Jazz’Aqui, 29 de Março de 2017

Jazz’Aqui

Missão cumprida

texto Rui Eduardo Paes fotografia Joana Patita e Miguel Pires

O festival de apresentação do jazz português em Berlim foi um sucesso, lotando o Kunstfabrik Schlot e dando ao público local a noção de que algo de especial se passa no nosso país. Se as actuações do Marco Santos Trio e dos Slow is Possible arrancaram entusiasmados aplausos, o delírio aconteceu com os recém-estreados The Mantra of the pHat Lotus de Mané Fernandes.

Associação formada com o objectivo de promover o jazz dentro e fora de portas, a Jazz’Aqui organizou em Berlim uma mostra de alguma da melhor e mais jovem música nacional, primeira de um périplo que em anos próximos pretende levar grupos portugueses a outras metrópoles do mundo – para já, fala-se em Nova Iorque, Paris e Copenhaga. A apresentação do projecto decorreu em Novembro passado naquela cidade alemã, com João Hasselberg e Pedro Branco, e entre 23 e 25 de Março ali se apresentaram o Marco Santos Trio, Rui Faustino a solo, Slow is Possible, Cat in a Bag e Mané Fernandes com uma nova formação, The Mantra of the pHat Lotus. O local escolhido foi o Kunstfabrik Schlot, espaço muito semelhante nas suas características ao Hot Clube, mas com o triplo da dimensão deste, tendo os três dias de concertos albergado um total de 450 pessoas, entre alemães, uma boa representação da comunidade lusa local e um surpreendente número de italianos e ingleses. O resultado ultrapassou as expectativas mais optimistas.

Na quinta-feira 23, o Marco Santos Trio mostrou em Berlim o trabalho desenvolvido duas semanas antes, numa residência artística em Pombal, pelo baterista e percussionista Marco Santos com Diogo Duque (trompete e flautas) e João Frade (acordeão). Uma surpresa: todos eles utilizaram adições electrónicas. A proposta era aliciante, combinando características do jazz eléctrico (nas passagens mais processadas o trompete de Duque chegou a lembrar Randy Brecker) com elementos de world music, sobretudo a de origem africana (um dos momentos altos aconteceu com Santos a tocar um “talking drum”). Se a actuação começou algo tentativamente, confirmando que os materiais ainda não tinham sido rodados, foi crescendo ao longo da noite e convenceu o público. No segundo “set”, a música foi entregue com afirmação e entusiasmo, tendo Frade mostrado que o acordeão é um instrumento tão apropriado para o jazz quanto qualquer outro e Duque revelado as suas qualidades de flautista lírico. Esbatendo as artificiais fronteiras entre “mainstream” e “vanguarda”, o conceito musical aplicado por Marco Santos e pelos seus pares tem tanto de fresco quanto de inusitado, passando por aquele nível de excentricidade que é sempre bem-vindo. Em conversa com o líder do trio, a jazz.pt ficou a saber que o objectivo, num futuro breve, é colocar os temas ali interpretados em disco.

A primeira parte do serão de sábado ficou a cargo de Rui Faustino, baterista que reside entre Berlim e Lisboa. O repertório foi o mesmo de uma prestação recente na SMUP sobre a qual aqui publicámos reportagem. Evidenciando algumas referências na escrita de Steve Reich para percussão, aquilo que decorrera bastante bem no sótão da Parede teve algumas dificuldades em passar num ambiente de bar e num contexto de festival de jazz. Eram visíveis a agitação e a impaciência nos presentes, dada a dificuldade de conexão com os dificílimos – exigindo ao executante uma enorme destreza – planos métricos explorados pelo músico solista. A audiência aplaudiu simpaticamente o esforço, mas os comentários não variaram da noção de que foi um concerto «frio» e «tecnicista».

