Festa do Jazz do São Luiz, 13 de Abril de 2017

Festa do Jazz do São Luiz

Todas as cores

texto Nuno Catarino e Rui Eduardo Paes fotografia Isabel Costa, Rosa Castro e Restart / Festa do Jazz

A 15ª edição do festival organizado pela Sons da Lusofonia juntou as várias cores que o jazz tem nos dias de hoje em Portugal, indo do hard bop dos Michael Lauren All Stars até à Lisbon Freedom Unit, com ambiciosas propostas de permeio como o Omniae Ensemble de Pedro Melo Alves, os Home de João Barradas ou o projecto Dentro da Janela de João Mortágua. Balanço mais do que positivo.

O arranque da 15ª edição da Festa do Jazz no passado dia 7 de Abril fez jus à importância que este evento dá ao ensino do jazz em Portugal, dedicando toda a noite de concertos a grupos representativos das escolas superiores do País, designadamente Universidade de Évora, Escola Superior de Música de Lisboa, Universidade Lusíada de Lisboa e Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo (Porto). A sessão terminou mesmo com uma selecção de estudantes destes estabelecimentos, com a designação de Big Band das Escolas Superiores, com direcção de Luís Cunha (o trompetista que está à frente da Orquestra de Jazz do Hot Clube de Portugal) e coordenação de Michael Lauren, professor de bateria na ESMAE. Só a partir do início da tarde de sábado 8 começaram a apresentar-se os grupos do circuito profissional escolhidos por Carlos Martins. E da melhor maneira, com o grupo Home, vencedor do Prémio Jovens Músicos, na Sala Mário Viegas. 

Vertiginosa criatividade

 

João Barradas

Hernâni Faustino e Luís Vicente

Joana Machado "Lifestories"

Bruno Pernadas "Worst Summer Ever"

José Salgueiro

Liderado pelo acordeonista virtuoso João Barradas, que se revelou ao mundo do jazz com o magnífico disco de estreia “Directions”, este é um projecto alternativo em que são exploradas ideias menos convencionais. Neste grupo, Barradas serve-se exclusivamente do acordeão MIDI, que ora soa a um piano eléctrico Fender Rhodes, ora a um sintetizador MiniMoog, rodeado por um ambiente rock. A acompanhá-lo estão jovens valores da cena jazz nacional, com destaque para Eduardo Cardinho no vibrafone e Mané Fernandes na guitarra elétrica - ambos os músicos já com provas dadas e discos publicados em nome próprio. No palco juntaram-se-lhes ainda Gonçalo Neto (guitarra eléctrica), Ricardo Marques (baixo eléctrico) e Guilherme Melo (bateria).

O sexteto trabalhou composições complexas, interpretando-as com vigor e dinamismo. Além da forte dinâmica colectiva, a qualidade individual dos intervenientes foi evidente, particularmente nos momentos a solo – notáveis as prestações de Barradas – que nesse dia receberia o Prémio RTP / Festa do Jazz como artista-revelação –, Fernandes e Cardinho, este construindo um solo que arrancou o maior aplauso da tarde. Esta música, enérgica, electrificada e rica, espelhou da melhor maneira a vertiginosa criatividade da nova geração do jazz nacional.

Seguiu-se o quarteto Clocks and Clouds, juntando Luís Vicente (trompete), Rodrigo Pinheiro (piano), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Marco Franco (bateria) numa prestação assente na improvisação livre. O grupo dividiu a sua actuação em dois longos temas, tendo o primeiro soado mais desligado. Cada elemento ia acrescentando elementos, com contrabaixo e bateria a garantirem uma base rítmica estável, o piano a desenhar motivos e o trompete a explorar texturas. Já a segunda improvisação pareceu coesa, o que muito se deveu à intervenção mais assertiva e dialogante de Vicente.

Em termos individuais, o destaque recaiu sobretudo no especialmente inspirado Rodrigo Pinheiro, tendo sido ele o principal fornecedor de ideias. Nota negativa: a sala exibia muitos lugares vazios e foi pena ver que, das dezenas de estudantes adolescentes que estavam na Festa - e que tinham livre acesso a todos os concertos! -, a grande maioria não tenha tido a curiosidade de espreitar formas musicais um pouco diferentes do cânone. Sem dúvida, um mau sinal relativamente à abertura de espírito dos futuros protagonistas do nosso jazz e à medida da sua juventude, que no passado recente – o formativo da nova vaga de músicos de jazz, tão bem representada no S. Luiz – era ainda sinónimo de inconformismo.

O último dos concertos do dia na Sala Mário Viegas foi da cantora Joana Machado com “Lifestories”, colecção de canções em formato jazz-pop-rock. A seu lado estavam Óscar Graça (teclados), Bruno Santos (guitarras), Romeu Tristão (baixo eléctrico) e Joel Silva (bateria). Joana Machado já não canta o jazz delicodoce que lhe era característico: a sua banda propôs uma música com “groove” e energia, feita de canções solarengas. “Baby Let’s Get Close” foi o sinal de partida, desde logo confirmando não só os méritos da exibição vocal da cantora como a versatilidade dos restantes músicos, que habitualmente distribuem os seus esforços em contextos puramente jazzísticos.

