Angles 3 + Crua & Canzana + A Besta e o Muro IV, 28 de Novembro de 2016

Angles 3 + Crua & Canzana + A Besta e o Muro IV

Uma semana infernal

texto Rui Eduardo Paes fotografia Cláudio Rêgo

Foram dias agitados na SMUP, com uma residência artística para gravação de um disco ao vivo, uma sessão com dois grupos a tocarem juntos e mais três concertos na confluência de vários idiomas musicais mas com um semelhante interesse pelo experimentalismo e pela improvisação. Valeram a pena e vieram com um prémio. Relato do que aconteceu para ler aqui.

O título deste texto foi “sugerido” pelos próprios membros da equipa da SMUP, fossem os da direcção daquele espaço da Parede como os da associação que lá habita, a Cultura no Muro: ouvi-os repetidamente a utilizarem o termo, e não para se lamentarem. Na mesma semana, calhou ficarem programadas três iniciativas de vulto que mobilizaram todos os recursos humanos e técnicos possíveis, ao mesmo tempo em que decorriam as votações do Orçamento Participativo do município de Cascais e estava em jogo ter o financiamento necessário à realização de obras para melhoria das condições acústicas da sala principal de espectáculos da Sociedade Musical União Paredense – o que se conseguiu, de resto.

Primeiro, realizou-se uma residência artística de terça-feira 22 a quinta 24 de Novembro do grupo Angles 3, para três concertos e, durante estes, a gravação de um disco a ser editado pela Clean Feed, numa iniciativa inserida na Combat Jazz Series. Depois, e no mesmo dia 26, um sábado, foram quatro os concertos de enfiada, um numa parceria Nariz Entupido / Cultura no Muro, a do encontro do trio Crua com o duo Canzana, os outros numa colaboração do colectivo A Besta também com a Cultura no Muro, na forma da quarta edição do ciclo A Besta e o Muro, desta feita com um cartaz de curadoria de projectos externos à A Besta, com Soda Cáustica, Diana Maccabee e Baga-Baga como convidados.

À beira do vulcão

 

Depois da passagem pela SMUP, apenas um mês antes, dos Angles 8, grandes eram as expectativas quanto à variante 3 da fórmula que o saxofonista e compositor sueco Martin Kuchen tinha trazido. Até porque foi esta que antecedeu todas as demais (Angles 6, Angles 9, Angles 8), no início da década de 2000. A colaboração de Kuchen com Ingebrigt Haker Flaten e Kjell Nordeson deu lugar a outras, até pelo facto de o contrabaixista (norueguês) ter ido viver para Austin e o baterista (sueco) para San Francisco, nos Estados Unidos, mas foi agora repescada. A maior parte do repertório apresentado foi o de todos os outros Angles, com a sua adaptação para trio a revelar uma mais-valia de essencialização dos planos rítmico e melódico, por via da simplificação do harmónico. A receita era, pois, a mesma, numa sucessão de motivos africanos e do folclore escandinavo dentro de uma moldura de free bop, mas já as estratégias desenvolvidas tiveram outros parâmetros.

Nesta variante, ficou mais valorizado o impacto do que a nuance. O formato de power trio jazz de saxofone, contrabaixo e bateria referenciou-se no do power trio do rock, com o tenor ou o soprano de Kuchen a tomar o lugar não só da guitarra como da voz, surgindo na mistura ao meio dos outros dois instrumentos, e não em cima, como é comum no jazz. Isso fez toda a diferença, pois a “secção rítmica” não se comportou como tal, ganhando uma maior presença, tão frontal quanto a do próprio líder “solista”. Mas mesmo em termos de gestão da energia se fugiu ao óbvio:  Martin Kuchen tocou mais em termos de uma promessa de força do que assumindo esta plenamente. Soprou sempre como se estivesse a controlar-se, a abafar as notas que projectava no ar, a anunciar um clímax adiando este de momento a momento, assim fazendo com que tanto o sax tenor como o soprano soassem roucos e amordaçados. Da parte de Flaten este constante evitar de uma erupção fazia-se pela repetição de “riffs” ou pela sua minimalista derivação, moldando-lhes o poder mesmo à beira do limite. Nordeson fez o mesmo, jogando brilhantemente os muito afirmativos padrões rítmicos contra as suas implicações texturais, ou vice-versa.

Metade da assistência do último concerto dos Angles 3 foi a do primeiro, denotando a curiosidade do público quanto ao processo de aprimoramento que a residência artística a decorrer podia trazer a este grupo que esteve mais de 10 anos sem tocar. E trouxe: no dia 24, as peças estavam mais compactas, mais coladas, mais previstas quanto ao efeito de audição que podiam ter, e o certo é que mereceram uma ovação de pé de todos os presentes durante longos minutos. Anuncia-se um excelente disco, gravado por um baterista de jazz português, Luís Candeias, que é também técnico de som.   

Matéria orgânica

 

Os Crua de Carlos Carvão, Daniel Neves e André Hencleeday vêm ao longo de 2016 realizando uma série de concertos na SMUP em que convidam uma outra formação a com eles realizar «um propósito intrínseco de experimentação baseado na improvisação contínua». Desta vez foi a dupla Canzana, de Pedro Sousa e Bruno Silva, que a eles se juntou. Conhecido o grupo anfitrião pelo elevado volume decibélico de uma música que tem claras raízes idiomáticas no rock, foi com surpresa que ouvimos a primeira parte do concerto: esta decorreu com um balanço pausado e de “soundscaping” guitarrístico, criado por Carvão, com breves comentários de Silva na segunda guitarra e o suporte percussivo de Neves e Hencleeday, com Sousa a manter-se silencioso. Foi o saxofone tenor deste, no entanto, que em dada altura agitou a fogueira ao acrescentar-se à trama que lentamente ia sendo urdida. A música cresceu, ganhou corpo e matéria orgânica.

