Riccardo Luppi Mure Mure + Chris Rainier + François Carrier / Michel Lambert & Hernâni Faustino + Project Z Musical Ensemble + Sunset no Terraço, 5 de Junho de 2017

Riccardo Luppi Mure Mure + Chris Rainier + François Carrier / Michel Lambert & Hernâni Faustino + Project Z Musical Ensemble + Sunset no Terraço

Juntos, porque diferentes

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo (excepto Project Z)

Contra as dominantes tentativas de uniformização do gosto musical, continuam as tentativas de dar a ouvir uma diversidade de abordagens ao mundo dos sons. Eis cinco delas – uma particularmente brilhante, a dos transnacionais Mure Mure (foto acima) – acontecidas na Parede, apenas no intervalo de alguns dias…

Se os meios de comunicação de massa (rádio, televisão) continuam a promover a homogeneização da música, com o objectivo de que todos oiçamos o mesmo (assim dita a lógica do lucro que transforma a arte numa indústria de lazer e entretenimento), alguns espaços públicos vão também insistindo em mostrar que são muitas e variadas as abordagens musicais (propriamente artísticas) do nosso tempo. Valha-nos a existência, entre outros, de locais como o Salão Brazil, em Coimbra, e a SMUP, na Parede, emblemáticos de uma teimosa resistência à fabricação do gosto único. No segundo caso, foram particularmente diferentes as propostas feitas entre 25 de Maio e 2 de Junho, ainda que os factores formais comuns incidissem sobre o jazz e a improvisação. Na Sociedade Musical União Paredense as apresentações musicais cobriram um enorme leque de abordagens, indo da folk ao experimentalismo electroacústico, com passagem por um par de adopções “retro” do rock. Os resultados foram igualmente diversos, como não podia deixar de ser.

O último desta série de concertos, a 2 de Junho, marcou muito especialmente quem o ouviu. Os Mure Mure do italiano Riccardo Luppi, no qual encontramos o português – radicado em Bruxelas – João Lobo, deixaram a assistência rendida. Impressionou a coesão de grupo do projecto, que sempre funcionou como se as improvisações da noite não o fossem de facto, dadas as mudanças de plano e direcção tomadas em bloco, tacitamente. Eram pelo menos três os domínios de acção: uma abordagem minimalista e ora repetitiva, ora recorrendo a bordões, com a voz da belga Lynn Cassiers e os saxofones e a flauta de Luppi a terem tratamento electrónico em tempo real e a funcionarem como o eixo dos “temas”; outra entrando pelos domínios da texturação abstracta, fosse por meio de “bricolage” sonora ou de ataques percussivos, com destaque para o contrabaixo-tambor do italiano Manolo Cabras e para a bateria de Lobo; a terceira surgindo como “impromptus” de free jazz, com os instrumentos acústicos a ganharem dianteira, dirigidos pelo sax tenor ou pelo soprano.

Muito sugestiva e imagética, a música do quarteto ia de um carácter paisagístico, numa sucessão de apontamentos impressionistas pontuados por suaves melodias, a crescentes entregas energéticas, movidas por um “drive” magnético e entusiasmante. Assim como não havia construção que não fosse desmembrada, todas as desconstruções davam lugar a novos edifícios, num incessante trabalho de criação / destruição / criação, no sentido dado por Bakunine («a paixão pela destruição é uma paixão criativa»), que não o sugerido por Walter Benjamin («o único trabalho evitado pelo carácter destrutivo é o da criação»), numa metodologia feita de conhecimento mútuo, escuta e respeito pelo outro, sentimentos positivos. Em suma, uma lição de como bem improvisar colectivamente.

Se o acima referido foi um dos concertos do ano para este ouvidor, já o solo de Chris Rainier no dia 25 de Maio resultou algo problemático. A motivação deste músico de origem australiana está em criar uma electroacústica com base no mais improvável dos instrumentos, uma guitarra havaiana de cordas de aço tocada na horizontal, ao colo. E improvável devido às conotações “folky” da própria sonoridade deste cordofone, o que só por si deixava expectativas quanto à actuação desta figura da música livremente improvisada pouco conhecida em Portugal. O que Rainier fez com a “lap steel” convenceu, mas já não o tratamento desta por meio dos dispositivos electrónicos que tinha ao dispor. Fez, inclusive, lembrar uma afirmação de um grande guitarrista da actualidade, Scott Fields: «Quando vou a um concerto de guitarra solo e verifico, antes de o mesmo ter início, que um dos pedais é um “looper”, dá-me uma dor de barriga.»