Numa passagem para a sala principal, agora designada de Sala Luís Miguel Cintra, tocou às 19h30 o Omniae Ensemble de Pedro Melo Alves. Baterista mentor do The Rite of Trio, um dos mais interessantes e originais grupos da jovem guarda nacional, Melo Alves apresentou um projecto ambicioso, vencedor da segunda edição do Prémio de Composição Bernardo Sassetti. O trabalho de composição e de arranjos é mesmo a essência deste grupo, que reúne alguns dos actuais talentos da cena jazz nortenha, como Gileno Santana (no trompete), José Soares (no saxofone alto), Mané Fernandes (na guitarra, aqui repetente, depois de ter tocado com os Home ao início da tarde).

Alves liderou um septeto que alternou entre uníssonos perfeitos e momentos de improvisação aberta, numa música que tem tanto de cerebral como de prazenteira. Se Fernandes já se tinha feito notar, voltou aqui a estar em evidência, solando com a sua guitarra banhada em efeitos. Mas mais do que de individualidades, esta música vive da força colectiva, sempre focada e sempre em alta intensidade.

Um dos concertos que mais expectativas geravam era o de Bruno Pernadas, que apresentou ao vivo o disco “Worst Summer Ever”. Editado em simultâneo com o rebuçado de pop imprevisível “Those Who Throw Objects at the Crocodiles Will Be Asked to Retrieve Them”, este disco mostrou a versatilidade de Pernadas como músico de ideias sem fim, do jazz à pop, arriscando sem receio. A acompanhar Pernadas estava um grupo de consagrados da cena jazz nacional: Sérgio Rodrigues (piano), Francisco Brito (contrabaixo), Joel Silva (bateria) e uma dupla de saxofones diabólica: Desidério Lázaro e João Mortágua. A música de Pernadas combina “samples” com instrumentação tocada em tempo real, mas a sua principal característica é a qualidade da escrita. Com motivos bem definidos e sedutores, os temas rapidamente conquistaram os ouvidos, abrindo a porta para os saxofones e deixando brilhar Lázaro e Mortágua – que se exibiram em grande nível.

Mais dentro da noite, o percussionista José Salgueiro apresentou o CD “Transporte Colectivo” – o seu de estreia na condição de líder, no que ao jazz respeita! Salgueiro contou com o apoio de João Paulo Esteves da Silva (piano), Guto Lucena (clarinete baixo e saxofone alto), Cícero Lee (contrabaixo) e Mário Delgado (guitarra eléctrica e banjo), além da actriz Ana Sofia Paiva, que declamou um texto em intervenções pontuais nos interlúdios. Esta formação de veteranos mostrou uma música sólida, executada por instrumentistas muito acima da média. Já de madrugada, no Jardim de Inverno, subiu ao palco o ensemble do Conservatório de Música de Coimbra. (N.C.) 

A quente

 

Pedro Neves Trio

Luís Barrigas "Songs With and Without Words"

Lisbon Freedom Unit

João Mortágua "Dentro da Janela"

Michael Lauren

A maratona de domingo começou igualmente pelas 15h30 na Sala Mário Viegas, e em grande tal como no dia anterior, com um dos grupos mais cativantes dos nossos dias, o Pedro Neves Trio. O repertório escolhido pelo pianista líder e pelos seus parceiros, Miguel Ângelo em contrabaixo e Leandro Leonet na bateria, foi o do álbum “05:21”, recentemente editado. Muito narrativa, senão mesmo cinematográfica, a prestação ficou marcada pelo lirismo das composições, por vezes remetendo-nos para Bach, para os impressionistas e até para o surrealizante Erik Satie, sempre ancorada na forma como, desde Bill Evans, se entende a liberdade nos termos do trio de piano jazz. A música apelou para a capacidade imaginativa do público e este deixou-se conduzir, enleado, pelas escolhas de extremo bom gosto do grupo, com a improvisação a acontecer a quente, tão determinante para os resultados quanto as partituras.

Mudado o “setup”, veio a vez de Cícero Lee mostrar o conteúdo de outro disco, “Those Who Stay”, com o acompanhamento de luxo, em conjunto ou com combinações diversas, de Desidério Lázaro nos saxofones, Tiago Oliveira na guitarra eléctrica, Carlos Gargia no piano e José Salgueiro na bateria. Se o contrabaixista mostrou novamente a sua largueza de recursos enquanto instrumentista, a sua escrita revelou-se menos interessante na prova dos nove que é uma situação performativa. Os destaques em cena foram para Lázaro, Oliveira e o sempre impressionante Salgueiro. O tema de conclusão foi entregue afirmativamente, com uma intensidade e uma alegria que se transmitiram de imediato para quantos ouviam e destes tiveram como resposta um merecido aplauso.

