Portalegre JazzFest, 3 de Abril de 2017

Portalegre JazzFest

Um festival de sensações

texto Luís Filipe Meira e Gonçalo Falcão fotografia Mafalda Sousa (Portalegre JazzFest)

Da quase absoluta tranquilidade da parceria entre João Hasselberg e Pedro Branco (foto acima) ao tsunami sonoro dos Shelter, o evento do Alto Alentejo teve mais uma edição, este ano dando especial atenção ao jazz da Noruega. A jazz.pt dá-vos conta do que por ali aconteceu…

Na edição de 2017 do Portalegre JazzFest houve a vontade de retomar a velha tradição de criar vários polos de atracção do festival. Tentativa apenas parcialmente conseguida, já que, devido ao mau tempo, gorou-se a possibilidade de o duo PeterGabriel fazer pequenas actuações pelas ruas de Portalegre como forma de promoção do evento. A acção acabou por se resumir a um pequena mostra no Centro Comercial Fontedeira. Ainda assim, tivemos o saxofonista Pedro Sousa e o baterista Gabriel Ferrandini em “live act” no Gémeos Bar, na sexta e no sábado, aposta curiosa com o seu quê de risco, pois a esmagadora maioria dos frequentadores daquele bar tem com a música uma relação distante e impessoal.

A coisa acabou por correr bem. Armando e Armindo Trindade devem ser elogiados por agarrarem a proposta que lhes foi feita e assim participarem na elaboração de um evento importante para a cidade. O concerto dos PeterGabriel foi suficientemente intenso para não deixar ninguém indiferente. O som potente e incisivo do duo levou a uma selecção natural do público. Ali não houve meias-tintas, os que ficaram sabem porque o fizeram, tais como os que abandonaram. Ferrandini, que o ano passado esteve aqui com o Red Trio, é muito mais do que um baterista, é um verdadeiro mágico da percussão. Pedro Sousa é um improvisador notável de linguagem agressiva, complementando na perfeição o ímpeto do seu parceiro musical. A prestação dos PeterGabriel na sexta-feira – sábado não estive presente – foi uma espécie de réplica ao tsunami que varreu o CAEP com o projecto Shelter de Ken VandermarkeNate Wooley.

Este primeiro capítulo do Portalegre JazzFest com Shelter, João Hasselberg & Pedro Branco e os PeterGabriel pode ser consubstanciado numa variante de “From Order to Chaos”, o recente álbum de Hasselberg e Branco. Ou seja, este fim-de-semana jazzístico em Portalegre viveu-se entre o caos sonoro dos Shelter e a tranquilidade (quase absoluta) da música de Hasselberg, Branco e dos seus distintos convidados. A música do primeiro grupo é de alto grau de dificuldade, mesmo para melómanos, pois é criada quase por impulso a partir da desarmonia e da devastação sonora que quatro músicos de personalidade muito forte aportam à banda. Em entrevista ao jornal Público, Vandermark reconheceu as dificuldades em conciliar o som numa formação em que não existem líderes: «(…) num grupo como este, em que os quatro decidem que música tocar, como compor, como organizar a música, é preciso colaborarmos mesmo para soarmos a um ensemble e não a um grupo diferente em cada tema (…).»    

Este ensemble tem poucos meses de existência e o seu primeiro disco foi agora editado. Talvez por isso, o tsunami que se fez sentir no CAEP demorou algum tempo a formar-se, começando com um mar mais ou menos agitado até que, logo a seguir a um diálogo intenso de Nate Wooley com o seu trompete, as ondas sísmicas galgaram o palco, submergindo a sala completamente quase durante uma hora, deixando-nos sem fôlego agarrados às cadeiras como se de bóias de salvação se tratasse. A réplica viria a acontecer mais tarde, como referi, com Sousa e Ferrandini, no Gémeos Bar.