O capuz que escondia a cabeça de Carvão fez-nos lembrar as performances dos Sunn0))), mas o que ouvíamos tinha mais semelhanças com uns King Crimson na versão “jam” do período “Thrakattack”, se bem que num registo particularmente ácido. Foi como que a escalada de um monte: uma saída ascensional conduzia a uma “paragem” para olhar em volta, numa atitude contemplativa, logo se seguindo outra subida e nova calmaria de observação. No final, a intensidade a que se chegara era tão extrema que só podia anunciar o cume e o fim da viagem. Foi uma belíssima actuação de um projecto, Crua, que vai ganhando cada vez maior interesse, e uma experiência diferente para os Canzana – se não da parte de Pedro Sousa, cuja prestação “ardeu” tanto quanto num “gig” do duo, pelo menos na do particularmente comedido Bruno Silva.

Boa onda

 

Foi o trio Soda Cáustica, constituído por Elisabete Reia, Lucília Raimundo e Maria Ribeiro, que abriu o A Besta e o Muro IV, com a curiosidade de algo que vem da área da “club music”, com elementos do hip-hop e do techno, ter caído no agrado de uma audiência (a da SMUP) mais virada para o jazz criativo, a improvisação livre e o rock alternativo. O carácter improvisacional da prestação e o seu alinhamento pelo que as próprias chamam de «experimentalismo lúdico» contribuíram para a lógica desta inserção no programa e para os ouvintes a considerarem como algo de «fresco». Três vozes, um “laptop” e dois gira-discos: foram estas as ferramentas para uma intervenção apresentada como «poético-musical» e que viveu muito da performatividade física das três participantes, com realce para a particularmente teatral e animada Raimundo.

Se algumas transições de motivos musicais, ou simplesmente de batidas, por parte da gira-disquista Maria Ribeiro deixaram algumas dúvidas, para mais quando as suas companheiras mantinham o mesmo tema, já a boa onda transmitida foi totalmente convincente, bem como o conceito por detrás deste electrificante “live act”. Um projecto a que valerá a pena dar atenção.

Em “loop”

 

Às portuguesas Soda Cáustica seguiu-se a californiana Dina Maccabee, por cá mais conhecida por trabalhar com Julia Holter e com Carla Bozulich, mas que tem em paralelo uma bastante positiva actividade a solo e como líder. Bastou um tema para esta violetista (também violinista, mas não nesta ocasião) e cantora da Califórnia conquistar o entusiasmo geral. Com o seu instrumento ligado a um computador e a alguns pedais de efeitos, e gerindo um sistema de “looping” para uma organização da música por camadas que se somavam ou subtraíam, as canções pop/folk “arty” de Maccabee estiveram algures entre o que fazia o saudoso Arthur Russell e a Iva Bittová dos primeiros anos. As molduras eram pop e folk, de facto, mas evidente foi igualmente o peso da formação desta antiga aluna da Wesleyan University, a mesma em que Anthony Braxton é professor, com as vanguardas a transparecerem em cada solução musical. Em Portugal, apenas Joana Guerra anda perto deste tipo de abordagem.

Não era propriamente jazz, não havia um preponderante contributo da improvisação, mas este era um terreno mais familiar aos jazzófilos que, em noite de chuva abundante, foram ouvir as propostas de A Besta. Para este ouvidor, além das conexões referenciais de Russell com a Kitchen de Nova Iorque e de Bittová com Fred Frith estava o paradigma unificador que foi “Escalator Over the Hill”, de Carla Bley com a Jazz Composers Orchestra. Um bom timbre de viola e uma excelente voz fizeram deste o segundo melhor concerto da semana “infernal” que passou.

Psico-livre

 

O serão terminou com os Baga-Baga, um novo agrupamento que é já uma consequência da vinda do saxofonista brasileiro Yedo Gibson para Lisboa em Agosto deste ano, depois de um longo período de residência em Amesterdão. Com ele estiveram na SMUP o guitarrista Jorge Nuno, dos Signs of the Silhouette, e o manipulador de objectos (ele recusa a designação “percussionista”, pois faz azo da sua condição de não-músico, apesar de um percurso que vem dos anos 1970 com os Plexus) Monsieur Trinité, parceiro igualmente de figuras como Sei Miguel e Ernesto Rodrigues. Percebe-se que a ideia que orienta a banda é forjar um free jazz psicadélico, beneficiando dos “backgrounds” de Gibson e de Trinité no free e na música improvisada (este último conseguiu-o com os Sirius) e de Nuno no psicadelismo rock, mas aquilo a que assistimos foi mais uma adição dos dois mundos do que uma mistura. Deveras interessante, sem dúvida, e com um ou outro momento especialmente cativantes, mas que ainda precisa de maturação. Afinal, trata-se de uma colaboração ainda no começo, com todo um caminho a percorrer.

A música ora soou mais free quando era Yedo Gibson a tomar o primeiro plano, ora mais psicadélica quando Jorge Nuno ganhava protagonismo, e essa contraposição foi até bastante curiosa. Quando procuravam uma interacção, o sax soprano e a guitarra ocupavam os seus próprios territórios, não conseguindo entrar no do outro. Só Trinité ocupou, na verdade, os dois, e sem necessitar de ir e vir: o que era num era no outro, igual a si próprio, psico-livre.