Eel Slap + Crua & Mestre André, Eduardo Chagas, 27 de Fevereiro de 2017

Eel Slap + Crua & Mestre André, Eduardo Chagas

Entre linhas

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Há mais formas de equacionar o jazz e a música improvisada com o rock do que as propostas pela fusão e pela colagem. Assistimos a duas muito diferentes, uma proposta por músicos de jazz que andam a desafiar as fronteiras do género e a outra de instrumentistas do rock insatisfeitos com as imperantes limitações de estilo, tanto assim que chamaram a tocar consigo figuras de outras áreas. Os resultados convenceram.

No intervalo de uma semana, pudemos assistir na Parede (SMUP) a dois concertos que testemunharam bem a diversidade de aproximações que o jazz e a improvisação vão tendo com o rock, ou vice-versa. O primeiro aconteceu no passado dia 21 de Fevereiro com o recém-estreado duo Eel Slap (foto acima), formado pelo guitarrista Pedro Branco e pelo baterista (também manipulando percussão electrónica) João Lencastre. O outro teve lugar dia 25, concluindo uma série de seis actuações em que o grupo Crua teve uma série de convidados, entre músicos individuais e grupos, no caso Mestre André em electrónica e saxofone tenor e Eduardo Chagas no trombone.

As duas actuações partiram de campos opostos dos idiomas musicais em equação. Os Eel Slap tiveram como fundamento e horizonte o jazz, ou não fossem Branco e Lencastre reconhecidos cultores do género, enquanto os Crua (Carlos Carvão em guitarra, Daniel Neves na percussão, em vez dos seus mais habituais dispositivos electrónicos, e André Hencleeday na bateria) deram conta em todos os momentos do seu enquadramento no rock, nesta apresentação entrando em pleno domínio do “drone” exploratório. De uma forma ou da outra, coincidiram na utilização de distorções e “feedbacks”, de situações “groovy” e do tipo de densidade eléctrica que encontramos em frentes como o prog, o hardcore ou o metal.

Branco iniciou a prestação dos Eel Slap com uma malha que poderia fazer lembrar uma referenciação conjunta em Derek Bailey e Fred Frith se não fosse a sua clara categorização jazzística. À medida que o tempo passava essa configuração foi-se transformando, com a guitarra deixando de soar como tal, as cordas e os pedais entregando-nos o que parecia ser uma gaita-de-foles sobre uma orquestra sintetizada, com “loops” sobrepondo-se em camadas, saturando o espectro sonoro e agigantando o factor “power duo” até ao extremo. Do lado de Lencastre vinham ritmos quebrados, texturas percussivas de pura compulsão, um ou outro “break”. Foi como se David Torn se tivesse rendido à estética do chamado pós-rock. Quando o mesmo João Lencastre se virou para os “pads”, também algo das músicas electrónicas de dança entrou nas nuvens de som, abrindo o ADN da música. Pelas expressões de espanto da assistência, esta não estava à espera de uma proposta assim.

No começo do concerto dos Crua, compreendeu-se de imediato o motivo da presença de Eduardo Chagas, instrumentista que habitualmente encontramos nos contextos do reducionismo improvisado. Os típicos borbulhares do trombone nessa área como que moldaram tudo o mais – o que Mestre André fazia com os botões, os “licks” de guitarra de Carvão, as sustentações abstraccionistas das peles e dos pratos. A música foi crescendo, no entanto, e o trombone passou a contribuir apenas com alguns dos imensos detalhes que se iam verificando – foi como se Radu Malfatti estivesse a tocar com uma banda conduzida por Thurston Moore. A partir de determinada altura, essa mesma música pedia a Chagas que fizesse outras coisas e viesse para a frente, mas este não o quis fazer, preferindo remeter-se ao silêncio em muitas ocasiões. De repente, surgiu um “groove” com alguma coisa do tribalismo electrónico dos Alforjs, grupo a que Mestre André pertence, e para ele muito o músico contribuiu. Este prolongou-se por uma boa parte da sessão, obsessivo, cheio de referências aos alemães Can. Desfez-se com o convidado a virar-se para o saxofone e a concretizar o que então parecia necessário, introduzindo algum mais objectivo jazz no caudal. O fecho fez-se com uma atmosfera “doom”, aérea mas pesada, sinistra até, lembrando as “trips” negras dos Sunn 0))).

De novo, a surpresa entre a assistência: o jazz e a música improvisada têm mais possibilidades de osmose com o rock do que as anunciadas pela fusão e pela colagem e em Portugal há quem esteja a experimentar essas novas vias. Assistimos a dois desses casos, ambos brilhantes.