A noite de sábado com João Hasselberg, Pedro Branco e convidados seria bem mais calma. Diria mesmo que foi de uma tranquilidade quase absoluta. O mar revolto e fantasmagórico de sexta-feira com ondas sonoras devastadoras deu lugar a um imenso lago de águas calmas, tépidas e trasparentes, apenas agitadas aqui e ali pelo som mais estridente e agressivo de um qualquer “intruso”… Tal como o saxofone de Albert Cirera em “I Would Prefer Not To”. “From Order to Chaos”, álbum editado já este ano para a Clean Feed, e “Dancing Our Way to Death”  - primeiro disco desta parceria -, lançado no final do ano passado, foram a base de um concerto com cinco convidados que se foram revezando no palco para a interpretação de temas de alma jazzística, sem dúvida, mas de definição complexa. A revista “online” norte-americana All About Jazzchamou-lhe «jazz de câmara». Talvez seja ou antes pelo contrário, pouco importa. O que importa é que os dois discos são muitos bons e o concerto também foi, pesem as alterações constantes no “line up”da banda, com a sucessiva entrada e saída de músicos, o que acabou por se reflectir no desenvolvimento do concerto.

Um belo concerto, sem dúvida, não só pela qualidade de todos os músicos envolvidos – Afonso Pais, João Paulo Esteves da Silva, João Lencastre, Afonso Cabral e Albert Cirera – mas também pela diversidade e pelo cruzamento de vários géneros na construção de uma série de temas de qualidade assinalável. O único senão, digamos assim, foi o “encore”com Hasselberg e Branco a recriarem o clássico “My Girl”,  escrito por Smokey Robinson e popularizado pelos Temptations e por Otis Reding. A recriação é muito curiosa, interessante mesmo, mas curta, demasiado curta. O público merecia um “encore” mais longo e consistente. (L.F.M.) 

Noruegueses & etc.

 Shelter

Nate Wooley

Jasper Stadhouders

Pedro Branco e João Hasselberg

Afonso Pais

João Paulo Esteves da Silva

Albert Cirera

Klaus Ellerhusen Holm

David Stackenas

Friends & Neighbours

Thomas Johansson

Em fim-de-semana de Benfica-Porto, fomos para o interior. Portalegre jogava a segunda parte do seu festival de jazz e nós não o queríamos perder, mas, no final da partida, ficámos com a amarga sensação de que Portalegre podia aproveitar melhor as oportunidades criadas. Guimarães é um caso exemplar desse aproveitamento do jazz para promover uma cidade junto dos seus munícipes e de quem a visita. Paredes de Coura com o rock ou o Porto com o Indie são outros exemplos. Não são os lugares do auditório que o fazem, é a representação de uma ideia, que cria uma imagem de sofisticação e estilo de vida. Em Guimarães, o festival é música mas também é promoção. Em Portalegre, a Câmara parece não ter ainda sabido usar este investimento e a coisa acontece por si e para si, sem mais. Como se as cerejas do Fundão se vendessem lá, aos locais e visitantes, e o município não as aproveitasse para a valorização da sua terra.

A Banda da Armada, Virgem Suta, Berg e UHF fazem a dieta musical portalegrense no mês de Abril e, por isso, até é de estranhar que a plateia esteja composta, mas não lotada. Lembro-me do meu primeiro ano de faculdade fora de Lisboa: de Paco Bandeira a jazz marchava tudo. Havia tão pouca coisa no Funchal que íamos a todas. Há menos concertos num mês em Portalegre do que num fim-de-semana num dos bares do Cais do Sodré, em Lisboa. Quando em Portalegre há um concerto, a preço de imperial, por que é que as pessoas não vão? A autarquia e a organização deveriam ver o que é que está a falhar.

Chega de considerandos e passemos à música. A inauguração do segundo capítulo do Portalegre JazzFest coube aos Ballrogg, grupo sueco/norueguês que veio a Portugal com o seu novo guitarrista. Fundados em 2006, começaram por ser um duo de clarinete e contrabaixo muito focado no jazz de Eric Dolphy. A adição de um guitarrista no terceiro disco mudou completamente o som e o foco da música, que usa o minimalismo como ponto de partida. O quarto, editado pela portuguesa Clean Feed, toca uma música belíssima que parte de elementos mínimos, de repetições, sobre as quais evoluem as improvisações. Os Ballrogg conhecem os manuais do minimalismo, do “phasing” de Steve Reich ao melódico de Wim Mertens (em “Maximizing the Audience”) e usam todos os recursos em versões jazzísticas.

