Carlos “Zíngaro” / Franziska Schroeder / Pedro Rebelo / Ulrich Mitzlaff, 5 de Dezembro de 2016

Carlos “Zíngaro” / Franziska Schroeder / Pedro Rebelo / Ulrich Mitzlaff

Curvas e arestas

texto Rui Eduardo Paes

Em mais um dos seus raros encontros, o quarteto luso-alemão protagonizou um concerto – ou, mais exactamente, uma sessão de gravação com público – em que a improvisação se fez com projecções geométricas. Resultou algo de muito particular e diferente, como se verifica no relato em baixo.

Se o quarteto que se apresentou na passada sexta-feira, 2 de Dezembro, no lisboeta O’Culto da Ajuda conta com 15 anos de vida, apenas toca ao vivo uma vez em cada ano ou par de anos, não contando até à data com qualquer disco. A explicação parece estar no facto de a saxofonista (alemã) Franziska Schroeder e de o pianista (português) Pedro Rebelo viverem em Belfast e aí se dedicarem à investigação universitária, sendo-lhes difícil acertar a sua agenda com as dos parceiros que vivem em Portugal, Carlos “Zíngaro” e Ulrich Mitzlaff. Daí, precisamente, que a notícia deste concerto tenha sido recebida como um acontecimento especial, reforçado pelo facto de culminar uma estadia de vários meses de Schroeder no nosso país para a realização de um levantamento etnomusicológico sobre a cena da improvisação livre, mediante a realização de entrevistas com os seus protagonistas. O que explicou, de resto, a afluência de muitos músicos nacionais.

As características do espaço em causa (a sala de concertos da Miso Music, orientada sobretudo para a música contemporânea e muito especialmente para a electroacústica) e a qualidade do seu equipamento de som explicaram, por sua vez, a decisão de gravar o evento para uma eventual futura edição discográfica, tendo esta passado pela opção por não amplificar os instrumentos. Isto teve consequências ao nível da audição, pois sem um PA não era possível equilibrar os instrumentos na mistura. Ou seja, o saxofone soprano de Schroeder sobrepunha-se muitas vezes ao violino e ao violoncelo, respectivamente, de “Zíngaro” e Mitzlaff e a electrónica “lo-fi” a que Rebelo recorria era suficiente para provocar outros desníveis nos balanços. Não foi demasiado grave, mas teve o senão de sacrificar a melhor fruição que se podia vivenciar do momento e de ter menorizado a presença do público.

A música que se ouviu foi feita de arestas erguidas entre superfícies curvas. Estas últimas foram fornecidas, sobretudo, pelas cordas de arco. Por cá condenado à marginalidade por uma certa “intelligentsia” do jazz (e não apenas a “mainstream”) que o considera excessivamente “experimental”, o certo é que Carlos “Zíngaro” tem um pronunciado sentido melódico e este esteve muito saliente nas suas intervenções. Consciente, por sua vez, de que tinha de jogar com dois instrumentos solistas agudos, o violino e o sax soprano, e com um pianista tendencialmente abstracto, Ulrich Mitzlaff situou-se nas proximidades do lugar que o baixo tem numa formação de música improvisada e foi particularmente percussivo na sua prestação. Franziska Schroeder fez a ligação entre este plano e o mais angular das improvisações que iam sendo construídas. Por ocasiões, as abordagens e os materiais que escolheu chegaram mesmo a surpreender – foi o caso da passagem em que, inesperadamente, convocou o espírito de John Coltrane e o introduziu numa referência nada indirecta ao estilo Gnawa de Marrocos.

Os principais geometrismos vieram do lado de Pedro Rebelo. Intervindo ora no teclado, ora no interior do piano com uma armação de madeira munida de cordas, com os dedos ou com uns pequenos micros e um mini-amp para obtenção de “feedbacks”, Rebelo nunca foi sequencial, atirando elementos em todas as direcções antes que uma frase melódica ou um padrão rítmico pudessem ser gerados. O som que se seguia não vinha na decorrência do anterior e sim de outro ponto do espectro de dinâmicas, mas às tantas os vértices intersectavam-se e uma ou outra figura surgia. O trabalho do pianista foi notável, até pela forma como se conjugava com o que os seus parceiros faziam. Claro foi que este quarteto nada tem a ver com a vulgata da música livremente improvisada, indo buscar as suas coordenadas, muito em especial, à música clássica, e não apenas a do século XX para cá.

Foi, pois, um concerto – ou melhor, uma sessão de gravação com assistência – diferente do habitual neste circuito, restando agora esperar pelo disco, se o dito encontrar editora…