MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia, 18 de Maio de 2017

MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia

Agitações a Oeste

texto Rui Eduardo Paes fotografia José Félix da Costa

O “congresso” dos improvisadores realizado no Oeste português teve mais uma edição em meados de Maio, com o envolvimento de 80 músicos de 16 países. A vinda de George Haslam foi o grande trunfo, mas as atenções recaíram sobre uma portuguesa: a percussionista Sofia Borges. A jazz.pt assistiu ao último dia dos trabalhos – oito horas consecutivas de música – e aqui está o relato.

George Haslam, Ernesto Rodrigues, Nicola Guazzaloca, Miguel Mira, Noel Taylor, Paulo Curado, Helena Espvall, Paulo Chagas, Maria Radich, Alvaro Rosso, Mestre André, Steve Hubback, Manuel Guimarães, Miquel Jordá, Maria do Mar, Karoline Leblanc, Monsieur Trinité, Carlo Mascolo, Bernardo Álvares, Luiz Rocha, José Lencastre. Estas foram algumas das presenças – entre 80 de 16 países – em mais uma edição do MIA – Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia no fim-de-semana de 11 a 14 de Maio, na vila situada ao alto de Peniche. Tocaram em várias formações, fixadas previamente ou decididas em sorteio, e foram o público das actuações dos demais em vários espaços, entre eles as igrejas de S. José e S. Leonardo, daquele que é conhecido como o “congresso da improvisação” porque tem como objectivo juntar os praticantes desta metodologia da música criativa que é também toda uma estética, a fim de desenvolverem trabalho intensivo, experimentarem e trocarem ideias.

A jazz.pt assistiu ao último dia dos trabalhos, numa maratona de cerca de oito horas de música totalmente improvisada, com pausas apenas para desligar e ligar microfones e instrumentos eléctricos ou electrónicos. Como habitualmente, improvisadores de várias gerações, tendências e percursos puderam criar música sem ter em conta o que os diferenciava em termos de caminhos percorridos, conhecimentos técnicos ou preferências de estilo, apenas o que os unia. E como sempre, houve improvisações menos interessantes e outras que deslumbraram, como é de regra quando se conta apenas com a espontaneidade e o imediatismo das situações.

Deram-se a ouvir e foram ouvidos em grupos pequenos e nos “tutti” a que se deu o nome genérico de Ensemble MIA, apesar de serem vários os ensembles, na constituição, na condução e, necessariamente, nos conteúdos apresentados. No primeiro caso, a aleatoriedade (ou quase, porque se evitaram repetições de instrumentos) conviveu com a deliberação. Se a 11 se tinha promovido um duo de violinos entre Maria do Mar e Sarah Claman (esta em substituição de Mia Zabelka, que não pôde comparecer) e a 12 outro de trombones com Fernando Simões e Carlo Mascolo, e se a 13 tinham tocado os grupos Maresia & Co. (extensão da dupla de George Haslam e Mário Rua no álbum “Maresia”, de 2016), Camerata MIA (que tocou uma “medieval impro suite” de Paulo Chagas, com a curiosidade de Manuel Guimarães ter estado no órgão) e Rural Tableau (com uma partitura gráfica de Marialuisa Capurso), combinando intencionalmente algumas das presenças na Atouguia da Baleia em projectos inéditos e irrepetíveis, no dia 14 calhou a vez de essa pré-selecção de nomes dar vez aos grupos Dinah-Moe-Phone e Fanfarra Bizarra. Só os Baphomet já vinham de antes do MIA.

Comecemos o nosso relato por aí, tendo como cenário o auditório da Sociedade Filarmónica. Os Dinah-Moe-Phone pretendiam prestar tributo ao dinamofone, instrumento electromecânico inventado por Thaddeus Cahill no final do século XIX, com o trocadilho relativamente ao nome de um tema de Frank Zappa a fazer suspeitar outras conexões. Depressa se verificou que a improvisação encetada nenhumas conotações zappianas tinha, e mesmo o carácter electroacústico pretendido foi mais discreto do que se esperava. Era suposto que a electrónica de Rui Veiga, os objectos amplificados de Abdul Moimême e o trompete processado de Luís Guerreiro tivessem a adição do “laptop” do mesmo Paulo Raposo que no primeiro dia do Encontro inaugurara uma instalação sonora, mas este não se encontrava disponível. O seu lugar foi ocupado pela percussionista Sofia Borges e isso bastou para que o conceito mudasse radicalmente. Inclusive, em contexto de exploração tímbrica e textural com o contrabaixo de Bernardo Álvares a manter o tipo de “drone” rítmico utilizado em alguma música por computador, o piano de Carlo Mezzino e até o trompete introduziram elementos figurativos altamente contrastantes, recuperados do universo da música acústica. Foi curioso, até pelo facto de se ter mostrado que, nos terrenos da improvisação, o que acontece pode nada ter a ver com o que se proporciona.

