José Lencastre Nau Quartet + Guimarães / Parrinha / Mitzlaff, 6 de Fevereiro de 2017

José Lencastre Nau Quartet + Guimarães / Parrinha / Mitzlaff

Arte do piano

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Rodrigo Pinheiro e Manuel Guimarães estiveram em destaque nos dois mais recentes concertos da SMUP dedicados à improvisação. O primeiro num registo mais jazz do que lhe é hábito e o outro entrando pelos domínios da música de câmara, bem como dentro do piano. Em qualquer dos casos, bem acompanhados. Aqui contamos como foi (na foto: Guimarães e José Bruno Parrinha)…

São ambos pianistas. Ambos tiveram formação clássica – o que se torna muito evidente na sua abordagem ao teclado – e ambos se dedicam à improvisação sem terem feito estudos específicos de jazz. Um dedica-se inteiramente à arte de compor no próprio momento da execução; o outro tem um trajecto que passou pela pop, pela música brasileira, pela tradicional portuguesa, pelo rock e pelo jazz. Sem ofuscar o que fizeram os seus parceiros de grupo, foram eles, Rodrigo Pinheiro e Manuel Guimarães, quem mais brilhou em dois recentes concertos da chamada “improv” na SMUP, separados apenas por alguns dias.

Pinheiro tocou a 26 de Janeiro com o novíssimo José Lencastre Nau Quartet, naquele que terá sido um dos melhores eventos musicais de sempre ouvidos na Parede desde que a Sociedade Musical União Paredense ressuscitou da hibernação em que durante demasiado tempo esteve e que vem dando uma especial atenção ao que se faz hoje nas correntes que utilizam o improviso. O que surpreendeu na sua prestação, mesmo para quem já ali o ouviu outras vezes, foi o facto de o seu jogo pianístico se ter centrado na gramática e no vocabulário próprios do jazz. Por uma vez que fosse, pouco transpareceu da influência que nele têm compositores da contemporânea como Messiaen e Ligeti. As contribuições de Pinheiro foram todas sincopação e “swing”, bem marcadas pelo legado de Thelonious Monk, ainda que nunca de formas demasiado evidentes.

Tal aconteceu, muito provavelmente, devido ao contexto e à identidade musical dos seus parceiros. Se o saxofonista alto José Lencastre, líder do grupo, vem de um passado na cena da livre-improvisação de Lisboa, interrompida quando foi viver para o Brasil (está agora de regresso), já o baterista deste projecto é o seu irmão João Lencastre, uma das mais importantes figuras do jazz nacional, com uma linguagem bem enraizada no idiomatismo desta música. Com o acréscimo de Hernâni Faustino no contrabaixo, todas as condições estavam estabelecidas para que este concerto fosse assumidamente de jazz. O próprio mentor da sessão lembrou, mais do que uma vez, a discursividade-tipo de Jimmy Lyons, herdeira do modo como Charlie Parker encadeava simples motivos melódicos. José repetia-os e depois operava subtis variações, sem perder o rumo.

Só num par de ocasiões a música subiu para o tipo de intensidade com que habitualmente se conota o “free jazz”, rótulo com que muitas vezes se tenta simplificar uma determinada fórmula musical que, na realidade, nada tem a ver com esse subgénero. Ainda assim, a energia entregue a essas situações foi imensa e teve tradução visual: João Lencastre golpeou um dedo e gotas de sangue iam caindo sobre as peles da bateria enquanto tocava. Essa era uma energia estruturada e suportada a cada instante, não valendo só por si, como é habitual no dito free jazz ou na música livremente improvisada. A esse nível a contribuição de Pinheiro revelou-se fulcral: a rapidez e o sentido de oportunidade com que introduzia ideias ou com que respondia ao que ia acontecendo – na maior parte dos casos fixando pontes directas com o baterista – foram assombrosas, nunca nada resultando supérfluo ou um erro de julgamento. Foi uma das melhores actuações do pianista a que pudemos assistir, e também uma das mais brilhantes, ao vivo, de João Lencastre.

Rodrigo Pinjheiro

Manuel Guimarães

Hernâni Faustino e José Lencastre

João Lencastre

José Bruno Parrinha

Ulrich Mitzlaf

Guimarães apresentou-se ao público no dia 3 de Fevereiro, na companhia de José Bruno Parrinha (com um novo acrescento no seu instrumentário, o clarinete baixo) e Ulrich Mitzlaff, um trio que não tocava há cerca de sete anos. Apesar das ligações dos três ao jazz, a própria configuração deste grupo convidava a outra linguagem, e de facto tudo decorreu dentro dos parâmetros da música de câmara. Uma música de câmara integralmente improvisada e com introjecções de experimentação técnica e estética que não um jazz de câmara: o jazz esteve sempre muito longe, mesmo quando o violoncelo de Mitzlaff incorporava elementos percussivos e para-rítmicos. Foi muito claro que essa era uma opção programática, ainda que a noite tivesse começado com uma entrega expressionista vizinha da do free e tivesse terminado com o típico abstraccionismo da improvisação.

Pelo meio esteve algo que o próprio Guimarães classificou, depois do “gig”, como mais «convencional», mas que foi o melhor de tudo o que aconteceu: música impressionista, na vera acepção do termo e remetendo-nos para a corrente clássica da primeira metade do século XX, com uma esdrúxula riqueza harmónica e nenhum receio da tonalidade e do melodismo. Guimarães foi o elemento pivô das situações e a sua enorme inventividade sonora ficou por de mais evidente, fosse pelo modo como fazia a música mover-se naturalmente de um lugar para outro bem diferente ou debruçando-se sobre o interior do instrumento para lhe arrancar argumentos que não os padronizados pela categoria “piano preparado”. Ora lírico e poético sem cair em excessivas doçuras, ora agressivo sem prejudicar a produção de dinâmicas, Guimarães provou mais uma vez que não pode ser ignorado no actual cenário da música criativa – o que, injustamente, está a verificar-se.

Se Mitzlaff também se deteve em preparações, tal como o pianista, Parrinha foi muito “straight” com os seus clarinetes. Excepto quando pegava no baixo – os “overtones” muito crus que dele retirou foram outra mais-valia do serão, ganhando um grande efeito quando os fraseados de Guimarães e do violoncelista saíam contrastantemente limpos. Nem tudo tem de ser bonito na construção do Belo, antes pelo contrário.