The Rite of Trio, 3 de Março de 2017

The Rite of Trio

Comprovação em Lisboa

texto Nuno Catarino

O burburinho gerado pelo álbum “Getting All the Evil of the Piston Collar!” ficou justificado com a apresentação lisboeta do grupo do Porto na Culturgest. O concerto manteve-se em alta tensão entre o jazz e o rock, mas terminou com um tema atmosférico e cantado que destoou de tudo o resto.

O ciclo “Jazz +351”, programado por Pedro Costa (Clean Feed), tem levado à Culturgest algumas das propostas mais relevantes da actual cena jazz nacional. E estas são cada vez mais, porque todos os anos há dezenas de novos discos publicados, há centenas de músicos em actividade, há propostas mais variadas e mais criativas. A última edição do ciclo, no passado dia 2 de Março, contou com The Rite of Trio e, mais uma vez, a performance confirmou a pertinência da escolha. O trio vem do Porto e, na sequência do seu disco de estreia, editado pela imparável Carimbo Porta-Jazz, vinha gerando algum burburinho.

O grupo de André Bastos Silva (guitarra eléctrica), Filipe Louro (contrabaixo) e Pedro Melo Alves (bateria) apresentou no Pequeno Auditório da Culturgest a música do seu disco de estreia, “Getting All the Evil of the Piston Collar!”. Se o título é inesperado e extravagante, também o é a sua música. O trio combina momentos de perfeita swingadela “old school” com riffalhadas de rock sujo, alternando entre uníssonos milimétricos e improvisação explosiva. E por vezes tudo isto acontece dentro do mesmo tema, no espaço de poucos segundos.

A banda apresentou o repertório do disco de forma irrepreensível: até os temas foram tocados pela mesma ordem em que surgem no álbum. “Serious Business” abriu a actuação, mostrando uma música que vive da surpresa constante, assente em quebras de ritmo, mudanças súbitas, sobressalto permanente. Foi pena a falta de comparência do público, que faltou à chamada - estaria apenas cerca de meia casa. Pela parte que lhes competia, os músicos cumpriram.

A bateria de Pedro Alves destacou-se desde logo. Não apenas pela versatilidade de recursos que empregou, mas sobretudo pela precisão com que interveio em cada momento, pela minúcia e pela atenção ao detalhe. O contrabaixo de Louro foi um eixo estável, ocupando os espaços vazios e sempre fazendo a ponte entre guitarra e bateria. A guitarra de Louro mostrou-se competente, eficaz nos “riffs” rock, delicada nos ambientes mais subtis, aventureira a mergulhar nos pedais de efeitos.

A actuação foi homogénea, com excepção do último tema. Para esse fecho, chamado “Symbols”, o grupo abrandou e alterou o registo; do surpreendente jazz-rock mudou para uma toada quase atmosférica. Ao trio juntou-se a cantora Beatriz Nunes, que encheu o palco com a sua voz fantasmagórica. Percebeu-se a ideia de funcionar como contraponto à energia geral da actuação, mas depois de toda aquela tensão, esse tema final soou como uma despedida algo decepcionante.