por aqueles lados.