Eitr + Rodrigo Amado Motion Trio, 13 de Dezembro de 2016

Eitr + Rodrigo Amado Motion Trio

Filhos de Cascais

texto Rui Eduardo Paes

Três músicos da linha de Cascais partilham uma visão e até uma linguagem que resulta precisamente do facto de terem habitado o mesmo espaço físico. Pedro Lopes, Pedro Sousa (foto acima de Cláudio Rêgo) e Gabriel Ferrandini acabaram o ano com grandes concertos.

Há a tendência para considerar irrelevante a origem geográfica de um músico quando a música que este toca (é o caso do jazz) tem um carácter universalista, mas isso é um erro. Um improvisador de Beirute nunca tocará do mesmo modo que outro de Londres – há sempre um factor cultural implícito, ainda que possa não ser muito evidente. Mesmo dentro de um só território a localização de base no mapa pode definir diferenças – por exemplo, os Slow is Possible não seriam com certeza como são se os seus membros, em vez de viverem na Covilhã, em Castelo Branco, em Minde e no Pombal, fossem do Porto ou de Lisboa. O rock de Barcelos é bastante diferente do rock de Leiria, ainda que explicar por palavras onde está essa diferença não seja fácil.

Esta dissemelhança não se determina, sequer, por factores de distância. Pedro Lopes, Pedro Sousa e Gabriel Ferrandini cresceram para a música na linha de Cascais e se o primeiro está actualmente radicado em Berlim e os outros dois mudaram-se para o centro da capital, o certo é que algo os identifica à parte. Essa identificação outra relativamente aos praticantes do jazz e da livre-improvisação de Lisboa não tem a ver com factores como a influência da água canalizada ou do sol que banha as praias desde a Cruz Quebrada até ao Guincho. É mais simples do que isso: o facto de terem sido vizinhos, de terem frequentado as mesmas escolas e de terem pertencido ao mesmo círculo de amigos fez com que o seu desenvolvimento musical fosse comum e que partilhassem uma linguagem e uma visão distintivas.

Foi juntos que começaram a tocar e ainda hoje têm projectos que os ligam. Lopes e Sousa têm um duo há já uns anos, Lopes e Ferrandini  formaram outro e Sousa e Ferrandini outro ainda – o mais persistente é o primeiro, Eitr de seu nome, com um disco editado, “Trees Have Cancer Too”, mas foi o último – humoristicamente apresentado como PeterGabriel – que ganhou maior projecção internacional, graças à inclusão, por duas vezes, de um terceiro elemento convidado, Thurston Moore em “Live at ZDB” e Johan Berthling em “Casa Futuro”. A 4 de Dezembro, na comemoração dos 30 anos de vida e 10 de profissão de Pedro Sousa, tocaram os três no lisboeta Damas. Estes ex-moradores do concelho de Cascais ganharam fama de originalidade no contexto português e se, fora do País, tem sido o baterista Gabriel Ferrandini o mais falado, muito devido ao culto gerado em torno de duas autênticas embaixadas do jazz no estrangeiro, o Rodrigo Amado Motion Trio e o Red Trio, os dois Pedros vêm igualmente chamando a atenção da crítica e dos programadores de outros pontos cardeais.

Lopes fez uma digressão em Novembro no mais improvável dos países, o Japão, estando habitualmente na estrada com os seus gira-discos, e o estilo saxofonístico áspero de Sousa tem admiradores um pouco por todo o mundo, sendo os do Leste europeu os mais entusiásticos. Ainda recentemente, um “website” polaco publicou um texto sobre toda a sua discografia. No final de um ano em que estiveram os três especialmente activos, calhou que os holofotes se virassem para eles, e não apenas os do palco do Damas em noite de festa. Os Eitr tocaram na SMUP, da Parede (numa espécie de regresso a casa), e no Lounge, em Lisboa, a 7 e 8 de Dezembro respectivamente, e Ferrandini – um Ferrandini mudado pela residência artística de um ano, na ZDB, que o fez rever as bases do seu instrumento e da música que pratica – juntou-se a Rodrigo Amado e Miguel Mira para apresentar igualmente no passado dia 8, no xabreguense Teatro Ibérico, o novo álbum do Motion Trio, “Desire & Freedom” .

Pedro Lopes (foto de Cláudio Rêgo)

Pedro Sousa (foto de Cláudio Rêgo)

Gabriel Ferrandini

O encontro na Parede revelou uns Eitr já muito longe do que ouvimos no único LP do dueto. Lopes tornou as “turntables” em ferramentas com diversas finalidades. Ora em superfícies de amplificação do seu cada vez mais dominante trabalho percussivo, ora em instrumentos de percussão propriamente ditos, ora em dispositivos para o electro-processamento / tratamento de manipulações acústicas. Esta variedade de planos permitiu que a performance aprofundasse mais o objectivo de mexer com os materiais sonoros em si mesmos, sem mediação musical, surgindo a música como consequência e não como pressuposto.

Este tipo de abordagem traduziu-se numa actuação por detalhes, aquilo que estava em constante transformação equilibrando-se com uma permanente pulsação estruturante, como se ali estivesse um coração a bater. E também com ocasionais regressos de situações ao incessante fluxo, mediante a utilização de “loops” que serviam de cama a novos desfechos. A tendência era, no entanto, para a deflagração dos elementos nas suas componentes mais ínfimas, pelo que Pedro Lopes contava com Sousa para manter a coesão nos momentos em que este largava o saxofone tenor a fim de estabelecer padrões, e de compor o improvisado, com o teclado ou com os pedais que tinha diante de si. Com o sax, Pedro Sousa carregou a paisagem alienígena construída com terra, tornando o conjunto ainda mais orgânico.

Acima de tudo, o que definiu o excelente concerto dos Eitr foi o sentido de contenção, e curiosamente, ou nem tanto assim dadas as afinidades já referidas, a mesma contenção que caracterizou o “gig” do Rodrigo Amado Motion Trio e, até, o solo que o antecedeu com o pianista Rodrigo Pinheiro, outro cúmplice de Lopes e de Sousa – recorde-se que os Eitr tocaram há uns anos com o Red Trio, de que Pinheiro faz parte. Se na SMUP os Pedros se aproximaram mais do que nunca da estética EAI (de Electro-Acoustic Improvisation), ainda que com uma postura ambiental, no Teatro Ibérico o Motion Trio instalou-se em pleno legado pós-bop, embora colocado em contexto “improv”. A equação estabelecida entre os fraseados melódicos de Amado e a percussão não-métrica de Gabriel Ferrandini, com a interposição do mutante violoncelo de Mira, chegou a um superior nível de aprimoramento.

As orientações serão diferentes, mas o tipo de jogo é igual. Não surpreende, aliás, que Pedro Lopes esteja a aplicar, nos seus gira-discos, algumas das técnicas baterísticas de Ferrandini – com tantos quilómetros de permeio, continuam a viver em bairros próximos.