ParPar + Jorge Nuno, 30 de Janeiro de 2017

ParPar + Jorge Nuno

Passos dados

texto Rui Eduardo Paes fotografia A Besta

O novo projecto do colectivo A Besta apresentou na Zaratan o seu free-noise-punk-jazz e surpreendeu pela diferença, pelo ir e vir das situações e pela força da música. A primeira parte da sessão não o fez menos, com Jorge Nuno a solo passando pelo negrume do stoner e desembocando num céu estrelado tocado com os dedos.

Até porque o que faz não encaixa com qualquer das prateleiras com que arrumamos géneros e estilos, não é fácil descrever a música do duo ParPar. Para dar uma ideia do concerto que mais este projecto do colectivo A Besta deu na Zaratan, em Lisboa, no passado dia 28 de Janeiro será necessário recorrermos a referências indirectas.

Recorde-se o leitor do que poderá ter ouvido do duo de Mats Gustafsson e Paal Nilssen-Love, com o primeiro a tocar saxofone barítono. Essa é a base desta outra parceria entre um saxofonista e um baterista, numa adopção brutalista e primária do free jazz. Sobre isso, recapitule o que ouviu do grupo de rock “jazzificado” Morphine e concentre-se nos papéis desempenhados pelo barítono e pelo baixo de duas cordas, este sendo nos ParPar meramente virtual: surge em “loop” com o clicar de um pedal, a meio de “drones” electrónicos ou de ruído de estática.

Some-se a esta já por si inesperada mescla algo de totalmente diferente, até porque não tem um barítono envolvido: a saturação sonora da dupla de noise Lightning Bolt. É esse o tipo de intervenção desta parelha entre um sax e uma bateria ultra-amplificados e tocados com recurso a pedaleiras de efeitos. Na página de Facebook do grupo (palavra apropriada quando parece que são mais do que dois a tocar) a definição do que está em causa surge nestes termos: «drums and sax battle on an unknown state of schizophrenia, exploration and improvised noise free jazz punk rock stuff».

Na antiga carvoaria da Zaratan, quando o barítono de Par mais parecia um urro primevo e visceral, fazendo-nos imaginar um Albert Ayler ou um Peter Brotzmann em metanfetaminas, e os tambores do outro Par (o anonimato dos dois instrumentistas inclui o uso de máscaras em cena) construíam emaranhadas texturas de envolvimento, como uns enervados Rashied Ali ou Paul Lovens, era um “riff” eléctrico, possesso, violento e “headbanger” que de repente emergia.

Ou seja, ParPar revelou-se como a derradeira subversão / perversão dos princípios de A Besta: se cada uma das bandas abrigadas neste “sound tank” que é também um “think tank” (os seus membros são investigadores universitários de ciências políticas e militantes anarquistas) se centrou numa abordagem específica, a exemplo do psicadelismo dos Cardíaco, têm no entanto de comum uma grelha hardcore (o nome que se deu às promiscuidades do punk com o metal) e uma prática integralista da improvisação, numa perspectiva experimental. Do rock improvisado ao jazz livre era só um passo e este não só foi dado como tem volta de regresso nas criações dos ParPar, trazendo o factor jazz para o rock na mesma medida em que leva o rock para o jazz.

A partir de coordenadas estabelecidas, o duo forjou algo que é completamente diferente de tudo o mais que hoje se está a fazer em Portugal (ou por portugueses), seja no rock como no jazz. Só Gonçalo Almeida, a partir da Holanda, se aproxima desta fórmula, com Albatre, Roji e Ikizukuri. Com uma diferença substancial: o ponto de partida e de chegada de Almeida é sempre o jazz, mesmo que haja na viagem um oceano de rock, enquanto os ParPar nunca procuram deixar de ser o que são: “rockers”.

A primeira parte da sessão foi feita pelo guitarrista Jorge Nuno (Signs of the Silhouette, Baga-Baga), e a primeira surpresa do dia veio dele, não se esperando de todo: o seu habitual psicadelismo não esteve presente. A actuação começou por planar sobre a distorção de graves típica do stoner rock, com toda a sua carga de negrume, para desembocar num suave céu de estrelas. Os acordes dedilhados a unha sugeriram mesmo um Jim Hall que se tivesse apaixonado pelas composições de Morton Feldman.