Pois foi o “looping” que Rainier escolheu como principal instância processante e se este é, já por si, o recurso electrónico mais básico e mais utilizado de sempre, o modo altamente nevrótico com que utilizou o processo tornou enervante e incomodativa a audição. É certo que o propósito era tocar algo de não-linear e fragmentário, interferindo com os formatos derivados da música popular anglo-saxónica (isto é: da Austrália, do Reino Unido e, muito particularmente, dos Estados Unidos), mas o guitarrista dava mais atenção à máquina do que à guitarra, ou seja, ao que fazia de menos interessante. A esse nível, esteve muito longe de Lynn Cassiers, cujas manipulações de sinal eram extensivas, ou seja, unas com a voz e equilibradas com esta, levando-a mais longe.

Pelo meio, a 1 de Junho, esteve a dupla canadiana de François Carrier e Michel Lambert, com o português Hernâni Faustino como convidado. Mais uma vez integralmente improvisada, a música que se apresentou era, no entanto, de assumidíssima identidade norte-americana, sempre tendo como chão e horizonte o jazz, dentro deste privilegiando as linhas condutoras do free bop, tendência surgida do cruzamento das tradições do hard bop e do free. Revelador é, aliás, o facto de o saxofone alto de Carrier ter pertencido a um dos maiorais da primeira corrente, Cannonball Adderley – foi com ele que este gravou “Something Else” e participou no “Kind of Blue” de Miles Davis. A “alma” do instrumento revelou-se no que o soprador do Quebec foi assombrosamente desenvolvendo ao longo da prestação do trio, com um incansável Lambert a alimentar continuamente, com a sua bateria, a “fire music” a que se assistiu no já mítico sótão da SMUP e Faustino a saber como manter as chamas vivas com o contrabaixo.

E se este concerto foi fantasmizado por Cannonball, o de 27 de Maio teve a pairar nele o espírito de Frank Zappa. Tocou o Project Z Musical Ensemble, iniciativa do baterista e vocalista Pedro Marques que, para o efeito, fez um corrido pelas canções mais rock, rhythm & blues e doo-wop  dos dois primeiros álbuns do difícil compositor, “Freak Out!” e “Absolutely Free”. O jazz esteve presente, sobretudo por via do baixo de Ricardo Giova, mas o que impressionou mesmo foram os solos carregados de blues do muito jovem guitarrista Luís Baptista, com o cantor Bruno Fernandes a sair-se igualmente muito bem, em especial nos registos soul. Alturas houve em que imaginámos o que seria, ali no meio, um duelo entre a guitarra e o violino de Corinna Horster, mas tal nunca se verificou, com a última a posicionar-se apenas como uma “backup voice” de Fernandes. Se isso tivesse acontecido, ter-se-ia chegado a um patamar ainda mais elevado do que aquele a que se chegou, mas o momento – um momento com duas horas de duração, com intervalo pelo meio – ficou pelo bom. O problema do que é bom está em ser inimigo do óptimo, e quando se trata de Zappa esse nível não satisfaz.

Logo no dia seguinte, 28, viria mais um regresso às raízes do rock. O evento pretendia dar música à observação do pôr-do-sol no terraço da SMUP, mas o dia estava de chuva, pelo que o Sunset no Terraço passou para o salão. Os animadores da “jam” eram os membros da banda Zanibar Aliens, conhecidos pelo “mix” que realizam de alguns estilos definitórios dessa área musical nas décadas de 1960 e 70, de uns Led Zeppelin ou uns Cream ao psicadelismo. Os irmãos Carl e Filipe Fernandes, Martim Seabra, Ricardo Pereira e Diogo Braga foram trocando de instrumentos, mas sempre incidindo numa bem esgalhada linguagem blues-rock, com ocasionais transições para o funk. Sempre improvisando, saliente-se. Das intervenções de outros músicos destacou-se a de Diogo S. Esparteiro, membro dos Cows Caos, dos Royal Bermuda e de vários combos com o violinista Gil Dionísio, figura da livre-improvisação portuguesa. Como se costuma dizer, isto está tudo ligado. Aliás, só o que é diferente pode juntar-se, implícito estando que não é por esse lado que chegam as tentativas de nos vestirem uma farda…