A soma das partes (III), 16 de Setembro de 2013

A soma das partes (III)

Na era da rádio e da “terra de ninguém”

texto Abdul Moimême

Na história dos arranjos no jazz que vimos compilando, vez para recordar uma figura que está a ser injustamente esquecida: James Reese Europe. Um tenente afro-americano da Primeira Guerra Mundial que revolucionou a música militar, sincopando-a…

A Era do Jazz, tal como foram denominados os anos 1920 até à Grande Depressão de 1929, é indissociável do aparecimento das emissões radiofónicas e com estas da própria cultura pop. A inovação permitia o acesso do grande público a uma oferta cultural sem precedentes, oferecendo um contorno inesperado às palavras do romancista Scott Fitzgerald, que caracterizou o espirito da época de forma singular em “The Great Gatsby”.

«Gosto de grandes festas. São tão íntimas! Nas festas pequenas não há qualquer privacidade», desabafava a personagem Jordan Baker. O paradoxo poderia aplicar-se ao festim de ondas hertzianas que então se verificava. Disseminava-se pelo éter todo o tipo de emissões radiofónicas, fossem música ou monólogos e conversas, destinadas ao consumo público, sim, mas apreciadas no espaço privado.

Por coincidência, o início da escrita do grande romance de Fitzgerald, “The Great Gatsby”, coincide com o das emissões de rádio em grande escala, nos Estados Unidos e na Europa. Estávamos no ano de 1922 e foram músicos como Fletcher Henderson e o hoje esquecido James Reese Europe (ou Jim Europe) que chegaram ao conhecimento do grande público urbano graças a esse novo meio de comunicação.

Denominado por Eubie Blake como o «Martin Luther King da música», Europe foi uma figura incontornável na época, começando a sua carreira por organizar uma fraternidade musical afro-americana, The Clef Club, com cerca de 125 músicos amadores. 

Pela primeira vez

 

A sua Clef Club Orchestra chegou a tocar uma forma de proto-jazz no emblemático Carnegie Hall, em plena Sétima Avenida, antecedendo em 26 anos a proeza de Benny Goodman no mesmo espaço. Segundo as palavras do músico e historiador Gunther Schuller, com esse facto Reese Europe «fez um assalto ao bastião da elite cultural branca de Nova Iorque, alertando-os para a existência da música negra pela primeira vez».

Se muitos dos temas dessa sua primeira orquestra eram “primitivos” e acelerados ragtime, alguns dos arranjos que escrevia ambicionavam um amplo naipe de instrumentos, ao estilo das bandas militares do “rei da marcha”, John Philip Sousa.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, Europe incorporou-se no Harlem Hellfighters, um regimento exclusivamente composto por porto-riquenhos e afro-americanos. A formação por si criada neste corpo militar, a 396th U.S. Infantry Hell Fighter Band, teve um enorme sucesso em França, viajando mais de 3000 km pelo país, um feito considerável tendo em conta que se tratava do ano de 1919.

O sucesso permitiu ao tenente que gravasse para a editora francesa Pathé, e é deste período que nos chegam temas fortemente sincopados, animados pela expressão dramática e pelos particularismos sonoros da cultura afro-americana, sem esquecer o espírito de fanfarra próprio do contexto de guerra.

Exemplo é um original da orquestra, “On Patrol in No Man’s Land”, com os efeitos sonoplásticos a emularem sirenes, metralhadoras, bombas e “rockets”. A possível banda sonora para a história de João Ninguém, esse anónimo, ingénuo e analfabeto soldado português, “voluntariamente” aprisionado nas trincheiras de La Lys. 

Hendrix e Braxton, descendentes

 

A jovialidade com que a temática é tratada pelos Hellfighters antecipa e contrasta semelhantes efeitos, criados por Jimi Hendrix, 50 anos mais tarde, em “Machine Gun” (“Band of Gypsys”), para descrever os horrores bélicos e proclamar o pacifismo que estava na ordem do dia, em reacção aos combates no Vietname.

Quando, em 1976, compôs “Creative Orchestra Music 1976”, o incansável pesquisador da tradição afro-americana que é Anthony Braxton muito provavelmente teve em conta o trabalho pioneiro de Reese Europe, indo buscar a ele o vocabulário dessa experiência que teve na música de marcha e fanfarra o seu ponto de partida. Nas “liner notes” do disco, o saxofonista e compositor expressa muito claramente o seu gosto pela música militar, precisamente aquela que Jim Europe inovou com brilhantismo.

Para além da qualidade marchante, de opereta ou simplesmente pop (ouça-se “Jazzola”) da música de Europe, o que se destaca é o seu cariz assumidamente afro-americano. O músico foi talvez dos primeiros a assumir verbalmente essa postura. Em 1919, de regresso aos Estados Unidos após o conflito, expressou essa intenção: «Regressei de França com a convicção de que os negros devem compor música negra. Temos os nossos sentimentos raciais e se tentarmos copiar os brancos apenas poderemos fazer más cópias […] Se é suposto desenvolvermo-nos na América, temos de o fazer segundo os nossos próprios termos.»

Esses “termos” já tinham, de resto, passado por dar outro balanço à Marselhesa, para espanto e desconcerto da população francesa.

Quis o destino que James Reese Europe, sobrevivente de uma guerra mundial num continente longínquo cujo nome estava lavrado no seu próprio apelido, morresse assassinado por um músico da sua banda, na cidade de Nova Iorque. A mesma que o acolheu e homenageou como o grande artista americano que foi.

 

Para saber mais 

James Reese Europe & The Hellfighters

http://www.youtube.com/watch?v=eC9m3Xie3uk

 

Anthony Braxton (“Creative Orchestra Music, March”)

http://www.youtube.com/watch?v=XRKuQHpSvvk

 

James Reese Europe ("Patrol in No Man's Land")

http://www.youtube.com/watch?v=Fe2K6zXGPoE

 

Jimi Hendrix ("Machine Gun")

http://www.youtube.com/watch?v=Fe2K6zXGPoE

 

Cap. Menezes Ferreira (“João Ninguém, Soldado da Grande Guerra”, gravuras de Pires Marinho e Bordalo Pinheiro)

http://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/RaridadesBibliograficas/ImpressoesCEP/ImpressoesCEP_item1/P1.html

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