No Centro de Artes e Espectáculo de Portalegre foram sábios em aproximar o palco da plateia, tocando em cima da primeira fila, dentro do público, com um som forte e ao mesmo tempo pormenorizado. Há temas de uma beleza enorme e a instrumentação inaudita – clarinete, contrabaixo e guitarra – revela-se particularmente boa para este jazz minimalista, capaz de uma enorme serenidade pela ausência da bateria, com o contrabaixo como principal responsável pela condução rítmica. Ivar Grydeland, o principal guitarrista do grupo, foi nesta apresentação substituído por David Stackenäs, que encaixou na perfeição: que bom som tem! Roger Arntzen, que já ouvimos o ano passado com os Chrome Hill, afirma-se como um músico muito interessante e versátil, embora discreto. Já o clarinetista Klaus Ellerhusen Holm tocou frequentemente com ar a mais no clarinete, em momentos que pediam clareza e assertividade. Uma música fácil de ouvir e capaz de satisfazer o ouvinte mais experimentado e o iniciante, pela sua beleza simples, sem que seja evidente.

Portalegre tem tido uns “after-hours” catitas no bar por cima do auditório, um local confortável e com bom som. Mas este ano mudou de estratégia e regressou a uma boa ideia, mas que tem que ser melhor trabalhada: distribuir os concertos pelas ruas e pelos bares locais de forma a marcar o festival, de forma mais indelével, na cidade. À partida parece uma visão interessante, para aproximar a música das pessoas, mas o problema é que a maior parte dos frequentadores destes locais não se quer aproximar da música. No bar Club Lounge a música é meramente funcional, uma sopa de clássicos de rock, para que os clientes reconheçam todos os temas. Programar num espaço deste tipo uma música que pede atenção e que não é apenas uma almofada para encher os espaços vazios das conversas, não é fácil. Há ecrãs com futebol, conversa e demasiado fumo. De louvar a disponibilidade dos donos do bar em receber os concertos e a verdade é que a maioria dos presentes não se foi embora, mesmo que não tenha revelado interesse pela música ou respeito pelos músicos.

No palco estava o duo Party Knüllers (constituído pela estrela americana Fred Lonberg-Holm - violoncelo e electrónica - e o baterista norueguês Ståle Liavik). O concerto curto, como a situação pedia, foi intenso, com Longberg-Holm a usar frequentemente a distorção no violoncelo e a bateria desengonçada de Liavik em permanente actividade. Os músicos interpretaram bem aquela situação complicada e tocaram de acordo com o que era possível/necessário. Espera-se que tenha ficado alguma semente de interesse por uma música livre e feita no momento naqueles jovens que permaneceram, entre o gozo e a descoberta de uma música (ainda) estranha.

No último dia tocou o quinteto nórdico Friends & Neighbours, com dois sopros na frente (trompete e saxofone), piano, contrabaixo e bateria. Apesar de o nome do grupo ter sido retirado de um disco menor de Ornette Coleman, não há nem sombra de “harmolodics” ou de free jazz nas composições dos noruegueses. Os temas, feitos de melodias com blues dentro, num “abstract hard bop”, com os factores soul sujeitos a uma série de jogos de improvisação que os partem em bocados e abrem processos de abstracção. Impressionaram particularmente o piano de Oscar Grönberg e o contrabaixo de Jon Rune Strøm. Mais um concerto que pode ser ouvido a dois níveis: pelo prazer das melodias e dos processos, mas também pela qualidade da improvisação e d “gaming” que o grupo construiu (neste sentido, a aproximação a “Cobra“ de John Zorn seria mais apropriada do que a obsessão em filiar os noruegueses em Ornette, mesmo no de “Soupsuds”). Apesar da força da música do grupo, há um limite de intensidade que não conseguem ultrapassar... faltou algum fogo americano ou indisciplina a esta noite.

Seguiu-se mais uma sessão dos Party Knüllers, que correu como a anterior e acabou esta edição da festa de Portalegre, reforçando os laços jazzísticos entre Portugal e a Noruega, que começaram em 1975 com a actuação de Karin Krog no Cascais Jazz. O 14º Portalegre JazzFest fez-nos querer voltar para ouvir o 15ª… (G.F.)