Ab Baars + Albert Cirera / Ulrich Mitzlaff + Yedo Gibson / Vasco Trilla, 23 de Dezembro de 2016

Ab Baars + Albert Cirera / Ulrich Mitzlaff + Yedo Gibson / Vasco Trilla

Adeus 2016, e não voltes

texto Rui Eduardo Paes

Sem PA e com apenas cinco músicos, entre um solo e dois duos, o Salão Brazil despediu-se das suas programações do ano nos domínios do jazz e da música improvisada com uma tripla de concertos que teve o seu apogeu numa extravagante actuação de um novo residente em Portugal e de outro que está em permanente vai e vem entre Barcelona e Lisboa. Foi tão bom…

O conimbricense Salão Brazil despediu-se a 16 de Dezembro da sua programação anual de jazz e música improvisada (também dá guarida ao rock, à pop, à música experimental e a outras expressões) com uma tripla em que a tónica comum era dada aos saxofones, designadamente o tenor e o soprano. O cartaz apresentou os três concertos como uma mostra da «face inconformada do jazz europeu», se bem que, à excepção do solo de Ab Baars, holandês de visita ao nosso país, se devesse ter referido a particularidade de a iniciativa juntar no mesmo palco duos de músicos inconformados de origens várias (Catalunha, Alemanha e Brasil, via Holanda) que vivem actualmente em Portugal, designadamente Albert Cirera, Ulrich Mitzlaff e Yedo Gibson, ou que estão em permanente vaivém entre Barcelona e Lisboa, como é o caso de Vasco Trilla. Ou seja, a Europa aludida era sobretudo a “nossa” Europa, com Baars a representar o continente mais interior.

Foram poucos os ingredientes com que se fez esta noite muito especial. A sessão totalmente “unplugged”, sem microfones ou amplificadores à vista, que juntou apenas cinco músicos depressa se converteu numa festa de celebração da criatividade no momento, ao mesmo tempo exorcizando os fantasmas que nos assombraram ao longo do ano. Estes terão fugido logo nos primeiros minutos da actuação de Ab Baars, quando o soprador de Amesterdão começou a tirar do seu sax uns sobreagudos e umas dissonâncias de fazer arrepiar os pêlos da nuca. Mas se alguém temeu que o serão decorresse de forma difícil, a partir daí Baars alicerçou mais convencionalmente o seu discurso na tradição do jazz, equilibrando inovação e história o quanto bastasse. Tocou no clarinete um tema de John Carter, dedicou outros dois, respectivamente, aos seus conterrâneos Tobias Delius e Misha Mengelberg, e ainda magnificamente se deteve, com uma shakuhachi, a milenar flauta de bambu japonesa, na ancestralidade da música do país do Sol Nascente.

Ab Baars

Ab Baars é um dos mais importantes saxofonistas de toda a Europa, e o facto de ter sido o primeiro a actuar dificultou a vida aos que se lhe seguiram, mas Cirera e Gibson não temeram a situação e estiveram à sua altura. O primeiro retomou a parceria com o violoncelista Ulrich Mitzlaff que foi estreada por “Cróniques 2”, uma edição da “netlabel” Discordian Records. Quando a primeira longa improvisação da dupla, iniciada por uma áspera exploração de texturas, começava a entrar nos domínios do tonalismo, evidenciando as formações dos intervenientes no jazz e na música clássica, alguém visivelmente embriagado pôs-se a falar alto e instalou a confusão. Como depois comentaria Albert Cirera, a música «caiu ao chão» com o barulho que vinha do fundo da sala, mas ainda assim não se deixou abafar – continuou até não dar mais. O melhor veio quando a perturbação acalmou, com uma teia abstracta construída por pequeníssimos detalhes e que funcionou como se cada um dos participantes adivinhasse o que o outro iria fazer de seguida.

Mal sabíamos que o fecho da sessão seria ainda mais espantoso. O duo de Yedo Gibson e Vasco Trilla foi especialmente exuberante e entrou por extravagâncias criativas que tiveram o condão de agarrar o público pelas orelhas e de o entusiasmar. Trilla colocava bonecos mecânicos sobre as peles dos tambores, desse modo criando espessos “drones” feitos de liliputianos e nervosos picotados que mais pareciam de proveniência electrónica, enquanto Gibson soprava em simultâneo no tenor e no soprano, lembrando os velhinhos Van Der Graaf Generator e inventando melodias vibrantes em choque de frequências. Entre o free jazz e a livre-improvisação, o que propuseram tinha um tipo de sedução que não encontramos habitualmente nessas tendências musicais. Foi como que um concerto de rock sem rock e um bom exemplo de uma estratégia de sucesso a seguir. No fim, já pela uma hora da madrugada, a boa disposição reinante tinha-se esquecido do famigerado ano de 2016. Pois que não volte…