AFF Trio + Staub Quartet, 20 de Março de 2017

AFF Trio + Staub Quartet

Compor de outro modo

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Improvisação e composição instantânea são uma e a mesma coisa, o que quer dizer que uma música “improvisada” pode ser mais estruturada do que uma “composta” no momento. O mais não seja porque improvisar é compor de outro modo. Dois conceituados grupos nacionais comprovaram isso mesmo neste mês de Março.

Nos domínios da música improvisada, há quem utilize o termo “composição instantânea” para distinguir a improvisação de carácter mais estruturado daquela que, aparentemente, tem menos preocupações com a forma. Dois recentes concertos realizados na SMUP (Parede) deitaram por terra essa separação de águas. Improvisar é sempre compor no momento, e se aquilo que resulta soa mais ou menos estruturado só depende das características dos músicos envolvidos, não existindo receitas definidas ou definitivas para chegar ao que ouvimos.

No passado dia 2 de Março, o trio formado por Francisco Andrade nos saxofones tenor e alto, Ricardo A. Freitas em baixo eléctrico e Marco Franco na bateria apresentou uma música em que iam surgindo padrões rítmicos e frases melódicas, por vezes com retomas desses materiais mais adiante. Ficou a impressão de que havia pelo menos algumas partes escritas no trabalho apresentado, mas a verdade é que o concerto foi integralmente improvisado, sem quaisquer elementos previamente combinados – a referenciação em Ornette Coleman surgida aqui ou ali aconteceu espontaneamente. Mais: foi a segunda vez apenas que o AFF Trio se apresentou em público, tendo a primeira decorrido mais de um ano antes, numa sessão no Desterro, em Lisboa. Neste intervalo de tempo os três músicos nunca ensaiaram juntos e o “soundcheck” desse final de tarde demorou apenas cinco minutos. Acontece, simplesmente, que neste grupo estão reunidos improvisadores que também compõem (leia-se: escrevem) e que têm a percepção de que improvisar é simplesmente outra maneira de compor, com a diferença de que o seu tempo é o da execução.

No dia 17 do mesmo mês, foi o Staub Quartet que tocou no mesmo espaço do concelho de Cascais, para apresentação do álbum “House Full of Colors”, acabado de editar pela JACC Records. A opção pelo formato “música de câmara improvisada”, a existência de um disco e a maior longevidade do projecto (o seu concerto debutante foi em 2014, durante o Barraca Fest) poderiam indicar uma maior sedimentação da música proposta, mas os factos revelam que Carlos “Zíngaro” (violino), Miguel Mira (violoncelo afinado como um contrabaixo), Marcelo dos Reis (guitarra sem e com preparações) e Hernâni Faustino (contrabaixo) fizeram poucos concertos juntos e também nunca quiseram “partir pedra” numa sala de ensaios. Aliás, este registo ao vivo data de uma actuação no Salão Brazil, em Coimbra, no já distante ano de 2015. O certo é que a improvisação ouvida na Parede pareceu bem menos “organizada” do que a dos AFF, e até dos Reis, que em anteriores “gigs” do quarteto agira como o elemento estruturante do todo, introduzindo cadências e bordões ou colando as partes com um especial sentido de foco, demitiu-se desta vez dessas funções. O que não impediu que a prestação sugerisse por vezes um Shostakovich do século XXI. Nestes domínios, o que parece pode não ser.

AFF Trio

Ricardo A. Freitas e Francisco Andrade

Hernâni Faustino e Carlos "Zíngaro"

Marcelo dos Reis e Miguel Mira

O AFF Trio tocou um jazz entre a estética do free e algo que poderia ter saído da mente sincrética (rock, funk, soul, etc., etc.) de Bill Laswell, se bem que a pedaleira de efeitos de Freitas fosse mais comedida do que a do baixista norte-americano e o músico de Oeiras não tenha o fascínio deste pelos subgraves.  O Staub Quartet incluiu nos seus igualmente largos padrões de acção o jazz cigano, por insistência de Marcelo dos Reis, e a folk, esta graças a algumas linhas lançadas a jogo por “Zíngaro”. Talvez porque estas combinações fossem mais improváveis do que as do trio, a intuitividade da improvisação foi igualmente mais clara – a finalidade criativa, essa, não variou muito. Os quatro Staub foram tão “compositores” quanto os AFF – apenas não quiseram que isso definisse a música tocada. Ambos os caminhos valeram por si mesmos, sem se contraporem.

Afinal, improvisação significa liberdade, mesmo que esse ideal assim designado, no seu absoluto, seja inalcançável…