Kabas + Luís Vicente / Carlos Godinho + Folclore Impressionista + Clocks & Clouds, 24 de Janeiro de 2017

Kabas + Luís Vicente / Carlos Godinho + Folclore Impressionista + Clocks & Clouds

Começo auspicioso

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

O trompetista Luís Vicente iniciou o ano de 2017 com três idas à Parede para concertos muito diferentes – um de jazz de câmara que evocou Satie, outro na mesma noite em que a improvisação dominou sobre a aleatoriedade, um terceiro em contexto de electroacústica à maneira dos Nurse With Wound e finalmente outro – o melhor de todos – em contexto mais sincopado. Um bom arranque para o que mais fizer nos meses que aí vêm…

Ditaram as circunstâncias que o trompetista Luís Vicente iniciasse o novo ano com três actuações muito diferentes no mesmo espaço – o da SMUP, na Parede. Primeiro, foi um dos convidados portugueses – tendo o outro sido Carlos Godinho – do grupo belga Kabas, a 5 de Janeiro, nessa mesma noite tocando igualmente em duo com o percussionista. Depois, ali voltou a 15 como membro do colectivo Folclore Impressionista, numa sessão que incluiu também um solo de Jejuno e a projecção de filmes Super 8 e vídeos de António Caramelo e Bruno Silva, este com música do próprio, sob o pseudónimo de Ondness. Finalmente, surgiu no dia 20 como um dos integrantes do projecto Clocks & Clouds.

A capacidade de se integrar em situações musicais distintas sem numa comprometer a sua própria sonoridade e o seu estilo expressivo é a nota dominante a retirar destas aparições públicas. Face ao jazz de câmara dos Kabas, definido em grande medida pelas alusões a Erik Satie do pianista Thijs Troch, tivemos um Vicente decididamente mais lírico. Foi particularmente feliz a construir um trabalho melódico sobre as harmonias de Troch, mas já não tanto a tirar ilações melódicas das frases já por si melódicas saídas do teclado branco e negro. Quando o músico de Lisboa entra neste registo a sensação que fica é a de que está a acrescentar notas a algo que as dispensava.

Infelizmente, a prestação do quarteto + 2 foi demasiado curta para que a linguagem comum que estava a ser desenvolvida se definisse por completo. Faltou, por exemplo, haver uma maior interacção entre o trompete e a flauta de Jan Daelman. A combinatória prometia deliciosas equações tímbricas, mas os dois instrumentos surgiram habitualmente à vez. Com destaque qualitativo para o metal – as ambíguas águas entre o jazz livre e a livre-improvisação em que os Kabas navegam são as propícias para o trompetista dar o melhor de si.

Com Godinho, Luís Vicente demonstrou que improvisar e lidar com o acaso não é a mesma coisa. Foi ele a âncora da dupla, colando o que poderia de outro modo desintegrar-se e fazendo-o pelo encadeamento de texturas, regra geral abstractas. A abordagem que o elemento da Bande à Part realiza conta, por princípio, com o factor aleatoriedade, e foi sem dúvida interessante ver e ouvir Carlos Godinho a deixar que os acidentes (um objecto que cai, por exemplo) acontecessem, tirando partido disso mesmo. E digo que foi interessante por colocar uma questão de fundo: será que um acidente previsto, intencionado até, continua a ser um acidente? Luís Vicente fez com que a intenção, precisamente, dominasse.

Com Vicente, Helena Espvall (no seu quase inaudível violoncelo) e Diana Combo (a tocar bateria, que não os seus mais habituais gira-discos) a utilizarem os únicos instrumentos “convencionais” neste contexto, a música dos Folclore Impressionista foi sobretudo gerada por fontes electrónicas, com o acréscimo neste plano de Nuno Afonso, o mesmo de Falésia e Puma. O resultado teve alguma coisa que ver com a estética “dark” e de sedimentação rock dos Nurse With Wound e dos Coil, se bem que com uma elaboração mais orgânica. Para tal muito contribuiu o trompete, que conseguia posicionar-se acima do elevado volume geral dos sintetizadores ou meter-se por entre os interstícios deixados pela música, deixando perceber pequenos detalhes no meio de sólidas muralhas de som.

Com Hernâni Faustino

Com Carlos Godinho

Com Helena Espvall

Com Marco Franco

Rodrigo Pinheiro

Folclore Impressionista

Thijs Troch

O solo em “laptop” de Jejuno, bem como a banda sonora do vídeo de Bruno Silva, já tinham deixado antever que as opções electroacústicas da sessão seriam as da tendência pós-industrial e pós-Throbbing Gristle, mas a inclusão de Luís Vicente deu uma cor jazzística a algo que por princípio não conteria essa dimensão. A verdade é que este se inseriu na proposta como se a sua intervenção lhe fosse implícita. De qualquer modo, foi naturalmente que sobressaiu a parceria dos teclistas e manipuladores de dispositivos João Paulo Daniel e Sérgio Silva, com a complementação visual algo surrealizante de Caramelo a integrar-se exemplarmente com o que se ouvia.

Foi em chão mais habitual que Vicente regressou à Parede, pois os Clocks & Clouds já têm rodagem feita e disco editado, muito embora este concerto tenha sido o primeiro de um reinício de actividade deste combo formado com Rodrigo Pinheiro, Hernâni Faustino e Marco Franco, depois de um período de paragem. A prestação do soprador foi magnífica, a mais relevante das quatro aqui referidas, e foi curioso verificar que o grupo em questão, identificado de origem com a música improvisada, voltou às lides para tocar jazz. Todas as raízes de Luís Vicente no hard bop vieram ao de cima, e justo é indicar que foi outro dos músicos presentes que o puxou para aí – Pinheiro costuma introduzir no seu jogo de piano bastas referências clássicas e contemporâneas, mas desta vez focou-se no tipo de fraseados quebrados de Thelonious Monk, nos abruptos “sheets-of-sound” de Cecil Taylor e em situações de síncope, de “groove” e de “swing”.

O jovem músico teve todas as condições para brilhar, e aproveitou-as. As luzes focaram-se, porém, no pianista. Esteve de novo imparável o mesmo Rodrigo Pinheiro que, num “gig” a solo no final do ano passado, em Xabregas, foi surpreendido pela tonitruante sirene de um paquete e a juntou à música como se de um “field recording” se tratasse. Já se tinha percebido e voltou a confirmar-se: quanto mais desafiantes forem os seus companheiros de palco, mais Luís Vicente nos dá. E quando está com Pinheiro, o trompetista dispara muito, muito longe. Os Clocks & Clouds têm neles um par imbatível.