Lubok, 27 de Janeiro de 2017

Lubok

Quando o Norte desce ao Sul

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O grupo do Porto rumou até à Costa do Sol para tocar uma música que já pouco tem que ver com o disco que por aí circula. Mas se a primeira parte do concerto a 21 de Janeiro era de música claramente estruturada e ensaiada, a segunda, com a convidada Pamelia Kurstin, voltou a mergulhar na liberdade e na energia da improvisação. O público exultou.

Há um ano, por esta altura, estava a jazz.pt na sede da Sonoscopia, no Porto, a preparar uma reportagem sobre aquela associação dedicada à música criativa e que tem como principais mentores, entre outros, figuras como Gustavo Costa, Henrique Fernandes e Alberto Lopes – este último, manda a história da música ao vivo em Portugal lembrar, o responsável de um importante festival portuense que mudou muita coisa na década de 1990, o Co-Lab. Pois o acaso ditou que fossem eles agora a vir até às imediações de Lisboa para tocarem num dos muitos projectos em que estão envolvidos, neste caso em associação com o guitarrista Alexandre Soares (quem gosta de pop e rock lembrar-se-á dele, com certeza, dos GNR e dos Três Tristes Tigres) e a cantora Helena Guerreiro: o grupo Lubok.

Este Lubok, diga-se desde já, é um projecto de rock. Só que daquele tipo (que podem ser vários tipos, mas têm essa comum característica) de rock que se percebe ser tocado por quem anda pela música improvisada, pelo jazz e por diversos caminhos de experimentação – um rock pouco inocente esteticamente, tocado com uma técnica acima do vulgar e integrando aspectos que não são propriamente originários deste género de música. De recordar que, há três anos, estes mesmos Gustavo Costa, Henrique Fernandes e Alberto Lopes participaram no ciclo Jazz no Parque, da Fundação de Serralves, inseridos num colectivo de parceria com a Porta-Jazz que incluiu Susana Santos Silva (associada das duas organizações, by the way), João Pedro Brandão, Hugo Raro e José Carlos Barbosa. Encontramo-los igualmente em formações viradas para o noise e para uma música, incatalogável, feita com instrumentos de invenção própria como a Nova Orquestra Futurista do Porto e o Srosh Ensemble.

O disco de estreia dos Lubok foi por esta revista apresentado como o resultado da junção de três vectores que não é normal estarem combinados: rock psicadélico, vocais tratados electronicamente que lembravam Diamanda Galás umas vezes e Lydia Lunch outras, e improvisação, a propriamente dita, que não simplesmente uma abordagem “jam”. Tais eram os parâmetros que eu julgava que ia encontrar na SMUP, Parede, no passado dia 21 de Janeiro. Porque estes são músicos irrequietos e que procuram não se repetir, foi algo de bastante diferente o que ouvi. Primeiro, uma série de “temas” que tinham sido claramente estruturados e ensaiados, menos interessantes do que aquilo que vinha no CD, mas ainda assim com uma interpretação superlativa dessa fórmula a que se vai chamando de free rock – algo de equivalente no rock ao free jazz, mas com a particularidade de que nunca ter chegado a ser uma frente musical organizada. A voz já não era processada e aproximava-se mais de um certo punk cantado no feminino, a bateria assinalava as transições e as situações, com o contrabaixo a somar-se-lhe na introdução de “riffs”, e não havia aquele fluir magmático que os primeiros Lubok anunciaram. Depois, uma mudança substancial quando à banda se juntou a convidada Pamelia Kurstin, virtuosa norte-americana do theremin que tanto trabalhou com David Byrne (Talking Heads) como com a Cape Symphony Orchestra…

Então já a improvisação predominou novamente, com intervenções fulgurantes de Kurstin e não menos inspiradas de Alexandre Soares, que esfregava as cordas da sua guitarra no tripé do micro de voz para dela tirar outros sons que não os que já cortavam o ar, sempre com um paisagístico Alberto Lopes a fazer-lhe sombra e dar-lhe suporte. Não foi um regresso aos Lubok psicadélicos, mas esta segunda parte da sessão pôs mais liberdade e mais energia no pretendido free. O público entusiasmou-se e oque é raro acontecer no sótão da SMUP aconteceu mesmo: um “encore”. Estiveram para ser dois, mas os seis intervenientes já não aguentavam mais. Estavam todos física e psiquicamente exaustos.