A maior enchente da tarde foi para “Songs With and Without Words” de Luís Barrigas, e a audiência gostou. Há, no entanto, um problema de raiz neste projecto. Centrado no formato da canção – a propriamente dita, cantada “com e sem palavras” –, o dilema da música apresentada pelo pianista e compositor residiu no próprio uso das vozes, as de Guida de Palma e Sofia Vitória. No modelo “sem palavras” ouvimo-las a fazer coro, não contribuindo mais do que para uma camada de cor, e quando ambas intervieram “com palavras” os resultados foram duvidosos, fosse pela qualidade dos por vezes algo melosos versos como por colocações de voz que tinham mais a ver com estilos de diva da música ligeira do que com o jazz ou a música criativa de hoje, muito em especial no caso de de Palma. Mas também se pôde ouvir um fabuloso duplo solo de Desidério Lázaro e João Capinha, além de outras superlativas intervenções dos mesmos em vários saxofones e em clarinete (Lázaro), com a sempre segura sustentação rítmica de Mário Franco no contrabaixo e Alexandre Alves na bateria. Ou seja, a actuação ficou equilibrada.

De corrida para a Sala Luís Miguel Cintra, aí encontrámos a Lisbon Freedom Unit para a derradeira matinée de domingo. Tal como antes tinha acontecido com os Clocks and Clouds, a plateia do maior auditório do S. Luiz estava ocupada em menos de metade. Decididamente, o público da Festa do Jazz tem pouca apetência para práticas mais atrevidas, inclusive quando, como no caso, estão reunidas algumas das figuras da música improvisada feita neste país que mais têm chamado a atenção da imprensa e dos programadores internacionais, constituindo aquilo que se designa como “supergrupo”: o noneto do guitarrista Luís Lopes inclui Rodrigo Amado (saxofone alto), Pedro Sousa (saxofone tenor), José Bruno Parrinha (clarinete baixo, saxofone soprano), Ricardo Jacinto (violoncelo), Pedro Lopes (gira-discos, percussão), Rodrigo Pinheiro (piano), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Gabriel Ferrandini (bateria, percussão).

A introdução e a saída do extenso tema totalmente improvisado, as únicas secções em que todos os membros do colectivo intervieram, fluíram em jeito de “drone”, com uma miríade de texturas a formarem-se e a desvanecerem-se no seu interior, abstractas sim, mas com a clara intenção de manterem uma atmosfera onírica. No meio disto, por exemplo, Amado fez um solo com matriz no hard bop, Lopes inseriu uma suave balada com ilações “bluesy” e Parrinha foi ainda mais melódico do que lhe é habitual, construindo muito com poucos elementos. Se a assistência que enchia os corredores e as escadarias do S. Luiz não compareceu ao acto por pressupor que este seria “vanguardista”, o certo é que a música executada esteve em linha com o jazz dito convencional.  No fim, foram muitos os que se levantaram das cadeiras para sublinhar o seu agrado. Este acabou por ser, de resto, um dos pontos mais altos de todo o festival.

Já caída a noite, fez-se ouvir o novo “Dentro da Janela” de João Mortágua, com José Pedro Coelho (saxofone tenor), Miguel Moreira (guitarra eléctrica), José Carlos Barbosa (contrabaixo) e José Marrucho (bateria) a apoiarem o saxofonista alto. O disco apresentado e o concerto foram os da consagração como compositor e executante daquele que, no dia anterior, recebeu o Prémio RTP / Festa do Jazz como músico do ano. Uma escrita contemporânea e com sólidos argumentos serviu uma performance viva, entusiástica e que passou uma mensagem de força e inventividade. A articulação entre Mortágua e Coelho foi impressionante, e sobretudo na entrada em que apenas os dois tocaram. A escolha de sons e efeitos de Moreira revelou-se essencial para o variado cromatismo da música e o par Barbosa / Marrucho manteve a propulsão num nível elevado.

O fecho da Festa do Jazz coube aos Michael Lauren All Stars, com o baterista e docente da ESMAE coadjuvado por alguns dos melhores nomes da cena jazz nacional: Hugo Alves (trompete), José Menezes (saxofone tenor), Nuno Ferreira (guitarra eléctrica), Jeffrey Davis (vibrafone), Diogo Vida (piano) e Carlos Barretto (contrabaixo). O contraste com os concertos do dia no mesmo espaço foi enorme, pois a música rumou pelo legado do pós-bop, com improvisações bem esgalhadas e muito “swing” em versões de clássicos do jazz e temas de membros do septeto. Mais uma vez ficaram demonstradas as capacidades dos fantásticos músicos que ali se reuniram para um novo “take” do alinhamento de “Once Upon a Time in Portugal”.

Depois de entrega de prémios dos concursos de escolas que tinham decorrido no Jardim de Inverno ainda se apresentou o Combo ESML 2016, contemplado no ano passado, e já quando a segunda-feira se iniciava nos relógios. Antes, foram também alvo dos Prémios RTP / Festa do Jazz os Azul de Carlos Bica (grupo do ano) e o Alexandre Coelho Quarteto (banda-revelação), tendo o galardão de mérito ido para a Porta-Jazz. (R.E.P.)