O contrário do que se passou após o intervalo, e malgrado as más condições sonoras que marcaram a prestação dos Slow is Possible – com o piano muito alto na mistura e a guitarra pouco se fazendo ouvir. Na apresentação do álbum “Moon Watchers”, com data de edição esperada para os próximos meses, o sexteto da Beira Interior mostrou que tem mais para dar além do que lhe ouvimos em alguns dos mais importantes festivais do País, durante o ano de 2016. Se as abordagens do grupo não foram – continuaram a não ser – as mais típicas do jazz, a forma despojada, autêntica e plena de energia com que João Clemente (guitarra eléctrica), Bruno Figueira (saxofone alto), André Pontífice (violoncelo, brilhando num solo de uma emoção extrema), Nuno Santos Dias (piano, e particularmente virulento nos ataques ao teclado), Ricardo Sousa (contrabaixo) e Duarte Fonseca (bateria) interpretaram os novos temas arrancou literalmente a audiência das cadeiras. Ambiências cinematográficas e classicizantes coexistiram com uma propulsão “groovy” e até swingante e com arremedos de metal, em “mixes” de situações que por vezes ocorriam na mesma peça.

Marco Santos Trio

Marco Santos

João Frade

Rui Faustino

João Clemente

Nuno Santos Dias

Duarte Fonseca

The Mantra of the pHat Lotus

Mané Fernandes

Pedro Vasconcelos

Ricardo Coelho

Três elementos dos Slow is Possible, designadamente Figueira, Clemente e Fonseca, juntaram-se ao baixista João Lucas na primeira parte da sessão de dia 25, sábado, sob a designação Cat in a Bag. O quarteto tem por “modus operandi” improvisar sobre “riffs” de baixo eléctrico ou malhas de guitarra muito simples, mas as coisas não lhe correram bem. A música saiu mole e sem substância, com os intervenientes a aperceberem-se disso e a tentarem dar-lhe vida, sem sucesso. Com bases de sustentação nos blues e até no country (via João Clemente, que foi quem esteve melhor no conjunto), o “gig” ora tentou a via da desconstrução abstracta, segundo os parâmetros da música livremente improvisada, ora procurou força no rock mais maciço. De uma maneira ou de outra, perdeu-se nos seus próprios meandros. Acontece. De novo, as palmas soaram brandamente.

Mal esperavam os presentes a tempestade que se seguiria. Ao segundo concerto (o primeiro foi na Casa da Música), The Mantra of the pHat Lotus parecia ter toda uma rodagem por detrás, tão segura, assumida e exuberante foi, no Schlot, a performance da banda do guitarrista Mané Fernandes com José Soares (saxofone alto), Ricardo Coelho (vibrafone, percussão e electrónica), Filipe Louro (contrabaixo) e Pedro Vasconcelos (bateria, percussão). E tão fora dos parâmetros habituais também: o projecto funde o jazz com o hip-hop, e fá-lo de forma pouco expectável, na procura de planos rítmicos estranhos, associando tempos diferentes e recorrendo a tradições várias do planeta. Foi uma agradável surpresa, e tanto para o público alemão como para este ouvidor. Alguns truques com a finalidade de pegar a plateia pelos ouvidos foram usados, mas isso definiu o grau de inteligência que geriu a atitude positivista e altamente criativa do quinteto. Se o efeito de grupo era esmagador, os solos não foram menos preciosos, e designadamente os de Fernandes, que consta já entre os mais cativantes dedilhadores de Portugal, de Coelho no vibrafone e de Soares no sax. O MC da festa, esse, foi claramente Vasconcelos, um baterista de quem, decerto, muito se falará daqui por diante.

O público – apinhado numa sala totalmente lotada – delirou, já consciente de que algo de especial se passa na cena portuguesa, em continuidade com o que tinha ouvido da parceria João Hasselberg / Pedro Branco, do Marco Santos Trio e dos Slow is Possible. Missão cumprida. Pelo menos a deste primeiro passo de um trabalho de divulgação que se espera longo e difícil...