Já o desfecho da prestação da Fanfarra Bizarra estava previsto, e no próprio nome. Era consciente a noção de que a vertente “fanfarra” estaria apenas no formato instrumental escolhido (sopros e percussão, apesar da inexistência de clarinetes e do desabitual número de saxofones, bem como de a dita percussão constar dos tambores norte-africanos de Pedro Castello-Lopes e da bateria de Felice Furioso) e no modo de ocupação do espaço público – a saber, a Fonte Gótica de Atouguia. Só a última intervenção naquele que foi o único concerto ao ar livre do evento se aproximou alguma coisa do que reconhecemos como uma marcha de rua, com os trompetes de Mauro Medda e António Alexandre Pinto, o trombone de Fernando Simões e os saxes de Miquel Jordá, José Lencastre e António Ramos a paralelizarem fraseados, num teatral mimetismo dos uníssonos filarmónicos. De resto, os músicos tocaram sentados, com a saída de Simões para fora do círculo a sublinhar, rompendo com a mesma, essa condição.

Igreja de S. José

Igreja de S. Leonardo

Karoline Leblanc

Baphomet - Sociedade Filarmónica

Jam-session

George Haslam

Mestre André

Ernesto Rodrigues e Ensemble MIA

Abdul Moimême

Carlo Mascolo

Grupo sorteado

Miquel Jordá

Nascida fora do MIA, mas com arranque este ano, a banda Baphomet teve a mais-valia de opor uma linguagem alicerçada sobre o rock àquela que vai dominando o campo da improvisação e, em consequência, o festival, num compromisso entre o legado do free jazz e a adopção de certos aspectos da música erudita contemporânea. Com o volume elevado, guitarras em distorção e electrónica noise, o projecto formado por Mestre André, Guilherme Carmelo, Paulo Duarte (em substituição de Jorge Nuno, presente ainda no CD debutante “Da Rosa Nada Digamos por Agora…”, acabado de sair), Pedro Santo e Monsieur Trinité está apostado numa versão do expressionismo livre com poucas amarras jazzísticas e, aparentemente, nenhumas cumplicidades com o indeterminismo de Cage ou a aleatoriedade de Stockhausen, se bem que o saxofone tenor de André nos faça por vezes lembrar Archie Shepp. Aliás, alguns praticantes da música improvisada “old school” que se tinham sentado para assistir à prestação foram muito rápidos em abandonar a plateia da Filarmónica – nem todos os participantes têm os horizontes tão largos quanto os dois mentores do MIA, Paulo Chagas e Fernando Simões. A música dos Baphomet é espessa e pesada, parecendo derivar mais da tradição do hard rock Seventies que originou o metal do que da mais comum linha psicadélica, mas tem uma fluidez e uma capacidade para se metamorfosear que surpreenderam.

A secção do Encontro de Música Improvisada de Atouguia da Baleia mais desejada por parte de todos os participantes é a constituída pelas “blind dates” inspiradas nas Companies de Derek Bailey. De há uns anos a esta parte substituíram-se os papelinhos com nomes dentro de um saco pela informática, para racionalizar o tempo disponível, mas o efeito é o mesmo. Este ano a primazia foi para os quintetos e sextetos (oito ao todo), e se o espírito condutor é colectivo, nestes agrupamentos “ad-hoc” há habitualmente um ou dois músicos que sobressaem. No domingo, chamaram a atenção o muito argumentativo violinista Quinto Fabriziani, George Haslam com o seu dissonante tarogato, a especialmente sensível e reactiva violoncelista Helena Espvall, a percussionista Sofia Borges, o oboísta (nesta ocasião) Paulo Chagas, o clarinetista Luiz Rocha com o seu apurado sentido performativo, o trombonista Carlo Mascolo e os seus multifónicos, tirando partido do cone de trânsito que liga ao seu instrumento através de uma mangueira, além de um muito jovem pianista que está a dar os primeiros passos nestas lides, João Silva, filho de João Paulo Esteves da Silva. 

O lado menos bom (e quando ainda se comentava o bom trabalho desempenhado por Ernesto Rodrigues na noite de sábado) foi o representado pelos Ensembles MIA, e muito devido às opções dos seus “maestros”. Se em 2016 testemunhámos as excelentes direcções de François Choiselat e Noel Taylor, com as sinaléticas desenvolvidas por Walter Thompson (Soundpainting) e Butch Morris (Conduction), se bem que o último tornando-se algo impositivo, e se nessa anterior edição Fernando Simões foi o responsável pelo mais divertido momento vivido em oito anos na Atouguia da Baleia, o que agora marcou esta parte conclusiva do cartaz foi ver a cantora Marialuisa Capurso a dar instruções verbais ao ouvido dos músicos, assim atrapalhando o que tocavam. Algo que infelizmente se repetiu em outras conduções, salvando-se a de Sofia Borges, portuguesa radicada em Berlim que nesta passagem pelo Oeste do País esteve particularmente bem. Terá sido ela, de resto, a figura em maior destaque do evento.

Em 2018 haverá mais, e pelo que nos foi adiantado pelos organizadores com algumas modificações de fundo e mais oferta, mudança essa incentivada pelo facto de o MIA ter recebido este ano a medalha de mérito da Junta de Freguesia local, em reconhecimento do seu contributo para a dinamização cultural da vila. Uma trajectória a seguir com toda a atenção, sabendo-se já que esta iniciativa até há pouco única no mundo levou a que outra de semelhantes moldes surgisse em Itália.